Paixão oculta

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Capítulo 35:
Paixão Oculta (Revisado)

​A aurora vem rompendo a escuridão da madrugada. O sol nasce refletindo seu brilho intenso e seu calor. Todos estão no eito trabalhando. Leôncio e Miro são homens trabalhadores; por esse motivo, sempre conseguem serviço em fazendas da região.
​O que realmente interessa para o negro Leôncio é encontrar sua esposa e seu suposto filho. Hoje, em especial, seu coração irá se alegrar com uma notícia há muito esperada.
​— Vamos, trabalhem! Não pensem que, por não serem mais escravos, a vida será mais branda... — assim fala o capanga do coronel que faz a vigia dos trabalhadores.
​Os becos do cafezal estão sendo limpos para a derriçagem dos grãos. Por toda parte do território brasileiro, a preparação para a próxima colheita transformou-se em um caos, pois a mão de obra tornou-se incerta e instável. Os negros fortes, que são os mais aptos para o trabalho, não estão satisfeitos com o preço insignificante de suas diárias; eles migram de fazenda em fazenda à procura de melhores salários e acomodações.
​Há uma movimentação entre os grandes proprietários de terras, que se reúnem procurando soluções rápidas para essa situação de difícil resolução. Uma das maneiras encontradas foi a de acusar os negros de vadiagem, impedindo a migração daqueles que não se estabilizam em um só local. Esse infame pedido foi acatado pelas autoridades judiciais, e o negro que não aceite a lei torna-se criminoso ou "vadio".
​A vida dos homens negros que lutam por um melhor salário tornou-se cada vez mais difícil. Não há como uma ovelha vencer a luta contra um leão; o negro, mais uma vez, torna-se escravo de leis que são promulgadas para favorecer os brancos — leis feitas por eles, para eles.

​No Meio do Cafezal

​— Já disse que conheci lá pelas bandas da fazenda São Benedito uma negra por nome de Ayana! Ela é bonita e bem-educada, deve de ser a mulher de seu amigo Leão.
— Ela tem um filho ainda pequeno? — pergunta Miro.
— Não vi moleque algum, mas conheci-a na estrada perambulando; pode ter deixado o filho com alguém.
​Miro crê ser a negra Ayana, esposa de Leôncio. Chama seu amigo, que está trabalhando em uns dois eitos abaixo.
​— Leão, tenho novidades para você! Este é o Jair, ele disse que encontrou a Ayana lá pelos lados da fazenda São Benedito.
— Verdade? Quando? Eu preciso saber quanto tempo faz!
— Olha, amigo, faz uns quinze dias. Ela me pediu algo para comer, disse que tinha fome e que estava indo para a capital.
— Eu tinha te falado, Miro! Ela foi para a capital. Creio que ela ache que morri. Sem nossos filhos... a capital é a melhor chance para ela sobreviver. Partirei amanhã de manhã.
— Partirei, não. Nós partiremos!
​O coração de Leôncio se abre como uma flor na primavera. As esperanças enchem seus olhos de alegria e seus lábios sorriem como há muito não sorriam.

​No Sítio

​Dona Alma vive angustiada com a tristeza de Catarina. A jovem boa e cheia de vida já não existe; vive chorando pelos cantos e passa longas horas sentada à beira do riacho, fitando o horizonte por longo tempo. Quase não se alimenta.
​Selma sempre está com o filho de Ayana nos braços. O menino já está se levantando, segurando-se em objetos, o que causa euforia na menina. Contudo, o medo e o terror que passou nas mãos do infame Mané aparecem de vez em quando durante a noite; pesadelos assombram seu sono e a menina acorda aos gritos. Sua mãe a ampara.
​Em uma tarde chuvosa, o senhor Damião chega da vila e chama sua mulher para uma conversa em particular.
​— Alma, você não imagina o que descobri na vila!
— Diga-me logo!
— A Princesa Isabel, juntamente com a corja de seus subalternos do senado e da justiça, libertaram os escravos!
— O quê? Me conte isso...
— Pois é, todos os escravos não são mais escravos. Eles podem partir quando quiserem! Não podemos fazer nada.
— E o dinheiro que nós demos por eles?
— Que dinheiro? A cadela nos tirou tudo! Não nos dará um vintém.
— O que faremos?
— Deixemos que partam! Digo, isso já faz mais de quatro meses e eu não sabia de nada.
— Nem eles sabem.
— O quê?
— Ora, vamos deixar assim. Quando eles souberem, dizemos que não sabíamos. Quem vai colher nosso café? A Catarina está nesse estado, Selma é uma criança! Você e eu? Cale-se! Não diga nada! Quando eles descobrirem, eles irão...
— Você sabe que pode sobrar para nós. E se eles se revoltarem?
— Eles estão comendo e bebendo, o que mais podem querer? Se saírem por aí, vão passar é fome.
— Isso, com toda certeza. Você precisa ver o caos que está na vila e nas estradas; são milhares de negros perambulando sem rumo pelos caminhos.
— Então, fique quieta... o que tiver que ser, será!
​O casal combina não contar aos negros que, agora, eles são livres para ir e vir.

​Fazenda Esmeralda

​Samuel passa a noite toda rolando em sua cama. Quando dorme um sono rápido pela madrugada, tem um pesadelo com sua família e a família de Leôncio.
"... Não, Leôncio! Por favor, não mate minha família..."
​Ele olha para a grama verde; ela se torna vermelha e pegajosa. O sangue cobre-lhe os pés. Seus quatro filhos estão amontoados. Os olhos de Beatriz estão perfurados; ela traz quatro corações em suas mãos. Samuel grita e implora para que Leôncio não mate seus filhos. Ayana vem andando ao seu lado, toda sedutora; dá-lhe um beijo nos lábios, sorri e caminha para a entrada da casa grande.
​— Venha, Samuel... venha, meu amor...
​Ele acorda com o coração aos pulos. Olha para o lado e vê dona Beatriz, que dorme profundamente.
​— Ayana! Sua negra maldita, até em meus sonhos me atormenta?!
​Seu coração está acelerado. Lembranças do passado vêm à sua mente. Aquela mulher sempre lhe causou sonhos e pesadelos. Ele se levanta e senta-se no alpendre, fuma seu cachimbo e pensa na negra.

Maria Boaventura

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