Capítulo 40:
Dúvidas de Ayana (Versão Revisada)
No Sítio...
A tarde decai de mansinho e o crepúsculo vem trazer o seu frescor costumeiro. O urutau, conhecido como "mãe-da-lua", agracia os ouvintes com seu canto melancólico e sombrio, fazendo a noite no sertão ser triste e cheia de histórias de infortúnios e fantasmas...
Frente à janela da sala, o senhor Armando observa a noite escura e estrelada. Uma lamparina, com sua chama avermelhada, busca romper a escuridão que há no recinto.
— Realmente, senhor Damião... não aprecio o canto fúnebre desse pássaro! Pelas minhas andanças por esse país sem fim, ouvi muitas histórias sobre o presságio que esse canto traz...
— Não se apoquente, senhor Armando; esse pássaro é cria da casa. Todas as noites ele canta lá pelos lados do rio. Sua cantoria não é um mau presságio; leva-me a tempos distantes, faz-me recordar de meus falecidos pais... De um tempo que não voltará, que está somente em minhas lembranças...
— Deveras, o passado sempre nos deixa nostálgicos...
— Arrumei a cama para o senhor no quartinho da Ayana, nossa escrava. Quando o senhor quiser, pode descansar — disse dona Alma.
— Agradeço, dona Alma. A senhora disse... "escrava"?!
— Sim, eu disse.
Dona Alma se recorda da conversa que teve com seu marido sobre a libertação dos escravos e fica meio sem jeito.
— Vocês não estão cientes do que aconteceu há cinco meses, ou mais, sobre a libertação dos escravos?
Senhor Damião olha para o senhor Armando, fingindo não saber do ocorrido, mas não houve maneira de impedir que o mascate continuasse a conversa. Se ele o repreendesse, delataria o seu crime por ocultar dos negros que já eram livres há muito tempo. Na sala estão Catarina e Selma; Ayana está na cozinha, perto do fogão. Todas ouvem a conversa do mascate.
— Meus amigos, vocês têm que deixar seus escravos livres para escolherem: ou ficam aqui recebendo um salário, ou partem para onde bem lhes aprouver! Não digo isso querendo o vosso mal; se a guarda passar por aqui, certamente meu amigo irá para a prisão... O tempo da escravidão já passou há quase meio ano.
— Não me diga isso, amigo Armando?! Como nós aqui não ficamos sabendo disso?
— A Guarda Nacional passou em todas as fazendas...
— Aqui não veio ninguém!
O assunto se prolongou por quase meia hora. Catarina levanta-se bem devagar, segurando sua barriga, e com voz de indignação diz:
— Quer nos dizer que Ayana e os outros negros são livres há quase meio ano?! Que estamos usufruindo de seus serviços... eles já poderiam ter ido viver suas vidas, e estão aqui?!
— Sim, menina Catarina. Isso é a mais pura verdade.
Ayana vem até a porta, com seus olhos marejados e o corpo trêmulo. Olha para seus senhores; parece que a compreensão das palavras que foram ditas não chega a seu cérebro:
— Sinhá, sou livre? Posso ir embora?
— Me parece que sim! Se você assim o desejar.
— Não vá, Ayana! Não me deixe sozinha aqui... — Catarina chora e implora para que a negra fique.
Senhor Damião vê seu plano de usufruir dos serviços dos escravos ir por água abaixo. Sua colheita de café, que está para começar na próxima semana, dependerá de uma conversa com os três negros que estão trancados na senzala.
— Deveras, com essa descoberta, o amigo mascate colocou-me em maus lençóis. Terei que negociar para que os negros fiquem e me ajudem na colheita, ou terei que ir até a vila arranjar outros trabalhadores.
— Peço-lhe desculpas, pois não sabia de sua falta de informações sobre o ocorrido. Se eu soubesse, não teria comentado.
— Bom, amanhã direi sobre o ocorrido para os negros. Por enquanto, vamos dormir, pois vi que o canto do urutau verdadeiramente é um mau presságio; acabei de perder os meus poucos escravos...
Senhor Armando deita-se com o coração condoído, imaginando ter prejudicado seu amigo. Dona Alma e senhor Damião deitam-se morrendo de raiva por seu plano ser descoberto antes do imaginado. A menina Catarina deita-se aos soluços, por imaginar que sua amiga Ayana vá embora e a deixe sozinha nessa hora de amargor.
Ayana está com seu coração aos pulos... Não consegue saber o que irá fazer com a tal liberdade, pois imagina que seu marido esteja morto. Não poderá voltar à Fazenda Esmeralda; ela conhece bem o senhor Samuel e crê que ele a matará, e a seu filho também — não se importando que o menino Gabriel seja seu próprio filho.
O garoto é o pai "cuspido e escarrado"; não há como negar. Os genes daquele monstro assassino colaboraram para que o bebê saísse sua cópia fiel, não herdando nenhuma característica de sua mãe. Ayana abraça seu filho e diz:
— O que será de nós dois, meu filho? Como iremos sobreviver nesse mundo de liberdade? Vão querer te roubar de mim! Nunca acreditarão que você nasceu de mim... O que farei?
E, nessa dúvida, a negra chora a noite toda.
Na Capital...
Às sete horas da noite, todos estão reunidos no sobrado para juntos irem ao palacete da Baronesa Octaviana de Vertilhos. Doutor José Jerônimo recebeu o recado e veio para irem juntos ao jantar. Um terno bem alinhado e um sorriso de dentes brancos sempre o acompanham; o negro é bem-educado e sua simpatia cativa a todos, brancos e negros.
— Minhas duas sobrinhas prediletas estão lindas!
— Bondade sua, meu querido tio — diz Letícia, agradecida pelo elogio.
— Confesso que, após um maravilhoso banho, estou me sentindo linda! — brinca Aurélia, que está com as feições alegres, bem diferente da tarde, pois estava preocupada com os doentes que não paravam de chegar.
— Você sempre é bela como um anjo, não importa se está com um cérebro esmagado nas mãos ou uma quebradura de pernas. Sempre estás linda! — diz Rodolfo para sua amada.
— Rodolfo! Não é assim que se tece elogios a uma dama. Veja e aprenda comigo! Letícia, minha amada, és a lua do meu céu, és a flor que perfuma meu jardim, és a canção que me inebria... meu beija-flor, meu jasmim!
— Por isso que me apaixono todos os dias por você, meu amor. Mulher nenhuma resiste a um poeta apaixonado... — diz Letícia com um sorriso.
Todos riem. Duas carruagens chegam para levá-los ao jantar. Ao chegarem frente ao palacete, doutor José fica admirado com a grandeza do local.
— Deveras, tudo muito belo... a arquitetura é realmente esplêndida.
— Meu tio não viu da missa a metade; deixe-nos entrar para ver. Lá dentro o luxo é deveras bem maior.
Os cinco adentram e são recebidos por um mordomo negro: luvas brancas, terno branco, extremamente educado. Na escada do segundo andar, desce uma mulata linda e sorridente que faz o coração do doutor Pitu saltar feito um burro chucro e quase parar de bater...
Maria Boaventura
VOCÊ ESTÁ LENDO
Espinhos da Liberdade
Ficção HistóricaApós a abolição da escravidão, muitos escravos libertos se viram sem rumo, sem perspectiva. Saíram sem nada, a não ser, suas vidas errantes pelos caminhos desconhecidos do destino. A liberdade tão sonhada, transformou-se em espinhos. Uma nova, velha...
