Capítulo 39:
O Mascate (Versão Revisada)
A vida sempre foi uma madrasta má para os negros... Tirados de sua própria terra, jogados nos porões fétidos de navios negreiros, onde o choro e o lamento não eram ouvidos. Foram execrados pelo mundo, vendidos e trocados, muitas vezes por sua própria raça... Uma raça considerada inferior mentalmente, incapaz de se sobressair sobre seus possuidores; um povo considerado sem alma pela Igreja; sem beleza para os padrões estéticos; tratados, muitas vezes, pior que um animal de carga.
As mulheres foram ridicularizadas por suas senhoras de pele alva, humilhadas e consideradas somente um objeto para o trabalho, uma máquina de limpeza. Condenadas a viver em submissão, ouvindo palavras vexatórias que desmereciam seus cabelos e sua pele negra. Para os senhores, as mulheres negras eram objetos de prazer e luxúria; seus corpos invadidos, sem piedade.
Na estalagem...
Miro e Leôncio caíram na mais nova maneira de roubar dinheiro daqueles que não têm malícia.
— Mas como? Como roubaram de nós?! Tínhamos somente alguns vinténs para que pudéssemos chegar à capital.
— Eram apenas uns caraminguás, não valiam nem a pena!
— Digo a vocês que isso está acontecendo muito. Com quem vocês conversaram e beberam ontem à noite? — perguntou o dono da estalagem.
— Com um negro que nos disse que também iria para a capital. Combinamos de fazer o trajeto juntos, pois três é melhor que dois — disse Miro, indignado com o ocorrido.
— O mundo está deveras diferente, não se pode confiar em ninguém! Nem em brancos e nem em negros...
— O que faremos, Leôncio?
— Bom, o jeito é arrumarmos um trabalho por esses lados até arranjarmos o dinheiro para a viagem.
— Tem alguns fazendeiros na região que estão contratando negros para a colheita de café. Se vocês quiserem, posso lhes indicar.
— Por favor, nós precisamos mesmo de trabalho.
— Mas vou lhes dizer uma coisa: não digam que irão logo embora, pois vários negros que trabalham dois ou três dias acabam sendo acusados de vadiagem e ficam presos na cadeia da vila. Ouvi falar que tem alguns que são levados para as pedreiras e acabam sendo escravizados novamente...
— Obrigado. Faremos de tudo para não irmos presos; não é nosso desejo quebrar pedras pelo resto da vida.
— Digo o mesmo. A única coisa que quero é encontrar minha mulher e meu filho. Preciso chegar à capital o mais rápido possível.
— Fiquem por aqui. O capataz sempre vem ao meio-dia para ver se contrata alguém.
Leôncio e Miro não veem outro jeito a não ser arrumar trabalho para que possam prosseguir viagem.
No Sítio...
Umas duas vezes por ano vem ao sítio do senhor Damião um mascate; seu nome é senhor Armando. Com seu burro puxando uma carroça empencada de todos os tipos de tralhas — de tecidos a utensílios de cozinha, perfumaria e remédios. Dona Alma e suas filhas sempre o recebiam com sorrisos e curiosidade; ele estranha os rostos tristes e a falta de interesse que observou em sua chegada.
— Bons dias, dona Alma! Trouxe muitas novidades, muitos tecidos bonitos... Tecidos que nem lá na Corte se vê igual!
— Bons dias, senhor Armando. Hoje acho que não iremos ficar com nada.
— O quê? A senhora é minha melhor freguesa! Diga-me quem foi que roubou a dona Alma e se colocou no lugar dela?!
Foi impossível não sorrir das brincadeiras do senhor mascate.
— E esse menininho lindo, é seu neto? A menina Catarina casou-se tão novinha? Eu disse que traria o enxoval completo para ela. Não me diga que compraram de outro?
— A Catarina não se casou. Aconteceram várias coisas durante esse tempo que passastes sem vir aqui; prefiro não comentar.
— Entendo. Bom, vamos comprar algo?
— Mamãe, compre algo para o Miguelzinho, por favor!
— Está bem, compre uma roupinha para o menino...
Catarina se aproxima; ela está com a pele esverdeada, os olhos fundos, e a seriedade em seu rosto tornou-a digna de pena. Daquela jovenzinha meiga e doce não restou nada.
— Quer algo para você, minha filha? — pergunta dona Alma com voz carinhosa.
— O senhor trouxe cicuta ou outro tipo de veneno?
— Infelizmente não trabalho com esse tipo de medicamento, menina — disse o senhor Armando, vendo o desgosto no rosto opaco de Catarina.
— É uma pena! — E, dizendo isso, ela entrou para o seu quarto.
— Não dê ouvidos a ela; ela está passando por uma triste fase em sua vida.
— A menina está de quantos meses?
— Caminha para o sexto mês... Ele era um monstro demoníaco!
— Pobre menina... não me diga isso. Aquele escravo mereceu a morte que teve! Digo mais: foi muito pouco...
Lamento poético...
" Ouça meu lamento"
Meus olhos tristes derramam
A dor que reflete minh''alma
Meus pensamentos voam pelo céu
Buscando a liberdade que me acalma...
Arrancado fui dos braços de minha mãe
Deixado em um porão frio e escuro
Não sinto o sol, não vejo a lua
Não tenho mais um porto seguro...
A face de minha negra mãe
Não posso mais beijar
Os dias e as noites são iguais
Sucumbo no meio desse grande mar...
Minha negra pele
Colocou-me nessa prisão
O chicote estala em meu corpo
Morro a cada batida de meu coração.
Sonho com a liberdade
Em pensamentos, abro minhas asas
Voo para além do céu
E sorrindo volto para casa.
Mae África, sonho contigo
Para os seus braços quero voltar
Ouça meu lamento, meu gemido
Venhas depressa me buscar.
Mãe África, vem me buscar...
Maria Boaventura
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Espinhos da Liberdade
Historical FictionApós a abolição da escravidão, muitos escravos libertos se viram sem rumo, sem perspectiva. Saíram sem nada, a não ser, suas vidas errantes pelos caminhos desconhecidos do destino. A liberdade tão sonhada, transformou-se em espinhos. Uma nova, velha...
