Frustração

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Capítulo 37:
Frustração (Revisado)

​Na Capital

​Os dias estão trabalhosos para as doutoras Aurélia e Letícia. Filas se formam em frente ao consultório; os remédios e curativos estão escassos. Somente os doentes mais graves são atendidos e medicados.
​Rodolfo e Damasceno tentam angariar ajuda da elite da sociedade, porém o problema tem se tornado impossível de solucionar. Os negros e os imigrantes não têm a quem recorrer perante uma enfermidade; a população de classe baixa encontra-se desprovida de dinheiro. Mesmo conseguindo uma consulta de graça, torna-se praticamente impossível comprar os remédios dos receituários.
​Havia, naquela época, muitos curandeiros, benzedores e boticários que cuidavam para que a saúde fosse restabelecida. A falta de conhecimento ou de dinheiro fazia com que a população buscasse o que melhor lhe aprouvesse para que o mal fosse sanado.
​- Quanta gente enferma, Rodolfo! Acho impossível continuarem assim, sem ajuda de ninguém.
​Aurélia limpa as mãos ensanguentadas no avental e senta-se em uma mesinha repleta de instrumentos cirúrgicos. Ela olha para Rodolfo com os olhos marejados; dá um sorriso repleto de dor e o abraça.
​- Ei, ei! Não fique assim, meu amor - diz Rodolfo. - Havemos de arrumar um jeito, alguém há de nos ajudar!
- Não há jeito, estamos no final da linha. Como poderemos prosseguir se não temos medicamentos, panos limpos, faixas...? Não temos nada! E os enfermos não param de chegar!
​Os olhos de Aurélia se enchem de lágrimas. Para aquela jovem cheia de expectativas, o único caminho parece ser fechar as portas e ver os menos favorecidos perderem o resto de suas esperanças.
​- Eu tentarei convencer algumas pessoas a te ajudar - insiste Rodolfo. - Imagino que ainda restem alguns que se comovam. Não está sendo fácil, pois são muitos os necessitados. Os recursos estão se acabando; até quem repartiu o máximo agora começa a sentir falta.
- Não se preocupe, meu amor. Não pedirei mais nada aos meus pais; sei que toda a fortuna deles não daria para sanar o que acontece com essa pobre gente. Nem eu, nem Letícia, estamos suportando a pressão de ver tanta dor e saber que as portas se fecharão. Isso está nos matando!
​- Tenho algo a lhe falar - diz Rodolfo, tentando mudar o tom. - Fomos convidados para um jantar na casa da Baronesa Octaviana de Vertilhos. Imagino que ela tenha novidades sobre a Princesa e sua reunião. Quem sabe as coisas clareiem para nós!
- Tomara, Rodolfo. Ficarei feliz em sair um pouco desta tensão. Vou falar com Letícia; vamos fechar o consultório agora. Preciso de um banho e descanso.
- Preciso falar com seu tio José também, pois ela fez questão da presença dele. Seu tio é o convidado de honra.
- Ora, vejam só! Por sorte, ele está no tribunal hoje. Mandarei um garoto de recados para que venhamos todos juntos.
- Combinado. Damasceno e eu viremos às sete horas.
​O coração da jovem médica se acalenta por um instante, nutrido pela esperança de conseguir ajuda para seus pacientes.

​Fazenda Rio do Ouro

​Após o almoço, Samuel conversa com seu amigo João Paulo. Eles fazem planos para a colheita e riem de lembranças passadas. Reclamam dos governantes e maquinam ideias para manter os negros submissos, trabalhando por uma miséria que se tornou mais lucrativa do que mantê-los presos em senzalas.
​- Digo-lhe, meu amigo João: se não fosse essa migração por salários melhores, estaríamos bem servidos. Com essa Lei de Vadiagem, eles se acalmarão e trabalharão por qualquer vintém.
- Concordo. Esta liberdade enfiada goela abaixo trouxe benefícios. Não somos obrigados a sustentar velhos e preguiçosos; só pegaremos os fortes. O resto que morra de fome pelas estradas! Duvido que este regime imperial perdure... Este Império vai ruir! E esses reis e princesas sairão do Brasil com o rabo entre as pernas. Ouça o que digo!
​- Acredito piamente em suas palavras - responde Samuel. - Porém, mesmo com o lucro, não quero mais essa raça em minhas terras. Vou me adaptar a esses italianos de má figa...
​Eles riem, embora os italianos também deem trabalho. Nesse momento, Serafim chega com uma notícia.
​- Senhor Samuel, o negro Leôncio não está no eito. Ninguém o viu hoje na lavoura.
- Impossível! Ontem à noite ele garantiu que viria - diz João Paulo.
- O negro é tinhoso... o demônio deve ter contado que vínhamos - rosna Serafim.
- Pare com isso. Ele deve estar no meio dos outros, são uns vinte trabalhando. Na hora do pagamento ele aparece.
​Às seis da tarde, todos os negros vêm receber. João Paulo nota a ausência de Leôncio e Miro.
​- Alguém viu o Leão e o Miro?
- Senhor João, eles foram para a capital - responde um dos trabalhadores.
- Capital? Que história é essa?
- Eles foram atrás da mulher do Leão. Jair encontrou com ela na estrada e contou que ela ia para o Rio. Eles partiram.
- Malditos! - esbraveja Samuel.
- Nós os pegamos! Eles estão a pé, nós a cavalo! - diz Serafim.
​Samuel fica enfurecido; queria sua vingança naquele dia, mas percebe que a caçada será mais longa. No caminho de volta para a Esmeralda, ele planeja com o capitão do mato:
​- Vamos nos preparar para pegá-lo no caminho da capital. A pé ele não vai longe. Mas preciso me organizar, deixar a fazenda sob os cuidados do capataz, pois a colheita está às portas.
- Não se preocupe, senhor Samuel. Pegaremos o negro e o sangue vai jorrar na estrada. Pode considerá-lo um negro morto!
​Samuel sorri, vislumbrando Leôncio caído, banhado em sangue. A imagem acalenta seu coração por alguns instantes.

Maria Boaventura

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