A roda dos enjeitados

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​Capítulo 51:
A Roda dos Enjeitados (Versão Revisada)

​Nas Vilas...

​As vilas encontram-se movimentadas. Muitos negros libertos tentam ganhar o pão de cada dia; a maioria são negros mais velhos que já não conseguem trabalho nas fazendas. Crianças e mulheres também sofrem com o ócio contínuo. Muitas negrinhas jovens estão se virando como podem para ganhar dinheiro, pois sustentam aqueles que não conseguem se prover.
​A vida de tais negras não mudou muito após a liberdade; continuam se sujeitando a homens, com uma pequena diferença: na escravidão, eram forçadas a servir a senhores, capatazes e capangas, caso contrário, apanhavam. Hoje, vendem seus corpos por míseros trocados; também não escolhem seus parceiros — quem pagar é o escolhido. E assim a liberdade mostra suas muitas faces para quem sempre a desejou e, agora que a tem, não sabe o que fazer com ela.

​No Sítio...

​— O que ela te disse, Ayana?
— Que não quer ver o menino. Que posso levá-lo para sempre. Não a culpo; o negro Mané não nos deixou escolha. Olhar para o menino todos os dias será um suplício para a menina Catarina. Vou arrumar a criança e logo podemos partir.
— Não se preocupe. Cuidaremos bem do seu filho; as meninas o amam e têm muito zelo por ele — diz Dona Alma.
​Senhor Damião está encostado na porta da cozinha. Em seu rosto avermelhado e em seus olhos inchados, vê-se a dor de um pai por sua filha. No coração daquele homem, os sentimentos se misturam: a dor da filha violentada por um monstro e, do outro lado, um bebezinho — seu neto — que não tem culpa, mas pagará pela monstruosidade do pai. Ayana sai rumo ao seu quartinho para arrumar o mulatinho para a viagem somente de ida.

​Assentamento...

​Miro e Leôncio chegam ao assentamento. Várias casinhas de pau a pique; muitas pessoas viviam ali. Os negros diziam que a terra era da Coroa e que ninguém reivindicara a posse; enquanto isso, plantavam e sobreviviam ajudando uns aos outros. Aqueles que conseguiam serviço dividiam o dinheiro com os que não conseguiam. Pessoas favoráveis à libertação, de vez em quando, traziam ajuda, como sal e sementes.
​Os dois amigos estavam em estado deplorável; suas roupas eram trapos. Os homens do acampamento foram solidários e dividiram o pouco que tinham; uns trouxeram camisas, outros calças. Assim, os dois negros ficaram apresentáveis novamente.

​A Partida...

​Ayana veste o menino com uma roupinha que pertenceu ao seu filho quando menor. Orácio e Bidu estão preparados para a partida. Mesmo tendo uma grande dívida com o Senhor Damião, Orácio escolhe partir; o patrão não o retém, pois sabe que o negro já cumpriu sua obrigação. O velho Orácio sonha encontrar seu irmão, que não vê há muitos anos.
​A carroça está preparada. O bebezinho chora pelo solavanco da saída. Começa a jornada de Ayana e do menino sem nome. Da janela do quarto, Catarina observa a carroça sumir no horizonte. Ela volta a deitar-se e, sob o cobertor, derrama lágrimas. Seu coração está aliviado; não sente mais o peso da dor que Mané causou. Houve momentos de arrependimento, mas nada que a lembrança daquele fatídico dia não apagasse. O racismo congênito impregnado em sua pele não permite que seus olhos enxerguem um mulato como filho. Para ela, uma branca ser mãe de um filho negro é uma maldição. Não há como apagar o racismo do cérebro.

​Na Vila...

​Os cavalos trotam por horas. Orácio e Bidu se despedem com olhos marejados; foram anos de convivência, mas o desejo de ser livre fala mais alto. Seu Damião leva Ayana até o convento. Perto do portão lateral, há uma grande roda de madeira. A negra desce, gira a roda e o caixote aparece. O barulho do mecanismo soa como milhares de anjos gemendo a triste sorte dos filhos sem mãe depositados ali. Ayana beija o menino; lágrimas descem sem cessar.
​— Perdoe sua mãe, pequenino. Ela não sabe o que está fazendo com você.
​Ela coloca o menino no caixote, gira a roda e o mulatinho some atrás do muro. Ao subir na carroça, vê o Senhor Damião estático, em silêncio total. Atrás de uma árvore, um jovem de mente embaralhada reconhece Ayana. Quando uma mulata se aproxima dele, ele diz:
​— Manuela! Eu vi a nega Ayana colocando o filho dela na roda dos enjeitados! Eu vi, eu vi!
— Mentira sua!
— Vi sim! A nega do Leôncio! Ela colocou o filho dela na roda! Eu vi mesmo!
— Será que ela fez isso com o filho do Leôncio? — pergunta a mulher, intrigada.

Maria Boaventura

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