Capítulo 28:
Fúria (Revisado)
A águia da liberdade abre suas grandes e alvas asas ao sol daquela manhã de maio. As nuvens escuras se dissipam; o sol radiante beija a pele negra e suada. Os ferimentos causados por séculos de segregação saram ao toque majestoso de sua estrela central. A liberdade alça seu voo... Afia as garras e as crava no corpo do pássaro negro chamado escravidão. O corvo se debate, tentando livrar-se de seu fim iminente. Ouve-se por todos os lugares seu grito agonizante de dor. Os olhos dos filhos da mãe África choram e cantam de alegria pelos grilhões que caem ao chão. A águia branca vence o corvo negro, abrigando seus filhos sob as asas.
Os soldados aguardam a saída de todos os negros da fazenda. Miro é amparado por dois irmãos de pele; suas costas ainda sangram pelas chicotadas que recebia. Seus olhos estão cheios de lágrimas — não pela dor, mas pela felicidade de deixar aquele sofrimento. Ele se detém diante do Capitão da Guarda. Seu corpo treme severamente e sua voz quase não sai. Miro ajoelha-se, e seus amigos o acompanham.
— Capitão, que Deus lhe pague! Hoje seria o dia de nossa morte, e o senhor chegou trazendo a vida. Seríamos mortos sem piedade, e nos trouxe a liberdade. Deus lhe pague.
Os olhos do oficial se enchem de lágrimas. Ele segura Miro pelo braço, ajudando-o a se levantar.
— Eu sou quem os abençoo. Deus cuide de você e da sua raça! Não esqueça de agradecer à Princesa Isabel; ela foi a vossa redentora. Vão, saiam deste lugar maldito!
Negros jovens e velhos saem em procissão. Uns sorriem, outros choram — tanto de alegria quanto de tristeza, pois a incerteza do futuro é a nova inimiga.
O senhor Samuel está sentado em uma cadeira no alpendre. Seus olhos cospem brasas vivas; o cérebro parece revirar-se dentro da cabeça. Duas horas após a chegada da Guarda Nacional, já não havia mais nenhum negro em Esmeralda.
— Bom, senhor Samuel. Já cumprimos nossa missão e estamos de partida — anuncia o Capitão. — Não levarei em conta seus desatinos contra meu regimento, nem contra nossa Regente. Mas deixo um aviso: se o senhor ou seus capangas forem atrás dos negros para trazê-los de volta contra a vontade, será preso e julgado por rapto, cárcere e apropriação indébita. Não há mais escravidão! Todos nós, negros e brancos, somos iguais perante a lei. Coloque na cabeça que, de agora em diante, não há distinções; terá que respeitar nossos irmãos de cor. Espero não ter que retornar a esta fazenda para fazê-lo prestar contas. Passar bem!
Todos montam e rumam para a próxima fazenda. Mal saem, Samuel perde as estribeiras. Olha o pelourinho e a senzala vazios. Não vê ninguém para descontar a raiva.
— Castilho! Pegue os cavalos, vamos buscar aqueles filhos do demônio! Vamos arrastá-los por cordas! O que está esperando? Vá!
— Sinto muito, patrão. O senhor ouviu o Capitão. Eles não são mais sua propriedade. São livres.
— Você está discutindo minhas ordens?! Venha aqui! Agora!
— Sinto muito, é a lei. De agora em diante, se bater ou matar um negro, pode dar até forca. Não vou me arriscar.
— Maldito! Está despedido!
— Eu irei, mas não vou lutar contra a Coroa.
Samuel volta-se para os capangas: — Vocês aí, vamos logo atrás deles!
Os homens olham uns para os outros e balançam a cabeça negativamente.
— Seus desgraçados! Estão todos dispensados! Sumam daqui!
— Iremos agora, mas o senhor nos deve nossos salários!
— Passem aqui à tarde, acertarei com todos!
As filhas de Dona Beatriz choram ao verem que suas amas e mucamas partiram. A mãe tenta acalmá-las, chorando junto.
— Faça essas meninas se calarem, Beatriz!
— Tenha dó de suas filhas, Samuel! Elas estão sentidas, todas as escravas partiram.
Samuel caminha de um lado para o outro, cada vez mais irritado. Em um ímpeto de fúria, ergue o reio que traz nas mãos e avança em direção às filhas.
— Não se atreva, Samuel! Não vai bater nelas!
Beatriz se coloca na frente das meninas. Ele, possesso, empurra a mulher. Ela cai sentada no chão de pedras polidas da cozinha. Cego pela fúria, Samuel a balança com força brutal, deixando-a sem sentidos, e ruma para a sala maldizendo a todos. Quando Beatriz recobra a consciência, ouve o choro das filhas. Ao olhar para baixo, vê seu vestido lavado de sangue... Seu filho, de pouco mais de um mês no ventre, acabara de ser morto pela violência do próprio pai.
Perto do meio-dia, os negros caminham sem rumo. Por haver feridos, param próximo a um rio para beber água. Glória, mãe de duas crianças, aproxima-se de Leôncio, que descansa sob uma árvore frondosa enquanto seus cortes são lavados.
— Leôncio, o que faremos? As crianças têm fome.
Ele abre os olhos com dificuldade, a respiração ofegante.
— Temos que ir para o quilombo. Não sei quanto tempo levaremos, nem se haverá comida para todos.
— Então para que serviu a fuga? Para que serve essa liberdade se minhas crianças passam fome? Vou voltar e pedir perdão ao nhonhô. Vou levar meus filhos para comerem!
— Não faça isso, Glória! Seus filhos serão escravos para o resto da vida!
— Você fala isso porque não tem mais filhos! — retruca ela, amarga.
— Exatamente. O nhonhô matou todos os meus filhos. E quem garante que ele não matará os seus?
Glória senta-se, abraça as crianças e chora...
Maria Boaventura.
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Espinhos da Liberdade
Ficción históricaApós a abolição da escravidão, muitos escravos libertos se viram sem rumo, sem perspectiva. Saíram sem nada, a não ser, suas vidas errantes pelos caminhos desconhecidos do destino. A liberdade tão sonhada, transformou-se em espinhos. Uma nova, velha...
