Eu não fazia ideia de como segurar uma criança pela mão. Muito menos uma criança que, de repente, era meu irmão. Mas ali estava eu, andando devagar pelo centro da cidade que eu jurei nunca mais pisar, enquanto Joaquim segurava o sorvete com toda a concentração do mundo, como se fosse um planeta prestes a explodir se caísse no chão.
O sorvete preferido dele era de chocolate. Óbvio. O sabor mais sujável do universo. Ele já estava com a bochecha pintada, o nariz marrom, e os dedos... meu Deus, os dedos.
Ele ergueu o rostinho pra mim, lambendo um pedaço que tinha derretido até o pulso.
- Você parece comigo, ele disse, tão sério que parecia que estava me dando um diagnóstico.
Eu parei de respirar por um segundo.
- É mesmo?
Ele franziu o nariz sujo, estudando meu rosto como se fosse uma equação impossível.
- Você tem os olhos iguais aos meus. Parece com a mamãe!
Senti meu peito apertar de um jeito que não senti nem quando recebi a notícia da morte dela. Era diferente. Era como se alguém tivesse arrancado uma costela de dentro de mim e dito "olha aqui, lembra disso?".
Eu tentei sorrir, mas saiu tremido.
- Nós parecemos, sim.
Ele deu mais uma lambida que não lambia nada, e então disse baixinho:
- Eu não vejo ela há dias... tô com saudade... você sabe o que aconteceu? Ninguém me fala nada.
Ah, meu Deus...
Ali, na rua, com gente passando, com carro buzinando, com cheiro de pastel vindo de algum canto, eu senti meu coração despencar até os pés.
Eu me ajoelhei.
- Vem cá.
Ele encostou a testa no meu ombro. Era tão pequeno. Tão meu. Tão perdido.
- Você ia pra igreja com a mamãe?
Ele balançou a cabeça.
- Não. A gente só lia a Bíblia todo dia...
- Então... papai do céu tá com ela agora.
Senti minha voz falhar, mas continuei. - É por isso que ela não veio mais. Mas ela pediu pra eu vir cuidar de você. Eu sou sua irmã. E a gente vai ficar junto agora.
Ele me olhou com aqueles olhos dourados que pareciam absorver tudo.
- Onde você tava esse tempo todo? Nunca te vi.
Essa criança tinha quatro anos, mas parecia ter trinta em percepção.
Engoli a culpa, a raiva, o luto - tudo junto.
- Eu tava estudando, Joca. Por isso você não me conhecia ainda. Mas eu voltei. E... se você quiser, você vai comigo.
Ele assentiu tão rápido que doeu.
- Eu quero... eu tô me sentindo sozinho.
Aí ele levantou a bola com toda pompa do mundo.
- Mas posso levar a minha amiga? A Bola?
Eu ri, mesmo com os olhos ardendo.
- Claro que pode. Mas você vai ter que me contar todas as aventuras dessa Bola aí. E depois a gente joga um pouco.
Ele abriu um sorriso tão grande que eu senti algo dentro de mim acender - uma chama que eu pensei que tinha apagado pra sempre.
Voltamos pro Instituto São Gonçalo, e conforme nos aproximávamos, o cheiro familiar de ervas frescas e flores do jardim me trouxe memórias que eu não queria ter.
As paredes do prédio eram brancas, já descascando nas pontas. O portão de ferro rangia como se reclamasse por ainda existir. Era exatamente do jeito que eu lembrava - simples, organizado, com aquele perfume de "interior que tenta ser agradável".
Quando entramos, lá estava a Lisa. Encostada na parede, conversando com uma mulher que parecia ter mastigado limão a vida toda. Coque puxado, cara fechada. A simpatia passou longe.
Assim que chegamos perto, a mulher disparou:
- Finalmente alguém veio buscar o menino.
Me olhou dos pés à cabeça. - A senhora vai fazer alguma doação? Ele ficou aqui muitos dias e consumiu recursos.
Eu pisquei devagar. Uma, duas vezes.
- Desculpa... isso aqui não é uma instituição de caridade? Por que a senhora tá me cobrando desse jeito?
Ela não moveu um músculo.
Eu respirei fundo.
- Mas tudo bem. Me passe os dados por e-mail. Eu pago.
Lisa imediatamente se meteu:
- Isso não é assunto pra agora. Não concordo com essa abordagem. A gente conversa depois.
Mas eu não tinha energia pra mais uma briga com ela. Já tinha excedido minha cota de caos emocional por dia.
- Eu só quero pegar as coisas do meu irmão e ir embora.
- Rafa... não é só assim. - Lisa cruzou os braços. - Tem a casa da sua mãe. Tem documentos. Tem coisas suas lá. Você não pode só sair fugindo outra vez.
O "fugindo" veio forte. Como uma acusação.
Eu virei pra ela com a calma perigosa que só uma médica cansada consegue ter.
- Eu vou embora, Lisa. E depois eu volto, quando puder. O que tiver naquela casa... não me interessa agora. Eu não quero entrar lá. Não quero reviver nada disso.
- Rafa...
- Eu mando alguém resolver. Vende a casa. Faz o que tiver que fazer. Eu só... não posso lidar com isso hoje.
Apertei a mãozinha do Joaquim. Ele apertou de volta, segurando também sua Bola como se fosse um escudo.
E foi nesse aperto, nesse gesto tão simples, que eu percebi:
Eu tinha um irmão.
Eu tinha responsabilidades.
Eu tinha dor demais pra carregar sozinha.
Mas ali, naquele instante... eu também tinha um motivo pra continuar.
E por enquanto, isso bastava.
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Pimenta & amor
RomanceBianca é sócia de um restaurante com seu melhor amigo e com sua agora, ex-noiva. Vivendo na pele as inseguranças e as cicatrizes de um relacionamento abusivo, ela tenta buscar forças para salvar seu negócio da ruína. Sem inspiração, em crise consig...
