Capítulo 17

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Só percebi que estava exausta ao fim desse quinto dia seguido de trabalho.

Entrar no modo automático tem dessas, e a nova rotina não teve a menor piedade. Ainda assim, confesso que me organizei melhor do que esperava. Afinal, enfrentar uma mudança de casa e um trabalho novo na mesma semana?

Foi um desafio e tanto!

O que não sai da minha cabeça é o fato de eu não ter tido tempo para o que mais queria ter tempo, Bianca...

A triste realidade de morar com ela e mal conseguir ver seu rosto. Passei esses dias sendo consolada apenas pelo cheiro de jasmim que se espalha pela casa quando ela está por perto.

Fecho os olhos, sentindo o conforto da cama, e percebo as batidas aceleradas do meu coração sempre que penso em seu perfume. Solto o ar, culpada. Não consigo evitar: essa mulher ocupa meus pensamentos com uma facilidade assustadora.

Bianca se faz presente mesmo quando não está. Tudo nela chama minha atenção. Sua ausência deixa vestígios pela casa, seja pela organização impecável ou pelo cuidado silencioso com cada detalhe. Sorrio ao pensar que minha bagunça corre sério perigo perto dela. E confesso que adoro o fato de o apartamento estar sempre perfumado. Talvez seja lavanda… Sempre há esse cheiro quando Bianca está em casa.

Reviro-me na cama, tentando encontrar uma posição confortável.

É claro que dividir a rotina com ela exigiu um esforço a mais de adaptação. Não sou nem de longe tão organizada quanto Bianca.

Ainda assim, estou conseguindo manter tudo em ordem. Melhor do que imaginei. A fase de adaptação tem sido surpreendentemente tranquila, até porque Bianca é simples de conviver. Gentil, atenciosa e fácil demais de gostar.

Sorrio involuntariamente ao perceber o quanto minha mente a elogia. Quantos elogios ainda cabem nela? Mas sendo justa, todos são verdadeiros.

Nessa primeira semana, notei o quanto ela se esforçou para me fazer sentir bem acomodada. E também percebi algo curioso: sempre que eu chegava do plantão e ela ainda estava trabalhando no restaurante, havia papéis coloridos colados na geladeira. Pequenos recados, quase sempre acompanhados de um coração.

Fiz sorvete caseiro, prova! ♥️”

“Deixei um prato especial pra você no micro-ondas. Jante, mocinha ♥️”

Acho que Bianca demonstra carinho me alimentando.
Aguardo ansiosamente o dia em que ela resolva me oferecer um chá…

Afasto o pensamento antes que ele vá longe demais.

Já avisei a ela que se continuar me mimando assim, não terei forças para ir embora.

Decido levantar. Sei que não vou conseguir dormir novamente. Olho para o relógio e faço uma careta.
Acordar cedo assim no meu domingo de folga? Sinceramente, relógio biológico…

Faço minha higiene pessoal e resolvo preparar um café fresco. Me animo ainda mais ao perceber que Bianca está em casa e dormindo. Talvez ela acorde a tempo de tomar café comigo.

E sejamos honestas, diferente de mim e de Dan, Bianca não acorda com o melhor dos humores. Um café quentinho deve ajudar.

Enquanto preparo o café, noto que várias coisas básicas já estão faltando na casa. Eu havia mandado mensagem para Bianca dias atrás, sugerindo irmos ao supermercado. Pelo visto, não dá mais para adiar. Ou logo estaremos vivendo à base de água e bolacha de sal.

Minha atenção é roubada por um pequeno corpo que surge no corredor. Bianca caminha em minha direção com passos lentos, claramente ainda despertando. O cabelo preso em um coque frouxo, com fios escapando pelas laterais… ela consegue ser linda até com cara de sono.

— Bom dia, flor do diaaa — digo, cantarolando.
Recebo uma careta em resposta, o que quase me faz rir.

— Bom dia. Quanta animação, senhorita… — resmunga. — São o quê? Oito da manhã?
Tento não rir, mas falho miseravelmente.

— Já são nove, de um domingo lindo! — respondo.
Ela olha pela janela e faz uma expressão julgadora.
— Está chovendo…
— Exatamente! — concordo animada. — Um domingo perfeito para dormir!

Estendo uma xícara generosa de café em sua direção. Bianca pega e dá um gole demorado.
— Hum… delicioso — diz, fazendo um bico involuntário. — Eu amo seu café. Ainda não acredito que você aprendeu tão rápido… e a fazer melhor que o meu.

— Tudo o que eu faço é gostoso — respondo, me gabando. — Inclusive o café!

— Imagino… — ela diz num tom fraco.

Fico curiosa. O que será que passou pela cabeça dela agora?
— Falando em fazer coisas… — sento-me ao seu lado, observando-a mais de perto. — Temos pendências.

Seus olhos encontram os meus, atentos. Vejo suas bochechas ganharem um tom rosado extra. Será que ela esqueceu?

— O supermercado, lembra? — explico. — Combinamos de fazer compras, e já estamos realmente precisando.

Vejo seus ombros relaxarem imediatamente.

Ela concorda com a cabeça. Depois de implicar um pouco com ela, deixo a cozinha e sigo em direção ao chuveiro para me trocar, animada com a ideia de sair com Bianca.

Não tinha percebido o quanto estava fazendo falta passar mais tempo ao lado dela.E essa constatação me assusta um pouco.

Porque no fundo, significa que eu gosto e muito  de sua companhia.

Rafaela…

Não existe medida para o quanto você está perdida!

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