Sempre julguei que mudanças são eventos complexos, principalmente quando envolvem um lar. Contudo, Rafaela me provou que, para toda regra, existe uma exceção. Sua mudança foi tranquila e suave. Em menos de dois dias, ela já havia organizado tudo perfeitamente.
Claro que Dan e eu ajudamos. E o moreno não perdeu a oportunidade de fazer drama, dizendo que estava "sendo trocado". Contudo, não disfarçou o sorriso sacana quando Rafaela o lembrou de que agora ele estaria livre para reabrir seu cabaré.
Obviamente, essa possibilidade fez Dan abrir um sorriso ainda maior. Ele sempre foi um famoso pegador. Me pergunto quando alguém vai conseguir fisgar aquele coraçãozinho de gelo. Essa é, sem dúvida, uma pergunta sem resposta... pelo menos até agora.
Rolo na cama com preguiça, ciente de que já deveria ter levantado. Hoje é domingo, e aproveitei para dormir um pouco mais. Sexta e sábado o restaurante ficou lotado; tivemos que nos desdobrar para dar conta do serviço.
Felizmente, tudo correu bem. Ainda assim, a proximidade de Jessy nos últimos dias vem me incomodando profundamente. A ruiva nunca dedicou tanta atenção ao restaurante, nem mesmo quando queria mostrar serviço no início da sociedade.
Agora me pergunto por que ela simplesmente não sai do nosso pé. Seus comentários ácidos e sua presença tóxica tiram completamente a minha paz. Tem sido um grande exercício de controle emocional não terminar os dias mentalmente exausta.
Felizmente para minha sorte, Dan está sempre ali. Um amigo fiel, tornando a rotina mais leve, impondo limites e muitas vezes, deixando bem claro qual é o lugar de Jessy dentro do restaurante.
Suspiro, soltando o ar com força tentando aliviar uma frustração antiga.
Sei que preciso dar um jeito de encerrar essa situação. Dan e eu amamos aquele restaurante. Ele é símbolo da nossa amizade e parceria. E não consigo deixar de me culpar por tudo o que estamos passando.
Afinal, fui eu quem abriu espaço para essa megera entrar nas nossas vidas e no nosso sonho.
Ouço um barulho vindo da cozinha e só então me lembro de Rafaela. Já faz uma semana que ela está morando aqui. E posso dizer que minha rotina se adaptou muito bem à morena...
Até demais.
Rafaela é extremamente adaptável. Não tivemos dificuldades em alinhar nossas rotinas, o que confesso ter sido uma surpresa. Se tem uma coisa da qual tenho plena consciência é que sou cheia de manias e ainda assim, ela foi compreensiva desde o início. Nossa convivência tem sido tranquila.
É claro que, quando o assunto são meus toques por organização, Rafaela definitivamente não compartilha dos mesmos. Mas ela se esforça, ajuda no que pode e respeita meu espaço.
Saber que ela está aqui hoje me traz um ânimo repentino. Quase não a vi nos últimos dias. Rafaela emendou uma sequência de plantões de treinamento, e nossos horários mal se cruzaram durante a semana. Os desencontros se acumularam. Parece estranho admitir, mas senti sua falta. O vazio aumentava cada vez que eu acordava e percebia que ela já havia saído para trabalhar.
Mas, se Rafaela não desse um jeito de estar presente nos meus pensamentos, não seria ela.
Durante toda a semana, criou o hábito curioso de sempre deixar café quentinho. E, sim... aprendeu a fazer melhor do que o meu. Observou uma única vez e pronto, superou a professora.
Um sorriso surge involuntário ao lembrar desse café. Como pequenos gestos podem ter um impacto tão grande?
Mesmo sem nos vermos muito, trocávamos mensagens ao longo do dia , quase sempre sobre coisas da casa.
Levanto-me, sentindo o cheiro maravilhoso do café fresco. Abro a porta do meu quarto e dou de cara com o quarto da Rafaela. Inclino a cabeça discretamente, espiando pela fresta da porta aberta. A cama está vazia. Então, ela já acordou.
