Capítulo 10

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A voz de Dan provoca um despertar em ambas. Me afasto, acompanhando seus olhos cor de mel, notando que agora parecem quase dourados.

O calor e a tensão entre nós são quase palpáveis — provavelmente não para Dan, que ainda fala algo animado e rápido demais, obrigando-me a fechar os olhos para tentar processar o que tanto ele diz.

Não demora e eu desisto.
Fecho os olhos por um segundo, me lamentando, tentando conter o turbilhão de emoções que surgiu.

Tudo efeito e culpa do álcool?

Com toda certeza, sim!

Olho para Dan, e ele reforça sua última frase, fazendo com que eu finalmente pegue o fio da meada. Ele está contando algo sobre ter descoberto como fazer vodka com batatas…

Sim, eu não estou louca.

Tenho certeza de que estou com uma expressão enorme de indignação. Ele realmente sabotou o que poderia ter sido um beijo maravilhoso, para me contar que vodka é feita por fermentação de batatas?

Meu santo pai, Dan! Nós fizemos uma escola de gastronomia juntos. Não acredito que ele interrompeu todo esse clima para me contar uma informação tão óbvia!

Dan bêbado ainda vai me matar de ódio.
— Jura, Dan? — questiono, e Rafaela começa a rir. Talvez ela compartilhe do mesmo sentimento.
Dan não se importa nem um pouco com nossa total falta de interesse no assunto. Continua animado, explicando o processo de produção da vodka e, quando penso que finalmente vai embora, ele faz questão de pegar a mão de Rafaela e sair arrastando-a pela multidão.

O que me resta é pegar a garrafa de vinho e terminá-la.
Vou bebendo calmamente, conversando com uma pessoa ou outra que passa por perto. Confesso que só percebo o efeito do álcool quando tento me levantar.

Talvez eu tenha me levantado rápido demais, ou talvez o álcool esteja me castigando pela audácia de beber como se vinho fosse água.

De toda forma, tudo começa a girar ao redor dos meus pés. Um alerta soa na minha cabeça: isso não é um bom sinal.

Apoio-me no balcão, tentando me segurar  e segurar a vontade de vomitar que vem forte, direto do fundo do meu âmago. Quase como um porto seguro, sinto uma mão contornar minha cintura, sustentando-me.

— Você está bem? — ela pergunta.
Balanço a cabeça em negativa.
— Respira, vai melhorar…

A voz de Rafaela me traz conforto. Ninguém melhor para me socorrer do que uma médica.

Bêbada e lascada, sim!

Com azar? Hoje, não!

Ela me guia com cuidado, a passos curtos, pela multidão. Seu braço permanece envolto à minha cintura, e eu amo a sensação do seu toque. Se não estivesse tão mal, poderia facilmente desejar que ela me segurasse por mais tempo.

Percebo que estamos no meu quarto. Ela me coloca sentada na cama, e eu jogo o corpo para trás, sentindo o colchão macio me oferecer algum conforto. Tudo ainda gira, e é difícil me concentrar em qualquer ponto fixo.

— Vem… Você precisa de um bom banho para melhorar. Vou te ajudar com isso.

Sua mão passa pelo meu pescoço enquanto ela me puxa para cima, obrigando-me a sentar novamente e, em seguida, ficar de pé.

Banho?

Um pequeno neurônio de sanidade desperta em minha mente, e busco o resto da minha dignidade.

— Eu consigo sozinha…

Provavelmente não consigo, mas não vou passar por essa cena. A Bianca de amanhã vai me agradecer por esse ato de coragem;

A de agora, nem tanto!

— Tudo bem… — ela me encara, quase medindo se é realmente uma boa ideia me deixar sozinha. — Vou estar na porta. Qualquer coisa, é só chamar.

Ela me solta, e eu me arrasto até o banheiro. Agradeço por o vestido ser soltinho, pois não tenho dificuldades em tirá-lo, empurrando-o cintura abaixo e chutando-o para algum canto enquanto me apoio na parede.

Tiro o sutiã e a calcinha e me obrigo a entrar no box aos tropeços.

Felizmente, não caio. Tento controlar a vontade de rir.

Meu Deus, que situação.

A água cai inicialmente gelada, e isso me desperta. Deixo que escorra pela cabeça e pela nuca, molhando os cabelos. Aos poucos, a água esquenta, e meu corpo relaxa sob ela.

Desligo o chuveiro quando já me sinto humanamente melhor.

Olho para o armário da pia e, sobre a bancada, vejo uma muda de roupa. Provavelmente Rafaela que colocou ali.

Me seco e visto um camisão que vai um pouco abaixo da bunda, sem sutiã e com uma calcinha vermelha confortável.

Rafaela mexeu na minha gaveta de calcinhas?

Ela entrou aqui?

Será que me viu tomando banho?

São perguntas que não quero responder agora.

Seco superficialmente o cabelo com a toalha e saio do banheiro, encontrando-a sentada na minha cama, mexendo no celular, distraída.

Ela percebe minha presença, e sinto o peso de seus olhos lindos brilhando sobre mim. Ainda dourados, com a mesma intensidade de minutos atrás. Me repreendo — lembrar que quase a beijei faz meu corpo começar a esquentar novamente.

— Melhor? — sua voz sai doce e baixa, e tenho certeza de que ela se importa comigo naquele momento.

Balanço a cabeça, confirmando, quase sem coragem de falar pela vergonha de ter dado um belo "PT".

Sento-me ao seu lado e, em seguida, jogo o corpo para trás.Quase em sintonia com meu movimento, Rafaela se levanta, pega uma coberta e me cobre cuidadosamente.

— Bons sonhos, Bianca — diz ao pé do meu ouvido, depositando um beijo suave na minha bochecha.

Fecho os olhos e absorvo a sensação de seus lábios sobre minha pele, sem conseguir conter o mar de sentimentos dentro de mim.

— Obrigada… — sussurro, fraca, fechando os olhos e controlando a respiração.

Alguns minutos depois, tudo apaga.

Pimenta & amorOnde histórias criam vida. Descubra agora