Fraquezas do inimigo.

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​Capítulo 14:
Fraquezas do Inimigo (Revisado)

​Anoitece em Esmeralda.

​Todos têm suas fraquezas... Essa condição independe de cor, posição social ou sexo. Samuel perdeu seu primogênito; isso fez com que monstros que estavam adormecidos em sua mente despertassem.
​Ele nunca foi um exemplo de bondade, porém mantinha tais monstros presos nas grades de seu coração. Não se podia ver em sua face um resquício de culpa por ter tirado a vida das três almas inocentes. O que se via era um ser sem amor por si próprio e muito menos por outrem, nem mesmo por suas filhas.
​Após os negros chegarem da árdua lida, Leôncio é preso aos ferros na parede da senzala. A escuridão e o cansaço tomam conta do fétido ambiente. Miro é um escravo de confiança na fazenda; ele é responsável por manter as tinas cheias com água na Casa Grande e também por levar água ao eito.
​Velho amigo de Leôncio, mal deixa as lamparinas se apagarem e vem para perto de seu irmão de cor. Aos cochichos, diz a Leôncio:
- Preciso lhe falar algo que aconteceu na Casa Grande. Hoje, ao meio-dia, o doidinho falou-me algo de seu interesse.
- O que ele disse? É algo sobre a Ayana?
- Não, é sobre algo que ele ouviu o capitão dizer ao senhor Samuel. Fui buscar água e ele estava falando sozinho, como sempre. Eu fiquei curioso com a prosa louca dele, pois vi que tinha algo de verdade naquela conversa.
- Me diga logo, homem! Deixe de enrolação.
- Ele disse que o capitão raiou com o senhor Samuel por ter matado seus filhos; que Deus os tenha!
- Desenrola!
- Ele disse que seus filhos eram livres por causa de uma lei que tem. Que toda criança negra nasce livre.
- Mas como é isso? Ninguém nunca falou nada?!
- Cê acha que alguém ia falá pra nós isso?! Tem mais: o capitão falou que se uns tais de "bulocinsta", "abulonista", sei lá... só sei que, se eles derem parte na justiça, seu Samuel vai preso ou enforcado. Ele chamou o sinhô de assassino.
- O quê? Ele pode pagar na justiça dos brancos?
- Pelo jeito pode, mas só homem livre que pode fazer ele pagar.
​Leôncio fica com o coração aos pulos, saltando de alegria; vê a chama da esperança se acender. Seus filhos poderão ser vingados... Mil coisas passam pela cabeça do escravo. Viver é o importante; viver e ver aquele assassino pendurado em uma corda, e cuspir em seu corpo gelado e rígido.

​No sítio...

​Ayana deita-se em um cantinho na sala da casa de seus novos donos. Pensa em seus filhos mortos; aquela imagem horrível faz com que soluços, adjacentes a lágrimas, encham seu peito. Ela chora...
​A lembrança do negro lascivo e o medo de que aquela violência perdure fazem suas lágrimas intensificarem-se. O martírio de sua atual condição e a incerteza sobre como está seu marido impelem a escrava a derramar seu pranto durante a noite toda.
​A escravidão não aprisiona somente o corpo; ela aprisiona também a alma. Quem não é dono de seu corpo não tem o direito de sonhar e, não podendo sonhar, as lágrimas se tornam corriqueiras.
​- Ouvi você chorar quando levantei-me para tomar um copo com água. Sei que a vida de cativa não é fácil, mas não se preocupe: não lhe faremos mal algum.
- Perdoe-me se tirei seu sono, não foi minha intenção, sinhazinha Catarina. A gravidez torna a mulher chorona.
- Gostavas de seu último lar?
- Sim, gostava da minha sinhá e tinha uma família.
- Não compreendo por que o senhor Samuel a vendeu!
- Ele quis castigar meu marido, e eu fui vendida para castigá-lo.
- Ele separou você e seu bebê do seu marido? Ele foi muito mau.
​Ayana vira-se e começa a lavar a louça.
- Isso não foi a verdadeira maldade.
- Ele fez algo pior?
- Chicoteou meu marido até quase a morte e matou meus três filhos. Desculpe-me chorar...
- Meu Deus! Ele é um monstro.
​Dona Alma chega à cozinha e elas fazem silêncio. Alma se consterna, pois ouviu a conversa toda, e a triste história da negra comoveu seu coração.
​Os negros do sítio começam a puxar as lascas. Damião traz Mané com rédeas curtas; o negro está desobediente e sarcástico. Sua má conduta faz o senhor Damião cogitar sua venda.
​- Não sei por que tem que fazer um quarto para a negra! A única oportunidade de ter uma negra para a gente, aí vem o senhor Damião e a tira de nós.
- Não diga "de nós". Foi você quem currou a pobre negra grávida.
- Eu fui o primeiro, mas vocês dois poderiam ter ido depois.
- Eu jamais forçaria uma negra, ainda mais estando ela grávida.
- Eu também não - disse o menino Bidú.
- Mulher é mulher; o que interessa não está na barriga, tá mais embaixo.
- Negro desavergonhado, estais com esse assunto novamente! Queres que te bata ou te prenda nos ferros?! - diz o senhor Damião, logo após apanhar o negro falando de Ayana.
​O negro faz silêncio, porém seu rosto emite o sorriso sarcástico de sempre. O senhor Damião está a ver-se em apuros com aquele negro devasso.

​Maria Boaventura

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