Capítulo 52: Encontro Inesperado (Versão Revisada)
Na Capital...
A felicidade toma conta do coração do Doutor José Jerônimo e da Baronesa Octaviana. Para pessoas tão amáveis, nada melhor que dividir essa alegria. Após uma conversa, combinam oferecer um jantar íntimo para comemorar o enlace.
Na Vila...
O silêncio faz-se companheiro dos dois ocupantes da carroça. Seu Damião vive um dilema: o mulatinho que acabara de deixar na Roda dos Enjeitados é seu neto. Metade do sangue que corre nas veias do menino é sua herança, e essa metade grita que o que permitiu é errado. Mas como obrigar sua filha a conviver com a lembrança do monstro? Duas cabeças, duas sentenças.
No casebre de Nhá Jacinta, a mulata Manuela (ou Manu) ainda duvida do Doidinho Juvenal.
— Nhá Jacinta, o doidinho disse que viu Ayana na Roda. Será verdade ou doidura?
— Vôte! Não acredito. Depois de perder três filhos, ela não faria isso!
— Também pensei, mas ele falou com tanta convicção... É, Juvenal, você é doido mesmo!
O Confronto...
Enquanto Damião vende seus grãos, Ayana aguarda na carroça. Um cavaleiro passa, fixa o olhar e volta. É Castilho.
— Ayana? Pensei que estivesse na Capital. Seu marido Leôncio perdeu tempo indo tão longe se você estava aqui.
— Leôncio! Sabe dele? Onde ele está? — o coração de Ayana dispara.
— Ele foi para a Capital faz tempo. Teve sorte; Samuel estava com a arma engatilhada quando a guarda chegou. E seu negrinho? Você estava buchuda quando saiu da fazenda...
— Não tenho negrinho algum! — Ayana rebate com altivez. — Não me esqueci de quanto o senhor era mau conosco. Agora temos liberdade. Somos iguais a vocês.
— Iguais? Pobre Ayana... nunca negros serão iguais, nem agora, nem nos séculos vindouros. Passar bem! Mas saiba: o Senhor Samuel não pode fazer nada contra você, todavia, contra o Leôncio já é outra história! Se cuida, negra!
Castilho sai trotando para os lados do convento e termina nos braços de sua amante, Manu. Entre beijos, ele confirma a fofoca do Doidinho.
— Vi Ayana no convento. O doidinho não mentiu.
— Não diga nada ao Samuel! — pede Manu. — Aquele monstro não precisa saber dela.
Castilho promete, mas seu coração é duvidoso. Ele é fiel a quem paga seu salário.
No Assentamento...
A fome aperta. Leôncio e Miro ouvem os planos dos homens do quilombo.
— Vamos buscar nas fazendas o alimento que nos foi roubado a vida inteira! Nossas crianças merecem comer! — diz um dos líderes.
Leôncio pondera. O desejo de ir para a Capital é grande, mas a solidariedade e a revolta falam mais alto.
— Irei com vocês. Não me importo de colher um pouco do que plantei.
E assim, Leôncio adia sua partida, sem saber que Ayana acaba de descobrir que ele está vivo.
Maria Boaventura
VOCÊ ESTÁ LENDO
Espinhos da Liberdade
Fiction HistoriqueApós a abolição da escravidão, muitos escravos libertos se viram sem rumo, sem perspectiva. Saíram sem nada, a não ser, suas vidas errantes pelos caminhos desconhecidos do destino. A liberdade tão sonhada, transformou-se em espinhos. Uma nova, velha...
