A viagem de avião foi mais rápida do que imaginei. Em pouco tempo, eu já desembarcava, com o coração acelerado pelas infinitas possibilidades que a vida na cidade grande prometia.
Mal atravesso as portas do desembarque e o vejo.
Daniel continua lindo. Alto, forte, moreno… com o mesmo sorriso doce de sempre. É reconfortante demais reencontrá-lo depois de tantos anos.
— Ei, bonitão! — chamo, acenando.
Dan me encontra com o olhar no mesmo instante. Os olhos castanhos brilham animados antes mesmo de ele abrir um sorriso largo.
— Rafa! — grita no meio do aeroporto, pouco se importando com quem está ao redor.
Em segundos, ele está diante de mim. Me ergue no ar com facilidade, girando como se eu fosse leve feito uma pena.
— Estava morrendo de saudade de você, mulher! — diz, antes de me colocar de volta no chão.
— E eu de você! — rio. — Meu Deus… você conseguiu ficar ainda mais forte!
Olho para ele com atenção. Dan envelheceu como vinho — Só melhorou com o tempo. Nada restou do garoto que dividia lanche comigo no colégio. A beleza amadureceu e caiu nele como uma luva.
— Pouco tempo? — Ele arqueia a sobrancelha. — Faz seis anos, Rafa.
Desde o ensino médio você se trancou nos livros e sumiu do mundo.
Faço um bico dramático, fingindo ofensa.
— Em minha defesa, falei com você todos os dias nesses seis anos!
— Alguns dias… bem vagamente — reclama, manhoso.
Dou um soco de leve em seu braço.
— Para de drama! Vamos logo, quero saber tudo. Como estão as coisas? E o restaurante? Estou louca pra conhecer!
Me animo só de pensar em quantos assuntos temos para colocar em dia.
— Calma que vou te atualizar de tudo — ele diz, puxando minha mala. — E você vai ter tempo de sobra pra conhecer o restaurante. Tenho certeza de que vai amar.
Seguimos até o carro e, durante o trajeto, Dan vai me contando tudo o que perdi nesses seis anos.
Grande parte eu já sabia. Nunca perdemos o contato. Mensagens, chamadas de vídeo, confidências de madrugada… apesar da distância, sempre fomos melhores amigos.
Mas alguns detalhes só agora vinham à tona.
Como a situação delicada do restaurante , mergulhado em problemas financeiros por causa de uma sociedade fracassada com a ex-noiva de sua melhor amiga, Bianca.
Segundo Dan, a mulher nunca foi flor que se cheirasse. No início, bancava a boa samaritana, mas ele sempre desconfiou da “jararaca”.
Ainda assim, resolveu dar uma chance, afinal ela era noiva de Bianca, e Bianca é praticamente sua irmã.
Com o tempo, a máscara caiu. A relação virou um ciclo abusivo, e Bianca finalmente conseguiu colocar um ponto final. O problema é que o caos financeiro ficou.
Jessy a ex se recusava a vender sua parte no restaurante. Como se não bastasse, eles ainda descobriram indícios de desvio de dinheiro. Nada comprovado, apenas diferenças gritantes no caixa.
Agora, estavam presos a uma sociedade tóxica.
— Chegamos — Dan diz, estacionando em frente ao prédio.
O prédio branco com detalhes em verde-escuro chama minha atenção.
— Amore, não é grande — ele avisa. — Mas dá pra você ficar aqui até se organizar.
— É lindo, Dan — sorrio. — E não se preocupe com espaço. Só de estar com você já vai ser ótimo.
Ele sorri, convencido.
— Eu sei que você me ama.
— Convencido! — reviro os olhos, rindo.
O apartamento é pequeno, mas extremamente aconchegante. Tudo organizado, cada coisa no lugar. Bem a cara de Dan.
Deixo minhas malas na sala e abro o sofá-cama onde vou dormir. Dan se joga ao meu lado, e começamos a conversar enquanto o café passa.
— Já te contei bastante coisa — ele diz. — Agora é sua vez. Além de ser a mais nova doutora da cidade… amarrou esse coraçãozinho?
Cruzo as pernas, pensando por onde começar.
— Não tem muita novidade — confesso. — Como você diz, fiquei seis anos focada em estudar.
— Você quer me convencer que ninguém fisgou esse coração? — pergunta, incrédulo.
— Eu não sou santa, Daniel — rio. — Fiquei com algumas mulheres… mas nenhuma me fez realmente me apaixonar. Você sabe que sou romântica. Quando não é pra ser, eu sinto.
Ele me observa, como quem sabe que estou desviando de algo.
— E a Lisa? — pergunta direto.
Suspiro.
— Lisa é passado, Dan. Você sabe o que aconteceu. Quando ela fez aquilo comigo… acabou ali. Ela até tentou contato depois, mas cansei de ser o brinquedo dela.
Dan bate palmas, animado.
— Finalmente! Aquela mulher nunca te mereceu. Que fique com aquela família hipócrita dela… religiosos só no nome.
Concordo, mudando de assunto antes que as lembranças voltem.
— E você? — pergunto. — Me diga que está melhor que eu. Depositei todas as minhas esperanças em você pra me dar afilhados lindos.
Ele quase se engasga rindo.
— Se a esperança está em mim, a situação é crítica. Você sabe que eu tenho um dedo podre pra homem.
Dou risada. Dan sempre teve talento para escolher homens lindos e emocionalmente desastrosos.
— Digamos que estou tão sortudo no amor quanto você.
O cheiro do café invade a sala.
— Vem logo — chamo. — Temos fofocas demais pra colocar em dia.
Enquanto toma café, Dan começa a rir mexendo no celular.
— O que você tanto apronta aí? — pergunto.
Ele me encara com olhos arteiros.
— Estou atormentando a vida da Bianca — diz, animado. — Você precisa conhecer ela. Vocês vão se dar bem.
Balanço a cabeça em confirmação. Dan fala tanto de Bianca que já me sinto próxima dela. A ideia de conhecê-la pessoalmente me parece realmente muito legal.
— Olha só a foto que ela me mandou. Está toda engraçadinha hoje — comenta.
Dan vira o celular na minha direção, me mostrando a foto da amiga.
Assim que meus olhos pousam na imagem, um frio inesperado percorre minha barriga.
É uma foto simples. Bianca está com o cabelo preso em um coque, algumas mechas lisas escapando e emoldurando o rosto de forma casual. Os olhos castanhos chamam minha atenção imediatamente, tão brilhantes que parecem sorrir. As bochechas levemente coradas contrastam com a pele branca, dando a ela um ar de menininha. E, como se não bastasse, ela ainda faz um bico nos lábios carnudos.
Linda. Perigosamente linda!
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Pimenta & amor
RomantikBianca é sócia de um restaurante com seu melhor amigo e com sua agora, ex-noiva. Vivendo na pele as inseguranças e as cicatrizes de um relacionamento abusivo, ela tenta buscar forças para salvar seu negócio da ruína. Sem inspiração, em crise consig...
