Estalagem
Capitulo 66
No sitio...
O céu está coberto por nuvens escuras. Os urubus fazem uma revoada no horizonte que está acinzentado pela chuva fina que vem chegando, como é de costume as aves dançam na garoa que antecipa a chuva grossa que não tarda a chegar. O vento assopra as folhas secas que voam pelo terreiro fazendo dona Alma recolher às pressas as roupas do varal. A mata se alegra com os pingos grossos que precipitam sobre as arvores e as aguas do rio levantando respingos borbulhantes.
Da janela da sala que está aberta, Catarina recebe a chuva fria em seus rosto, Selma está brincando no chão com Gabriel quando o silencio é quebrado por dona Alma que chega apressada na porta que separa o ambiente da cozinha.
- Catarina, minha filha. Saia dessa janela! Você está de resguarda, não pode tomar chuva e nem vento. Saia logo daí!
- Não se preocupe mamãe, uma chuvinha não há de me fazer mal.
- Você não sabe nada sobre resguarda, minha mãe por muito menos, passou a vida toda com horríveis dores de cabeça. É bom você me escutar.
- Está bem, fecho a janela.
- Agora!
Catarina obedece e fecha a janela, assenta-se em uma cadeira perto de um móvel velho e corroído pelo tempo.
Seus pensamentos estão longe, seu coração de mãe a está atormentando, suas recordações divagam no choro e no rosto de seu filho que ficaram tatuados em sua mente, nem os relâmpagos e o som estridente dos trovões, não apagam o som do choro e a imagem da criança saindo de suas mãos e submergindo nas aguas turvas do rio. Sua mente não recorda a maldade que o negro Mané a submeteu. Um grande conflito foi instaurado em seus pensamentos...
Lagrimas rolam de rosto de menina moça, fazendo-a travar uma luta contra o coração e a razão.
_ Não posso chorar por aquela criança. O que será de mim se alguém me vir com um filho mulato?! O que será de mim se souberem da minha desgraça? Meu Deus, não posso; não posso!
Olha para o menino Gabriel e pensa...
_A vida é mesmo cruel, a pobre Ayana queria um filho negro e nasce lhe um filho branco, já eu, não queria filho algum, se pelo menos tivesse nascido branco! Minha desgraça seria menor...
A chuva cai torrencial, da mesma forma, as lagrimas no rosto de Catarina.
Na estrada...
Leôncio está cansado e faminto, chega nos fundos da pousada e fica aguardando alguém sair pela porta que certamente dá acesso à cozinha. Passado algum tempo, sai uma mulher com um caldeirão de comida para os porcos, ele diz:
- Senhora, estou faminto e cansado, viajo para a capital. Gostaria de um prato de comida, trabalharei por ele, apenas me diga o que posso fazer.
A mulher, uma senhora branca, de origem italiana, olha para o negro e diz algo que ele não compreende muito bem:
- O dono não emprega negros...
Mas se você rachar lenhas, te darei um prato de comida. Queres?
- Me mostre a lenha e me dê o machado!
A mulher segurou as saias que se arrastavam pelo chão enlameado, logo atrás de um curral havia uma grande arvore caída. Ela mostrou lhe o machado e disse com cara de poucos amigos.
- Quando tudo estiver em um monte picado te darei a comida!
Ela sai andando de volta para os fundo da estalagem, Leôncio olha a enorme arvore caída, respira fundo, tira a velha camisa e começa a picar toda a lenha.
Passado uma hora, mais ou menos, vem um garoto com um prato de comida amarrado com um guardanapo de algodão e uma botija com agua. Leôncio pega o embrulho e a botija, assenta-se em um tronco e come em total silencio. Seus pensamentos o levam até Ayana e depois em seu companheiro de jornada: _ Como estará meu amigo? Espero que ele esteja bem.
Mal termina de comer e recomeça o corte de lenha, pela janela da cozinha da hospedaria a mulher observa o trabalho do negro, ele não para e não esmorece com o calor do dia abafado e o mormaço de chuva.
A caminho da capital.
Samuel e Serafim, param em todos os lugares que beiram a estrada.
Fazem perguntas para os donos dos estabelecimentos, procuram pelo negro Leôncio e por Miro, pois imaginam que eles não se separaram.
- Nossa ida para a Capital deveras irá demorar, pois o negro é sorrateiro e já escapou de nossas mãos antes.
- Não se amofine, Serafim. Dessa vez pegaremos aquele negro, ele não me escapara novamente. Às vezes, penso que o demônio o protege, ele é tinhoso e liso feito sabão.
O pegarei, vou mata-lo! Não abro mão disso!
Como eles saíram pela madrugada, já haviam percorrido um longo trecho e lá pelas cinco da tarde resolveram parar para descansar em uma estalagem a beira da estrada.
Quando a noite chega Samuel vai até o salão para o jantar, após se alimentar pede uma bebida e continua no salão.
O mestiço Serafim ficou na parte de fora da estalagem, lugar onde negros pernoitavam e se alimentavam.
Lá pelas tantas horas, Samuel ouve um senhor conversando com seu amigo de viagem:
- Estamos vivendo uma guerra, essa regentinha de merda, acabou com nossa paz e nosso sossego.
- Concordo com você meu amigo, nossas fazendas estão sendo saqueadas por essa raça miserável, o jeito é meter chumbo nesse povo todas às vezes que tentarem invadir nossas terras.
- No meio dessa gentinha se salva alguns...
- Não sei, não. Todas as vezes que vejo um negro, sabendo que não posso chicotear nem matar, fico receoso. Quantas mortes de irmãos brancos teremos que ver para que as autoridades tomem as rédeas.
- Na fazenda Santa Efigênia, dizem que um negro salvou os donos, que ele mentiu para o negro que estava no comando e salvou os senhores da morte certa.
- Preciso ver para crer!
- Talvez você esteja com a razão, não existem negros que valam alguma coisa, nem nosso tempo!
- Deveras, não valem nada.
Veio à cabeça de Samuel a imagem de Leôncio, aquele negro até que poderia fazer esse tipo de coisa; salvar os donos da fazenda, porém imagina que Leôncio já está na capital ou chegando por lá. _ Pelo que conheço daquele negro, jamais assaltaria fazenda alguma, aquele maldito puritano! Jamais se meteria em uma enrascada dessa.
Toma o ultimo gole do copo e se recolhe em seu quarto.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Espinhos da Liberdade
Historical FictionApós a abolição da escravidão, muitos escravos libertos se viram sem rumo, sem perspectiva. Saíram sem nada, a não ser, suas vidas errantes pelos caminhos desconhecidos do destino. A liberdade tão sonhada, transformou-se em espinhos. Uma nova, velha...
