Assentamento

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​Capítulo 50:
Assentamento (Versão Revisada)

​Na Capital...

​Rodolfo e seu amigo Damasceno estão incumbidos de levar à justiça muitos senhores que abusaram de seus ex-escravos, mesmo após a Lei Áurea ser promulgada. Para o negro, a luta continua renhida; seus antigos senhores continuam usando de seu trabalho, prometendo salários que não são pagos, usando de castigos e aproveitando-se de sua simplicidade...
​Mas o que mais vem fazendo o negro procurar as leis dos brancos é a concessão que juízes têm dado a alguns senhores de terras: a adoção de crianças negras após a alegação da inaptidão de seus antigos escravos para cuidarem dos menores. Isso mantém os pais em suas lavouras sobre o antigo regime de escravidão, pois não recebem salários e trabalham apenas em troca de comida e de estarem próximos de seus filhos.
​Aurélia e Letícia estão tendo seu trabalho na área médica melhor reconhecido. Sua eficiência e conhecimento têm deixado as mulheres da corte mais à vontade para explicarem seus males femininos e, com isso, os maridos também se sentem mais seguros deixando suas esposas aos cuidados de médicas do mesmo sexo.
​O amor do Doutor José Jerônimo e da Baronesa de Vertilhos está cada dia maior. Octaviana é uma deusa, uma fada. Sua simpatia e bondade cultivam grandes amizades, mesmo que a cor de sua pele, às vezes, interfira...
​— José, meu querido. Fico aguardando ansiosa sua chegada quando vens para jantares comigo. Não imaginei que meu coração pudesse sentir novamente o que venho sentindo por você. Sua beleza interior, sua bondade, sua grandeza como homem negro e sua luta pelos menos favorecidos cativaram meu coração. Estou amando-o com todas as batidas de meu coração. Peço que me desculpe se estou sendo despropositada; na verdade, não tenho mais idade para esconder o que sinto! E te digo que estou apaixonada, amando esse negro lindo e calado que está à minha frente.
​José Jerônimo olha dentro dos olhos de Octaviana, pega-lhe as mãos e as beija. Enlaça-a em seus braços e beija-lhe a testa, a bochecha e, por fim, os lábios com muito fulgor:
​— Este negro aqui está completamente apaixonado, enamorado e amando essa linda mulher que está à minha frente. Peço que me perdoe, sou acabrunhado quando o assunto é do coração. Eu a amei desde a primeira vez que a vi e não deixo de pensar em seu belo sorriso, seus olhos de ninfa, em todos os segundos do meu dia. Te amo, não posso fugir desse amor...
​Ele ajoelha no piso do alpendre e segura-lhe a mão:
— Baronesa Octaviana, darias a honra de se casar comigo?
Ela abre um imenso sorriso e diz:
— Sim! Eu te dou a honra de ser meu marido.
— Não tenho aliança aqui agora, mas prometo que irei comprar o mais rápido possível.
— Para que aliança, se tenho seu amor?!
​E a felicidade invade os corações da Baronesa e do seu amado negro ébano, Doutor José Jerônimo.

​Na Mata...

​Após o dia amanhecer, Leôncio e Miro saem seguindo a correnteza do rio. Eles sabem que, cedo ou tarde, o rio os levará à civilização. Sempre ajudando seu amigo a caminhar, Leôncio vai à frente procurando o melhor caminho.
​— Já deve ser o meio do dia. Pelo jeito, estamos muito longe da estrada ou de alguma fazenda.
— Não se esqueça de que somos negros e que chegar a alguma fazenda pode ser mais ruim do que bom.
— Com esses trapos que estamos vestindo e essa sua magreza, acho difícil alguém nos dar guarida!
— Magreza?! Com essa sua perna torta e essa negritude? Isso sim se faz difícil! Difícil é pouco; acho deveras impossível arranjarmos guarida.
​Andam por mais umas duas horas... De repente, Leôncio para e faz um sinal com a mão para que seu amigo faça silêncio. Quase cochichando, Leôncio diz:
— Ouça, estou ouvindo pessoas conversando.
— Também estou.
​Eles caminham abaixados, fazendo o máximo silêncio possível. Chegam à beira do rio mais à frente e veem alguns negros banhando-se e conversando despreocupadamente. Eles saem de trás das pedras:
— Boas tardes, irmãos! Eu e meu amigo Miro estamos perdidos e gostaríamos de saber onde estamos.
​Os negros olham com desconfiança; dois negros maltrapilhos saindo do nada, no meio da mata, causam receio. Mas, nos tempos em que vivem, com negros perambulando em busca de trabalho, tudo se torna costumeiro.
​— Boas tardes, irmãos! Se acheguem — diz um deles.
— O que fazem por estes lados?
— Na verdade, estávamos perdidos na mata já faz mais de dois meses. Meu amigo quebrou a perna e não pudemos caminhar. Estávamos sendo perseguidos e ficamos receosos de sermos apanhados... depois achamos uma caverna... muito palmito e gongolos de pau podre...
— Meus amigos, que história! A vida tem sido difícil mesmo. Vamos, temos um assentamento aqui pertinho. Arranjaremos roupas e comida para os dois; vão nos contando a história...
​E assim, os dois amigos chegaram a um quilombo onde havia muitos negros e negras vivendo ou sobrevivendo como podiam.

​No Sítio...

​O dia amanhece e o menino de Catarina chora. Ayana o amamenta e o deixa deitado no seu quartinho. Dona Alma e Senhor Damião já estão de pé. Conversam sobre o futuro da criança quando Ayana adentra a cozinha.
​— Bom dia, sinhá e Senhor Damião!
— Bom dia, Ayana! Estamos conversando sobre o mulatinho. Precisamos que você vá até a vila com o Damião.
— Não entendo, sinhá.
— Catarina não quer nem ver o menino. Nós não queremos, nem podemos ficar com ele aqui! Damião não pode levar o menino, são muitas horas na carroça. Pensei que você poderia levá-lo até o convento e deixá-lo lá. Por favor! Cuidaremos do Gabriel para você; hoje à noite já estarão de volta.
​A negra olha para o rosto de Dona Alma e o rosto de Senhor Damião; não viu amor nem misericórdia pelo menino. Então disse:
— Posso falar com Catarina antes de irmos?
— Pode sim!
​Ela entra no quarto e Catarina está enrolada no cobertor com os olhos cheios de lágrimas.
— Você está se sentindo bem, menina?
— Ayana, não me obrigue a vê-lo, por favor! Eu não quero, não quero!
— Está bem! Vou levá-lo, para sempre...
— Leve!
​O coração da negra enche-se de pesar, mas não pode fazer nada. O menino irá embora. Isso, para ela, é muito triste.

Maria Boaventura.

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