Capítulo 1

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Eu espalmei as mãos na bancada de mármore com tanta força que achei que iam afundar. Respirei fundo, tentando manter minha dignidade, mas ficou difícil quando meus olhos caíram na farofa... ou no que sobrou dela. Um monte preto, triste, fedendo a derrota.

A famosa farofa da noite. Queimada. Completa e irremediavelmente queimada!

Eu uma chef formada, capaz de acertar o ponto de uma carne só de olhar, estava ali... sendo humilhada por uma farofa. Uma farofa. Juro que ouvi Gordon Ramsay rindo na minha cabeça.

A vontade de chorar veio quente. Hoje nada dava certo.

Absolutamente nada!

Senti a insatisfação dos clientes lá fora como se fosse uma marreta no meu peito. Eu não podia culpá-los. Se eu fosse cliente, estaria reclamando também. A cozinha que sempre foi meu templo virou um campo de guerra, e eu estava perdendo feio.

Minha cabeça latejava. Meus ombros doíam. E minha vontade de largar tudo e virar vendedora de alfajor na praia estava no topo.

Dan surgiu atrás de mim no silêncio, e antes que eu pudesse expulsar minha própria tristeza, ele roubou um pedacinho da farofa queimada. Eu só observei, de braços cruzados, esperando o veredito.

Ele mastigou. Tentou sorrir. E quase morreu engasgado tentando fingir que não estava horrível.

— Isso... não parece tão ruim. — Ele arriscou, claramente arrependido.

Ergui uma sobrancelha. Era o máximo que eu tinha de energia pra expressar indignação.

— Dan, ruim seria um elogio. Olha pra isso.  Empurrei a frigideira para ele ver as cinzas do meu fracasso culinário. — Isso aqui é intragável! Sem dó, virei a frigideira na lixeira. Já bastava de humilhação por hoje.

— Acho melhor você assumir a cozinha.  Falei cansada, me virando para ele. — Você é um chef talentoso, vai salvar essa noite.

Ele aproximou devagar, com aquele olhar castanho que tentava consertar o mundo inteiro.

— Linda... você também é talentosa. A gente sempre revezou e sempre deu certo. Isso é só uma fase ruim. Todos temos fases ruins. Seja mais gentil com você. Ele me puxou num abraço quente. — E você conhece aquele ditado, né?

Suspirei, deixando minha bochecha descansar no ombro dele.

— Qual? Ele fez uma pausa tão dramática que eu quase empurrei ele.

— Primeiro vem a tempestade... depois vem o arco-íris. E se você tiver sorte, ele traz junto uma chuva de homens lindos e sarados caindo no seu colo.

Eu empurrei o peito dele rindo, finalmente. Dan tinha esse superpoder: impossível ficar triste ao lado dele.

— Esse é o seu sonho perfeito. No meu caso uma morena cacheada já estava bom demais.

— Hmmm... aberta a possibilidades? — ele arqueou as sobrancelhas, brincalhão.

— Não começa! — Ri mais uma vez. — Depois da última vez que eu abri esse coraçãozinho aqui, quase fiquei traumatizada pra sempre.

E quase fiquei mesmo. Porque minha ex-noiva... ah, Jessy. Minha cruz, meu tormento, meu karma personalizado. Além de ex, ainda era sócia do restaurante. Meu inferno astral ambulante.

Dan revirou os olhos só de lembrar.

— A última provou que sua mão é boa pra cozinhar, mas péssima pra escolher amor. A Jessy é uma megera.

— Nem me fale... Tirei o avental e joguei nele. — Vai, assume essa cozinha. Eu vou pro salão tentar minimizar esse fiasco.

Ele assentiu, já reorganizando tudo com aquela calma irritante de quem nasceu praquilo.
Eu o admirava profundamente. Sem Dan, esse restaurante já teria explodido, falido ou sido tomado por uma infestação de Gremlins.... eu não estaria surpresa.

Enquanto caminhava até o banheiro, senti aquele aperto de culpa. A gente tinha colocado nossas economias, nosso tempo, nosso suor nesse restaurante. E por falta de grana, aceitamos uma sócia. Jessy na época minha noiva, parecia uma ótima ideia, bom... parecia.

Ajeitei o cabelo, lavei o rosto e forcei um sorriso no espelho. Era isso ou chorar ali mesmo até virar um maracujá murcho.

Abri a porta, saí para o salão e respirei fundo.

Hora de enfrentar os estragos que eu mesma provoquei  com a cabeça erguida, mesmo que o mundo estivesse desmoronando.

Pimenta & amorOnde histórias criam vida. Descubra agora