Sinto muito...

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Capítulo 43:
Sinto Muito (Versão Revisada)

​Fazenda Esmeralda...

​Samuel fica extremamente decepcionado por não poder seguir em busca de seu inimigo; porém, sua colheita tem prioridade. Sem a presença dos escravos trabalhando constantemente como outrora, e com poucos capangas para conduzirem os italianos, sua permanência em Esmeralda é imprescindível para o bom andamento da lida. Ele se conforma com a situação e coloca o mulato Serafim no encalço de Leôncio; o capitão do mato parte rumo à Capital, tentando encontrá-lo pelos caminhos e estradas que a ela conduzem.
​Dona Beatriz, após o aborto causado pela ignorância de seu marido, tornou-se uma mulher triste e reclusa dentro de seus medos. Suas três meninas ficam sob seus olhos constantemente; ela teme que o marido atente contra a vida delas. Seu coração tornou-se cinzas e já não há nenhum desejo de dar um filho a Samuel. Ela deita-se ao seu lado, mas o sono não vem; tão somente o medo e o temor tocam-lhe os olhos durante a noite. A cada vez que o marido se mexe na cama, seu corpo treme e seu coração acelera...

​No Sítio...

​O galo canta, anunciando que já é hora de se levantar. Dona Alma levanta-se e vai até a cozinha, onde Ayana já está com o fogo aceso e a chaleira de ferro com água fervendo sobre a chapa do fogão.
​— Bom dia, Ayana.
— Bom dia, sinhá!
— Não sou mais sua sinhá. Você ouviu o que o senhor Armando nos disse: não existem mais escravos, você é livre.
— Apesar de saber dessa notícia, não me sinto livre... Sinto-me da mesma forma que me sentia antes de saber dessa liberdade.
— Ayana, gostaria de lhe pedir um grande favor.
— Diga-me. Se puder fazer, o farei.
— Gostaria de pedir-lhe que não fosse embora antes de Catarina ter a cria dela, pois ela se apegou a você e temo que faça uma grande besteira sem você aqui.
— Dona Alma, a senhora sabe que me apeguei muito a todos vocês aqui no sítio... Confesso que não tenho para onde ir e temo por meu filho. Imagino que não aceitarão que eu, negra, dei à luz um menino branco. Não sei o que fazer, tenho medo... — E, dizendo isso, chora e soluça.
— Eu posso te ajudar. Sou parteira registrada e, se você ficar aqui até que Catarina dê à luz, te darei um papel assinado por mim, atestando que fiz seu parto e que Miguelzinho é seu filho legítimo.
— Farias isso por mim?
— Claro que sim, afinal é a mais pura verdade.
— Eu ficarei aqui até o nascimento da criança.
— Agradeço a ti.
​— Bom dia, senhoras!
— Senhor Armando, levantou cedo!
— Preciso partir, e Deus ajuda quem cedo madruga!
— É a mais pura verdade.
— E o amigo Damião? Não me diga que ainda dorme?!
— Ele levantou-se e foi até a senzala conversar com os negros.
— Faz bem. Não é bom que eles fiquem sem saber de sua nova condição, pois é crime manter negros cativos.
​Senhor Damião está uma "arara" de bravo com o mascate, pois ele fez com que os negros soubessem da liberdade bem na semana em que começam as colheitas. Mesmo sua plantação sendo pequena, sem os escravos ele não conseguirá colher os frutos do cafezal. Ele caminha lentamente até a porta da senzala, imaginando o que irá falar para convencer os negros a ficarem...

​No Cafezal...

​Leôncio e Miro observam que já existem muitos outros trabalhadores além dos que vieram no carroção. São muitos homens vigiando e, por esse motivo, todos trabalham a finco, sem conversarem com os companheiros ao lado. Ao chegar às onze horas da manhã, ouve-se um apito alto:
​— Todos venham para o almoço!
​Os negros e os italianos se assentam separadamente embaixo de algumas árvores. Dois negros tiram de uma carroça várias grandes panelas com a comida, enchendo os pratos e repartindo-os entre todos. Ao pegarem seus pratos, todos comem em silêncio. Os negros, mais acostumados com a submissão, não conversam sobre seu novo trabalho cativo; já os italianos debatem em sua língua sobre sua malfadada condição.
​— Calem essas bocas, italianos dos infernos! Se não se calarem, sofrerão as consequências!
​E os italianos continuam gesticulando e falando alto. Isso faz com que os guardas se aproximem... Um dos vigias bate com a coronha da espingarda no rosto de um deles, que cai ao chão sangrando. Os outros levantam-se e começa uma briga entre guardas e italianos... Os negros permanecem se alimentando, sentados à sombra.
​— É uma boa hora de sairmos correndo para fora desta fazenda! — cochicha Leôncio no ouvido de seu amigo Miro.
— Só se for agora!
​Os dois negros aproveitam a confusão e se embrenham nas ruas do cafezal; quanto mais correm, mais vontade têm de correr... Aproveitando a fuga, outros negros também correm. Os guardas estão tentando subjugar os italianos e, com isso, não se dão conta da fuga imediata, dando a eles alguns minutos de vantagem.
​— Cadê os negros?
— Ora, eu é que pergunto: onde eles estão?!
— Negros dos infernos! Gonçalves e Tininho, viram para onde os negros foram?
— Não, senhor! Estava tentando segurar esses italianos...
— Procurem por eles! E quando os encontrarem, se resistirem, podem atirar!
​Três homens entram nas ruas do cafezal e buscam por toda parte. Encontram dois negros e os trazem de volta. Enquanto isso, Leôncio e Miro correm como o vento até chegarem a um riacho. Eles entram nas águas rasas e caminham por elas, despistando os rastreadores.
​— Parece que conseguimos despistá-los!
— Espero que sim, Leôncio.
— Ser escravo novamente não está em meus planos. Não posso ficar cativo; tenho que chegar até a Capital, custe o que custar!
​Eles continuam correndo, seguindo o fluxo do rio. A tarde está decaindo e o meio da mata se torna turvo. Chegam a um trecho com enormes pedras lisas e cheias de limo. Miro se desequilibra e cai de uma altura considerável.
​— Ai! Leôncio, espere.
​Leôncio volta apressado. Miro está com sua perna presa entre duas pedras.
​— O que houve?
— Acho que torci a perna.
— Fique quieto, vou te ajudar.
— Ai! Está doendo muito!
​Leôncio desprende a perna de Miro e olha com um olhar de medo; isso deixa o amigo preocupado...
​— Sinto muito, meu amigo... Acho que está quebrada.
— Não, não! Por favor, pelo amor de Deus! Quebrada não!
10/12/2021

Maria Boaventura.

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