Capítulo 2

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Finalmente o expediente acabou e conseguimos fechar o restaurante. Meu olhar escorre até Dan, e percebo que o moreno carrega o mesmo alívio que eu. Não é para menos — a noite foi turbulenta, caótica até, mas no fim tudo deu certo.

— Merecemos um bom vinho… o que você acha? Sugiro, sentindo o peso do dia inteiro finalmente cair dos ombros.

Eu amo um bom vinho. E a simples ideia de terminar a noite afundando minhas mágoas em uma taça generosa me anima mais do que deveria.

Dan faz um bico discreto e balança a cabeça em negativa enquanto termina de trancar a porta.

— Eu bem que queria, merecemos mesmo… mas tenho que ir pra casa. Te contei que amanhã cedo vou ao aeroporto buscar uma amiga, né?  Diz casualmente.

— Uma amiga? Pergunto, jogando conversa fora enquanto forço a memória. Dan sempre me conta tudo, e definitivamente não me lembrava dessa parte.

— Sim, uma amiga. Ela vem do interior. Acabou de se formar em medicina e quer tentar começar a vida por aqui. Vou ajudar ela a se adaptar.

— Humm… amiga nova e médica. comento, arqueando a sobrancelha— Que chique! Faço um bico exagerado, fingindo ciúmes.  —Não vai me trocar, viu?  brinco, dando um soco de leve em seu braço.

— Nunca, princesa. Responde no mesmo tom galanteador de sempre. — E tenho certeza de que você vai amar ela… Rafaela é incrível. Vocês vão se dar bem.

Concordo com a cabeça, sorrindo.

— Traga ela aqui. Vou adorar conhecer. Sua amiga, minha amiga.
Passo a tranca final na porta junto com ele e solto um suspiro aliviado. Trabalho encerrado. Dou um beijo rápido em sua bochecha e me despeço, seguindo a passos largos em direção ao meu carro.

Hoje, tudo o que eu quero é o conforto da minha cama.
Entro no carro e acelero madrugada adentro, feliz pelo privilégio raro das ruas quase vazias. Em poucos minutos chego ao condomínio. Subo, destranco a porta e praticamente me arrasto até o banheiro.

Um banho. É tudo o que preciso.
A água quente cai sobre mim como um abraço tardio. Fecho os olhos, deixando que o cansaço escorra junto com o vapor. Tenho me sentido no limite há meses… Vivendo em alerta constante, como se estivesse sempre pisando em ovos comigo mesma.

Desligo o chuveiro e me enrolo em uma toalha branca. Prendo o cabelo em um coque frouxo, deixando algumas mechas escaparem de propósito.

Paro diante do espelho grande do banheiro e encaro meu reflexo.
O cansaço é evidente.

Suspiro...

Definitivamente, não estou na minha melhor fase. No quarto, visto apenas uma camiseta larga e me jogo na cama. Deixo meu corpo se espalhar pelo colchão enorme, sendo engolida pelo conforto. Lembro-me do dia em que comprei essa cama, cheia de planos.

Imaginando um futuro quente e feliz ao lado de Jessy.

Como eu estava errada!

Fecho os olhos, afastando qualquer pensamento sobre ela. Minha ex é um assunto que tento evitar,  mesmo sendo, ironicamente, a origem da maioria dos meus pensamentos turbulentos.

O cansaço me vence.

Quando acordo, a luz do sol já invade boa parte do quarto. Levanto a cabeça o suficiente para conferir o relógio na cabeceira.
7h da manhã.

— Cedo demais… resmungo.
Tento dormir de novo, mas desisto depois de alguns minutos rolando na cama.

Levanto e sigo direto para a cozinha, o meu lugar favorito da casa. Cozinheira raiz nunca deixa de ser quem é.

Coloco a água para ferver ainda no modo automático. Em poucos minutos, o cheiro do café recém-passado, com grãos moídos na hora, toma o ambiente.

Ah… café. Meu salvador diário.
Enquanto tomo o primeiro gole, meus olhos caem sobre a geladeira, onde as contas do mês estão presas por um ímã colorido. Balanço a cabeça, consciente de que este mês também será apertado.

Mas, como sempre, vou dar meu jeito. Pego o celular para checar as mensagens. Grupo da família, fornecedores, amigos. Penso em deixar tudo para depois, mas o nome de Dan brilhando na tela chama minha atenção. Ele enviou uma foto.

Abro sem pensar.

Dan aparece fazendo uma careta exagerada em frente ao aeroporto. Rio sozinha e respondo na hora:

“Pensei que estivesse feliz em buscar sua amiga. Com essa cara, vai assustar a menina 😂”

A resposta vem quase instantânea:
“Ela não teria coragem de fugir de mim. Me ama muito 😌”

Outra foto chega, agora com um sorriso largo. Envio uma foto do meu café e uma figurinha de sono.

“Não são nem 8h da manhã… quanta animação.”

“Sou feliz, amore!”  ele responde, certeiro.

Sorrio.

Dan sempre consegue me arrancar risadas. Sou genuinamente grata por tê-lo na minha vida. Não sei se teria atravessado tudo o que atravessei sem o apoio constante dele.

Bloqueio a tela do celular e observo o apartamento em silêncio. Grande demais para alguém só. Bonito demais para parecer tão vazio.

Talvez esteja na hora de pensar em dividir esse espaço com alguém.
Quando comprei este lugar, imaginei uma família. Risadas, bagunça, vida. Agora, sustentar esse sonho sozinha parece cada vez mais distante da realidade.

Dou outro gole no café, deixando a ideia amadurecer na minha mente.
Dividir o apartamento, dividir a rotina, dividir a vida.

Mas será que eu estou pronta para dividir qualquer coisa com um estranho?

Por enquanto, essa pergunta segue sem resposta.

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