Acabo me distraindo e observando o quarto por tempo demais. As paredes em azul acinzentado, o painel de fotos que antes estava vazio, agora completamente tomado por pequenas imagens espalhadas. No teto, noto a mudança na iluminação: a lâmpada comum foi substituída por uma grande e redonda, provavelmente com controle de intensidade.
A cama nova parece semelhante à minha, grande e imponente, coberta por um jogo de cama também em tons de azul.
Balanço a cabeça, tentando não pensar em nada que envolva Rafaela e uma cama grande. Me obrigo a seguir pelo corredor em direção à cozinha antes que ela me flagre espionando seu quarto.
Um sorriso bobo surge ao perceber o quanto aquele espaço reflete perfeitamente a personalidade dela.
- Bom dia, flor do dia! - ela diz assim que me vê.
- Bom dia! Quanta animação, senhorita. Seu bom humor matinal é extremamente peculiar... - brinco. - Ainda são o quê? Oito da manhã?
Ela sorri, balançando a cabeça.
- Já são nove. De um domingo lindo!
Faço uma careta automática ao olhar pela janela da cozinha.
- Está chovendo...
- Exatamente! - ela responde animada. - Um domingo perfeito para dormir!
Abre um sorriso e me estende uma xícara generosa de café. Dou um gole imediato, deixando a mente vagar.
- Hum... delicioso! Eu amo o seu café, sabia? Ainda não acredito que você aprendeu tão rápido... e a fazer melhor que o meu!
Rafaela sorri, sustentando meu olhar.
- Meu bem... tudo o que eu faço é gostoso.
Engulo em seco.
Ela está flertando comigo?
- Inclusive o café - completa.
Mas minha mente já está longe, pensando em outras "coisas gostosas" que ela provavelmente sabe fazer.Meus hormônios estão completamente fora de controle. Só pode!
- Imagino... - respondo fraca, voltando a atenção para a xícara.
- E falando em fazer coisas... - ela se senta ao meu lado, tomando outro gole. - Temos pendências.
Meu corpo inteiro entra em alerta. Toda a minha atenção se volta para a morena à minha frente. Não consigo evitar a curiosidade.
- Pendências? - pergunto, já disposta a resolver qualquer uma delas.
- O supermercado, lembra? - ela responde, natural. - Combinamos de fazer compras. Já estamos precisando.
Ela me entrega uma bolacha de água e sal - Está aqui, é uma das poucas sobreviventes do fim do mês.
Balanço a cabeça, rindo de mim mesma. O supermercado. Claro! Essa era a "pendência". Por um segundo, pensei outra coisa...
- Vou só terminar esse café e me trocar - digo. - Podemos ir juntas fazer a compra do mês. O que acha?
Ela concorda.
- Mas já aviso - completo. - Você vai precisar de paciência comigo. Amo escolher cada produto com calma.
Rafaela dá um gole no café, escondendo um sorriso.
- E você comigo. Eu amo comprar besteiras!
Faço uma careta.
- Prometa que não vai trazer miojo, e talvez a gente sobreviva.
Ela levanta a mão, jurando.
- Você tem minha palavra. Não vou tentar trazer nenhum pacotinho pra casa...Faz uma pausa dramática antes de completar, quase choramingando:
- Talvez um Cup Noodles de costela.
- Rafaela! - repreendo.
- Brincadeira! - se defende, rindo.
Voltamos ao café com bolachinhas, agora em silêncio. Um silêncio confortável. Vez ou outra, percebo seus olhos pousando discretamente sobre mim.
Esse domingo promete.
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Pimenta & amor
RomanceBianca é sócia de um restaurante com seu melhor amigo e com sua agora, ex-noiva. Vivendo na pele as inseguranças e as cicatrizes de um relacionamento abusivo, ela tenta buscar forças para salvar seu negócio da ruína. Sem inspiração, em crise consig...
