Labuta

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..Capítulo 38:
Labuta (Versão Revisada)

​Os dias são conturbados; não há segurança para os negros libertos, tampouco para os escravocratas. Fazendas estão sendo saqueadas... Os antigos senhores que praticaram coisas indizíveis contra seus escravos vivem dias e noites de extremo medo. Negros e mulatos juntam-se para cobrar os anos de infortúnios que a escravidão lhes causou.
​A fazenda Santa Glória tornou-se um exemplo de dor e medo. Em um sábado, no meio da noite, os cães ladram desesperados... O senhor Alfonso de Novaes foi um senhor de escravos muito cruel. Homens, mulheres ou crianças — não havia diferença para sua crueldade. No dia em que a guarda passou em sua fazenda para dar ciência sobre a libertação, ele se portou como um animal feroz. Matou alguns negros e enfrentou a tropa imperial. Foi preso por alguns dias, porém sua cor e a falta de leis concretas para castigar quem cometesse crimes contra negros fizeram com que fosse liberto rapidamente.
​Passaram-se alguns meses. Seus antigos escravos não se esqueceram das dores sofridas e, por mais que o tempo tenha corrido, não foi o bastante para que as feridas no corpo e na alma virassem cicatrizes. Naquele fatídico sábado, a fazenda estava desguarnecida. O senhor Alfonso contava somente com dois capangas; tinha em sua propriedade alguns trabalhadores italianos, que moravam a uma certa distância da casa-grande. A esposa de Alfonso e quatro filhos viviam em um clima de terror, pois várias fazendas vizinhas foram saqueadas; alguns dos proprietários perderam a vida tentando salvar seus bens materiais.
​— Alfonso, os cães estão bravos!
— Levante-se e chame os meninos, agora!
​Ele veste-se rapidamente; sua esposa acorda os filhos e descem as escadas ligeiro. O proprietário pega duas pistolas e munição. Corre para o escritório e fecha-se lá dentro. Atrás de um móvel fora construído um compartimento secreto para a segurança da família; dona Julia, a esposa, conduz seus filhos para lá — este era o combinado em caso de invasão.
​Os cães são mortos, um a um... A cada grito agonizante de um dos animais, o coração da família acelera. Os salteadores gritam alto, as portas são arrombadas e vários homens entram casa adentro. Alfonso dispara suas armas, porém de nada vale, pois os homens não temem a morte; não temem mais o cruel senhor de escravos. Eles querem pegar o que é seu por direito: o suor de seus corpos, os vergões de suas costas e as profundas cicatrizes que o tempo deixou.
​O homem é arrastado para o pátio, onde um tronco é fincado bem ao centro. Suas vestes são rasgadas. Gritos e pedidos de clemência são ouvidos por sua família, que julga estar protegida, porém a porta do esconderijo é arrombada. Os três filhos jovens são mortos na frente do pai; a esposa e a filha são estupradas por quantos assim quisessem; depois foram mortas, o que foi um gesto de misericórdia para as mulheres. Todos os bens são saqueados, os animais roubados e, por fim, a casa-grande e os celeiros, incendiados.
​Após a fuga, os italianos vêm ver o ocorrido. As imagens são horripilantes, indescritíveis, inenarráveis. Nada que não fosse comum, se as vítimas fossem negros e escravos!

​Fazenda Esmeralda...

​Samuel está descontente com sua falta de sorte, ou com a maré de sorte que o negro Leôncio vem tendo. Ao chegar à fazenda, logo chama Castilho para informá-lo do ocorrido em sua caçada e os planos para que ela continue.
​— Castilho, preciso que você cuide da fazenda na minha ausência. Não consegui pegar o maldito negro; ele tem muita sorte. Penso que o demônio o esconde; quando chego, ele some! Fiquei sabendo que ele partiu para a Capital, foi procurar a negra Ayana. Irei matá-lo! Com a Ayana ele não ficará! Aquele negro jamais será feliz, não permitirei! Ele teve outro filho homem, mas não o terá por perto... Mato os três!
​— Senhor Samuel, se vos ausentares agora, com certeza sua colheita não acontecerá. Esses italianos não fazem nada que preste; eles não entendem e não querem entender. Só o senhor pode dar jeito neles. Ouça o que digo: não é uma boa hora para se ausentar...
​— Não me diga isso! Tenho que aproveitar essa oportunidade de pegar aquele negro; se ele chegar à capital, não o verei mais!
​— O senhor é quem sabe. Se a morte daquele negro vale mais que sua colheita, então vá! Não me responsabilizarei por sua bancarrota!
​— Você está me saindo um verdadeiro inábil! De que me adianta ter um capataz sem capacidades?!
​— Ponho meu cargo à disposição...
​— Não é para tanto! Então irei esperar essa maldita colheita terminar. Não me resta outra saída, aí caçarei aquele maldito! Mesmo que tenha que ir ao inferno e arrancá-lo das garras do demônio; aquele negro não há de escapar das minhas mãos.
​Samuel combina com o mulato Serafim para que ele encontre Leôncio e mande um telegrama dizendo a localização, pois quer matar o negro com as próprias mãos. Quando a noite chega, ele fica pensando em Ayana, em ir até o sítio do senhor Damião e ver se a escrava se encontra por lá, porém recorda-se das palavras do negro na fazenda do seu amigo: "Ela foi para a Capital...". Seus pensamentos se dissipam.
​Após fumar seu cachimbo por horas, chega à conclusão de que a negra foi mesmo para a capital. Em sua mente, imagina que ao saber da liberdade, ela seguiu com seu filho, pois jamais voltaria para Esmeralda. Mal sabe que Ayana e os escravos do senhor Damião ainda não têm conhecimento de que são livres da escravidão.

​Na estrada...

​Leôncio e Miro caminham esperançosos para a capital. Encontram pelo caminho vários tipos de negros: mulheres que se vendem por alguns vinténs, homens que pedem esmolas para manter seus vícios em aguardente; também há alguns que, já sem escrúpulos, agora deixam aflorar sua má índole.
​Em uma estalagem à beira da estrada, Leôncio e Miro, cansados da caminhada, resolvem pagar um quarto para passar a noite.
​— Não temos muito dinheiro; aquelas diárias miseráveis não darão para chegarmos à capital.
— O pouco que temos será suficiente... Não precisamos pousar todas as noites em quartos de aluguel. Vamos economizar, nós iremos conseguir.
— Se você diz!
— Se for preciso, trabalharemos para alguém; tudo dará certo...
— Espero...
​Eles pagam uma sopa e tomam uma aguardente. Logo após comerem, vão para o quarto descansar. No meio da noite, uma sombra escura mexe em seus bolsos... Quando o dia amanhece, os negros não conseguem acordar. O dono da estalagem bate à porta.
​— São nove horas, é hora de desocuparem o quarto!
​Os dois não conseguem se levantar; arrastam-se para a porta e, após um café amargo, descobrem que tiveram seus vinténs roubados... E a labuta começa novamente...

Maria Boaventura

Espinhos da LiberdadeOnde histórias criam vida. Descubra agora