Sangue na manhã...

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Capítulo 33:
Sangue na Manhã (Revisado)

​Na Capital...

​— Fique esta noite conosco, tio José. Sei que moras muito distante e não é bom andar por esta cidade a estas horas da noite.
— Aurélia, não há problema algum; sou acostumado a tecer por estas ruas durante a noite.
— Isso poderia ser deveras verdade antes da abolição, agora estão ocorrendo muitos assaltos e espancamentos. Uns culpam os negros por tanta violência, outros culpam os senhores que perderam seus escravos... Na verdade, não se sabe quem são os culpados. Ou seremos todos culpados?!
​— Meninas, digo que a lei é a grande culpada desse impasse — pondera o doutor José. — Pois não foi deliberada uma lei que socorresse os escravos na hora em que mais precisam. Pergunto-me: como eles irão viver sem a ajuda da Coroa? Eles não têm cultura, não têm especialização, não têm ganho algum! E seus filhos? O que irão comer ou vestir? Realmente, essa Lei Áurea veio para tirar os negros do espeto e jogá-los na brasa! Fico indignado com o descaso de nossas autoridades. Foi tudo bonito, tudo muito lindo... somente no papel! Ninguém pensou nas vidas dos libertos; o sofrimento continua, quiçá pior do que antes!
​— Vejo isso todos os dias. Está impossível ver tantos famintos nas ruas — comenta Aurélia. — As crianças choram de fome, estão doentes e fracas.
— Mulheres outrora honestas se prostituem pois não têm o que comer! O que podemos fazer? Na verdade, quem pode fazer algo pela raça negra?
— É uma questão a ser discutida pelos governantes. Resta-nos ajudar o máximo possível, porém sem nos prejudicarmos — conclui o tio.
​— Tio, lembrei-me de algo... Fui fazer uma visita à baronesa Octaviana de Vertilhos e contei-lhe sobre o senhor e sua luta para se formar em Direito. Ela se surpreendeu com sua história. Deu-me este bilhete e pediu que o entregasse: é para meu digníssimo tio fazer-lhe uma visita. Ela prioriza a cor e tem negócios pendentes que carecem de um olhar clínico de um advogado.
​Os três riem. As doutoras convencem o tio a pernoitar; ele agradece e adormece na poltrona da sala.

​Fazenda Esmeralda

​Vários fazendeiros decidiram se reunir para polemizar sobre sua nova condição de empregadores. Mesmo tendo se passado alguns meses, a proximidade da colheita traz incertezas. Com os costumes cauterizados pelo regime escravocrata, livrar-se de tais hábitos está sendo pesaroso.
​De quando em vez, um fazendeiro ou capataz ainda se pega açoitando algum negro. Isso vem causando dores de cabeça aos donos de terras, pois os negros se revoltam e partem à procura de novos lugares. Em contrapartida, muitos negros ficaram nas fazendas trabalhando da mesma forma que antes: viver é melhor que morrer. Assim, não se dispuseram a mendigar pelas estradas, o que para os donos tornou-se lucrativo, pois não perderam a mão de obra.
​Às sete horas da noite, a mesa está posta. Dona Beatriz caprichou no jantar.
​— Senhor Samuel, o jantar está supimpa! Agradeça à sua senhora.
— Digo o mesmo, está um manjar para os deuses!
— Senhores, senhores! — interrompe Gustavo de Sousa e Silva. — Convenhamos que não viemos aqui apenas para encher a barriga, e sim para falarmos sobre nossas colheitas que estão às portas!
— Amigos, este ano não vejo como derriçar meu cafezal — reclama Samuel. — Os negros não param no eito. Todos os dias vão embora após receberem a miséria que lhes pago! Confesso, tem me ficado mais barato do que manter aquele monte de gente nas senzalas... Porém, eles estão achando-se "gente"! Pensam que podem exigir melhores condições e salários; vê se pode?!
​— Nossos governantes se juntaram para acabar com nossas vidas! — brada outro fazendeiro. — Foi uma falta total de honra e dignidade. Quero ver quem há de alimentar este país sem a mão de obra escrava.
— E agora temos que lidar com esses italianos dos infernos! "Aspetta un attimo, stiamo arrivando!"... Que merda é essa?! Já estou enlouquecendo!
​A reunião estende-se por horas. Pelas tantas, o senhor João Paulo Garcia, dono da Fazenda Rio do Ouro, chama Samuel de lado:
— Antes de ir embora, quero te contar algo que imagino ser do seu interesse.
— Pois diga logo!
— Aquele escravo que você tanto queria matar está trabalhando em minha fazenda.
— O maldito Leôncio está na sua fazenda?
— Creio que sim. O negro está sempre junto com o Miro, que o chama de "Leão", imagino que para disfarçar.
— Peguei o maldito!
— Então, meu amigo, mate logo o negro e seja feliz novamente... você merece voltar a viver em paz.
​João Paulo dá dois tapinhas nas costas de Samuel, monta seu cavalo e parte rumo à Estrada do Pinho. Samuel, sozinho na escuridão, murmura para si mesmo:
— Você vai morrer, negro! Eu vou beber seu sangue no café da manhã...

16/11/2021

Maria Boaventura.

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