Capítulo 32:
Inocência e Razão (Revisado)
Na Capital...
Aurélia chega à casa da baronesa Octaviana de Vertilhos de braços dados com Rodolfo. O palacete de alta classe, em um bairro famoso do Rio de Janeiro, recebe-os através de um serviçal muito elegante, trajando paletó e luvas.
Desce a escadaria do segundo andar uma mulher de uns quarenta anos, muito bem vestida. Para a surpresa de Aurélia, a baronesa é uma linda mulata que lhe sorri copiosamente.
— Sejam muito bem-vindos à minha casa! É um imenso prazer recebê-los.
— O prazer é todo meu, baronesa. É um imenso prazer conhecê-la! — diz Aurélia.
— Venham e se sentem. Meu amigo, o conde Miguel, disse-me que um advogado e sua namorada médica queriam falar-me ou fazer-me um pedido. Se puder, de alguma forma, ajudar, ajudarei com todo prazer.
— Baronesa, eu e minha prima Letícia somos médicas; nos formamos na Europa, pois aqui no Brasil foi-nos impossível... Enfim, estamos tentando manter nossa clínica funcionando, porém, após a libertação, nossos pacientes aumentaram muito. Estamos à beira da falência.
— Baronesa, o trabalho é sem fins lucrativos — acrescenta Rodolfo. — Elas estão tentando ajudar o máximo possível os negros e pobres doentes. Sem medicamentos e outros itens necessários, o jeito será fechar as portas!
— Meu Deus! As portas não poderão ser fechadas! E os pobres, e os negros, quem irá socorrê-los nesta hora difícil em que estamos passando?!
— Por esse motivo aqui estou. Preciso falar com a princesa; preciso da ajuda do Estado. Não vejo saída!
— Você não imagina o que está passando a regente após a libertação, porém posso falar com ela sobre seu dilema.
— Ficarei extremamente grata.
Após tomarem um chá com biscoitos e a baronesa contar sua história de amor com o falecido barão, Rodolfo e Aurélia se consternam; nasce ali uma sólida amizade. Aurélia contou-lhe a história de sua família, o quanto seus pais lutaram pela liberdade desde os anos de 1860; contou-lhe sobre seu tio José Jerônimo e sobre sua luta para se formar sendo negro e alforriado. A senhora baronesa mostrou um imenso interesse nos serviços de advocacia de seu tio, sempre enfatizando o valor em proteger e ajudar os irmãos de cor.
Os jovens doutores se despedem, prometendo voltar para mais uma tarde agradável.
— Gostei imensamente dela, Rodolfo.
— Ela realmente é uma lady. Creio que fará de tudo para que a princesa te receba, mas já conseguiste uma boa ajuda da parte dela.
Nos Portos e Campos
Nos portos, vários navios chegam superlotados de imigrantes italianos. Eles já vinham ao Brasil há tempos, à procura de trabalho e riquezas. A mudança ocorrida faz com que sejam extremamente necessários para que os fazendeiros toquem suas lavouras de café sem a mão de obra escrava; o que resta é pagar pelos serviços.
Os escravos tentam se adaptar ao seu novo estado de cidadãos livres, porém está sendo difícil, pois continuam sendo perseguidos e marginalizados da mesma forma que antes.
Passam-se quatro meses...
Os negros da Fazenda Esmeralda estão instalados no quilombo. Grande parte dos mais jovens já foi procurar trabalho em alguma fazenda ou na cidade. As mulheres e crianças estão em barracos feitos de pau a pique. A caça, a pesca e o plantio de legumes tentam suprir a necessidade de alimentos. Muitos homens estão trabalhando até a estafa por alguns trocados, pagos com desrespeito e arrogância.
Leôncio e Miro saem pelos arredores da Fazenda Esmeralda trabalhando em diárias. Leôncio procura sua esposa por toda parte, porém ninguém nunca ouviu falar dela. Ele imagina que o senhor Samuel a tenha matado, como fez com seus filhos.
— Para com isso, Leôncio! Ele não matou a Ayana; ele a levou só para fazer maldade com você. Eu já te disse para irmos para longe daqui. Se ele souber que você ronda as fazendas vizinhas, ele vai te matar. O ódio daquele satanás é incurável; ele quer beber seu sangue no café da manhã.
— Meu amigo Miro... sei que você tem razão. Ele vai me matar, mas eu tenho que saber o que ele fez com minha Ayana e com nosso filho. Ela deve pensar que eu estou morto. Pobre Ayana! Deve estar passando necessidade, sozinha pelo mundo com essa maldita liberdade dos infernos! Liberdade que trouxe fome, desgraça e mais miséria. Vou para a capital ver se a acho por lá. Preciso arrumar alguém para me ajudar a colocar esse maldito atrás das grades ou na forca! Ele precisa pagar o mal que fez aos meus filhos.
— Para com isso, Leôncio! Ele é rico e branco; não tem lei para ele. Só tem lei para nós. Você é quem vai preso por não salvar o filho dele!
— Não! Ele matou meus filhos; eles eram livres, crianças livres! Se, de toda forma, não conseguir que ele pague, eu mesmo o mato! Arranco os olhos dele, corto-lhe as mãos, os pés e arranco o coração dele; eu juro!
— Assim, sim! Isso é o certo.
— Eu não sou ele, não sou assassino. Só em último caso, se não houver justiça, eu faço justiça!
O Sítio
Catarina está com a barriga saliente; o quinto mês encaminha-se para o sexto. Ela chora compulsivamente. Dona Alma deu-lhe vários remédios feitos de plantas para que ela abortasse a criança, mas todos falharam. Até mesmo Ayana usou de seus conhecimentos; nada! Agora que a gestação está avançada, não há nada a fazer a não ser aguardar o nascimento.
— Você conhece mais alguma planta para que a Catarina se livre desse bucho maldito?!
— Desculpe, sinhá. Não devemos mais dar remédio para ela. A gravidez está avançada, a menina poderá morrer. É deveras tarde!
— Aquele negro maldito! Colocou esse feto que não saiu por nada! Pobre da minha menina, terá que parir esse filho do demônio.
— Calma, ela é uma menina forte, vai aguentar.
— É só ela parir que o Damião vai colocar essa cria ruim na roda dos enjeitados! Aqui ele não fica nenhum dia.
— O que é isso? A roda?
— Sim! Um lugar onde se colocam as crianças sem pai nem mãe; as freiras cuidam deles.
— Ainda bem! Pensei que eles morriam.
— Antes morressem!
— Não diga isso, sinhá. Eles são anjos.
— Não aquele! Aquilo vai puxar o pai e continuar fazendo mal para quem ficar na frente. Você é quem não deveria defender, olha o que ele fez com você! Fez você matar uma pessoa...
Ayana recorda-se do ocorrido e se cala. Seu filho está engatinhando e não se pode negar que é filho do Samuel. O menino é a cara dele, escarrada e cuspida.
Catarina ouve o que diz sua mãe, sai para o rio e senta-se com os pés na água. Chora e esmurra sua barriga com uma imensa força.
— Morre, seu demônio! Por que você não morre?!
Ela grita e chora. A pobre menina não é mais aquela jovem bondosa e alegre. O negro Mané, com sua monstruosidade, roubou-lhe a inocência e a razão.
Maria Boaventura.
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Espinhos da Liberdade
Historical FictionApós a abolição da escravidão, muitos escravos libertos se viram sem rumo, sem perspectiva. Saíram sem nada, a não ser, suas vidas errantes pelos caminhos desconhecidos do destino. A liberdade tão sonhada, transformou-se em espinhos. Uma nova, velha...
