Capítulo 8

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Jessy voltou de suas “mini férias” disposta a me tirar completamente do sério. Ela adorava fazer comentários sobre meu corpo, meu peso, minha inteligência. Tudo o que pudesse usar para me diminuir, ela usava.

Na maior parte do tempo, eu apenas a ignorava. Mas havia momentos em que ela ultrapassava todos os limites. E quando teve coragem de agir assim na frente de Rafaella, confesso que me abalou. Fiquei em choque com tamanha ousadia.

Surpreendentemente, para compensar minha ausência de reação, Rafaella não deixou o comentário maldoso da minha ex passar em branco. Ela rebateu, firme, sem rodeios.

Não nego... gostei de ser elogiada. Gostei ainda mais da forma como ela me defendeu.

Percebi que Jessy ficou cismada com Rafaella, provavelmente achando que existia algo entre nós. Talvez tenha sido isso que motivou sua atitude tão sem noção, já que geralmente ela só fazia essas “gracinhas” quando estávamos a sós.

Ciúmes? Aquela mulher precisava seriamente de terapia.

Balanço a cabeça, afastando esses pensamentos. Hoje não era dia para isso. Hoje era dia de comemorar. Rafaella havia sido aprovada na entrevista do hospital e, aproveitando que o restaurante não abriria, resolvemos fazer uma noite de vinho e petiscos.

Já estava no meu apartamento, com quase tudo pronto: a mesa repleta de petiscos, uma grande tábua de frios impecavelmente montada. Quanto aos vinhos… bem, Dan disse que ficaria responsável por isso.

Olhei para a mesa, me perguntando se seria suficiente para todos. Dan havia dito que convidaria apenas “algumas pessoas próximas”....

Eu conhecia bem a fama de Daniel quando o assunto era festa, e temia que esses algumas se torna-se várias facilmente.

Por volta das oito da noite, a campainha tocou. Desci para recepcionar os primeiros convidados: Maitê e Nilo, um casal de amigos antigos e clientes frequentes do restaurante.

Cumprimentei os dois com alegria. Eles eram adoráveis e sempre tinham bons conselhos.
Antes que a conversa se prolongasse, meus olhos encontraram Dan e Rafaella.

Dan como sempre, estava impecável — camiseta social preta, calça jeans escura, o cabelo preto e liso perfeitamente arrumado.

Rafaella vinha ao seu lado, usando um macacão social preto, soltinho, que valorizava seu corpo com naturalidade. Os cabelos ondulados soltos se moviam com o vento fresco do início da noite e, pela primeira vez, a vi usando óculos.

Conseguiu ficar ainda mais linda, com os olhos quase dourados em evidência.Assim que me viu, abriu um sorriso que retribuí imediatamente.

Cumprimentei-a primeiro, com um beijo na bochecha, ficando perto o suficiente para sentir seu perfume — amadeirado, com um leve toque floral. Era uma combinação delicada e marcante, exatamente como ela.

Em seguida, cumprimentei Daniel. Ele elogiou meu vestido, fazendo uma piada típica e arrancando risadas. Só então me dei conta de que eu usava um vestido azul-marinho, soltinho, com comprimento um pouco acima dos joelhos — realmente favorecia meu corpo.

Acompanhei todos até o apartamento, com a sensação de que seria uma noite agradável. Assim que chegamos, a conversa fluiu naturalmente, e todos parabenizaram Rafaella pelo novo emprego.

Não sei dizer ao certo quando, mas tive a impressão de que, a cada taça de vinho, mais uma ou duas pessoas surgiam no apartamento.

Dan convidou o quarteirão inteiro?

Já estava levemente embriagada demais para me preocupar. Sabia que casa cheia e música alta provavelmente renderiam uma multa do condomínio... e ele iria me ajudar a pagar.

Olhei ao redor: todos pareciam aproveitar a noite. Finalizei mais uma taça de vinho quando meus olhos encontraram os de Rafaella. Havia algo diferente naquele olhar — intenso, atento, difícil de ignorar.
Ela estava do outro lado do apartamento, encostada na bancada, segurando um copo que parecia ser uísque.

Mesmo assim, seu olhar permanecia fixo em mim. Tomei coragem e me aproximei. A essa altura, já não havia como negar a atração que sentia.
— Gostando da festa? — perguntei.
— Claro. São todos adoráveis. É sempre bom estar com vocês — respondeu, fazendo uma pausa antes de bater levemente no banco ao seu lado, convidando-me a sentar. — Mas e você, está gostando?

— Estou… só ainda tentando entender de onde o Dan tirou tanta gente.

Ela riu, bebendo mais um gole da bebida.
— Dan sempre foi assim. No ensino médio, já era famoso pelas festas. Não me surpreende ele lotar seu apartamento em poucas horas.
Concordei em silêncio. Dan realmente sabia como agitar qualquer lugar.

— Mais vinho? — ela ofereceu, pegando a garrafa. Aceitei. Ela encheu minha taça até a metade. Bebi, mas acabei deixando escorrer um pouco pelo canto da boca. Minha coordenação já não ajudava — culpa da mistura de vinhos.

Antes que eu pudesse me limpar, senti seu polegar tocar suavemente meu rosto, limpando o vinho. O gesto simples fez meu corpo reagir de um jeito inesperado. Nossos olhares se encontraram e, de repente, ela parecia muito próxima.

Rafaella afastou uma mecha de cabelo do meu rosto, colocando-a atrás da minha orelha. Meu coração acelerou. Por um instante, tudo ao redor pareceu desaparecer.

Fechei os olhos, tentando organizar meus próprios pensamentos, sentindo que algo estava prestes a mudar.

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