Capítulo 14

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Cozinhar sempre foi um dos meus maiores prazeres. Logo, cozinhar para amigos era uma diversão que eu simplesmente amava.

Hoje, para minha sorte, eu tinha uma ajudante especial. E confesso que estava sendo divertido ensinar alguns truques de cozinha à Rafaela. Tentei não ficar sem jeito ao notar seus olhos atentos acompanhando cada mínimo movimento meu.

— O segredo de uma boa massa é água bem quente e bem salgada. E nunca, jamais, quebrar o macarrão no meio! — brinco pegando o macarrão espaguete de suas mãos.

Ela levanta as mãos em rendição.

— Culpada! — diz, logo depois de quase cometer o crime, fazendo-me rir da sua carinha de falsa inocência.

— Agora o molho — aponto para o pote ao seu lado. — O melhor molho de tomate é sempre o caseiro. Fica ainda mais delicioso com um pouco de manjericão fresco.

Ela me entrega o pote, e eu despejo o molho na panela, começando a mexer enquanto o cheiro delicioso se espalha pela cozinha.

— Tem uma receita assim no restaurante, não tem? — ela pergunta.

Concordo com a cabeça, ainda mexendo o molho.

— Tem, sim. Criei aquela receita há bastante tempo... — faço uma pausa estratégica, encarando-a. — Mas tem um ingrediente secreto.

Como previsto, ela não resiste.

— Qual?

— Não seria mais segredo se eu te contasse, senhorita! — dou risada.

Ela faz uma careta.

— Muito espertinha! Nossa... como isso é cheiroso.

— Maravilhoso, né? — concordo. — Prova, me diz o que acha?

Coloco um pouco do molho na colher e despejo com cuidado na palma da sua mão. Rafaela assopra e prova, fazendo uma expressão surpresa.

— Delicioso! Humm... maravilhoso, Bia! — ela aperta os lábios, ainda sentindo o sabor.

Um arrepio atravessa meu corpo. Parece que todos os pequenos detalhes dela conseguem chamar minha atenção.

Foco, Bianca... foco!

— Que tal ir montando a mesa para o nosso almoço? — falo, obrigando-me a voltar à realidade.

— Claro, pode deixar.

Mostro onde estão as coisas, e logo ela começa a organizar a mesa. Em pouco tempo, tudo está pronto. Confesso que sinto um alívio — meu estômago já começa a reclamar.

Rafaela, sentada à mesa, mexe no celular e ri. Lanço um olhar questionador, que ela capta na hora.

— Dan... — explica, virando a tela para mim. — Quer saber se não vou dormir em casa hoje, por causa do plantão.

Vejo a conversa com o moreno no aplicativo de mensagens.

— Ah... então ele resolveu aparecer? Já não era sem tempo!

— Parece que ele quer esticar a noite com o rapaz que saiu ontem. Já está animado porque eu não estarei lá.

Só me resta rir. Dan é o amor da minha vida todinho. Sempre foi como um irmão: o homem mais doce que conheço... mas um verdadeiro cachorrão quando o assunto é amor.

Sirvo o macarrão à bolonhesa no prato de Rafaela, deixando o queijo mussarela ralado ao lado.

Sem nenhuma cerimônia, ela dá uma garfada generosa, sugando parte do macarrão com vontade. Quase automaticamente, pensamentos nada santos atravessam minha mente.

Eu preciso parar com isso... Preciso sair, beber e, com toda certeza, eliminar essa energia sexual que vem me rodeando.

— Rainha! — ela diz, animada. — Você é a rainha da gastronomia. Isso aqui está divino!

— Gentileza sua — respondo. — Fico feliz que tenha gostado.

— Gostado? Eu amei! — diz, já quase terminando o prato, o que me faz rir. Seu jeito espontâneo é contagiante.

Provo um pouco da comida, então me lembro do seu plantão.

— Se quiser descansar um pouco aqui antes de ir, fique à vontade. Tenho um quarto vago.

— Um quarto? — ela pergunta, curiosa.

— Sim. Comprei esse apartamento quando fiquei noiva. No fim, ele acabou ficando grande demais só para mim. Agora estou colocando um quarto para alugar, até conseguir organizar as contas... o restaurante está passando por momentos difíceis. E para ajudar, não tenho conseguido criar nada novo para chamar a atenção dos clientes. Sorte que temos o Dan, ou o The Flavour já teria fechado as portas.

Vejo-a franzir a testa, claramente intrigada.

— Como assim você não consegue criar pratos deliciosos? — questiona. — Você acabou de fazer o melhor macarrão que eu já comi na vida! Com o quê? Uns cinco ingredientes, no máximo... Você cozinha tão tranquila, tão concentrada... parece que cada movimento é pensado. — Ela faz uma pausa, refletindo. — A quantidade certa, a delicadeza... você parece uma artista, Bianca. Não consigo acreditar que você não faça pratos incríveis até de olhos fechados.

Sinto minhas bochechas esquentarem. O jeito como ela me descreve faz meu coração acelerar. Não tinha percebido o quanto ela me observava.

E confesso: gosto de ser elogiada.

Ainda mais por ela.

Penso rápido. Cozinhar ao seu lado foi diferente. Leve. Sem pressão. Sem a obrigação de acertar tudo. Sem Jessy no meu cangote torcendo contra. Foi... natural.

— Talvez hoje eu tenha tido uma boa inspiração — respondo, sincera.

Ela sorri, e percebo que gosto mais desse sorriso do que deveria.

— Mas ainda preciso reencontrar meu equilíbrio e voltar a criar menus interessantes. Estou ensaiando alguns pratos, mas ainda está longe do ideal.

Ela me observa com atenção, curiosa e acolhedora ao mesmo tempo. Então segura minha mão sobre a mesa. O simples toque faz meu corpo arrepiar.

— Eu te entendo... — diz com suavidade. — Tudo tem seu tempo. Às vezes a gente precisa da tempestade para conseguir aproveitar o arco-íris, não é? Você e Dan são os dois melhores cozinheiros que eu conheço...

Ela faz uma pausa.

— Ok, vocês são os únicos que eu conheço — completa, brincalhona. — Mas, pra mim, já são os melhores. Tenho certeza de que você ainda vai surpreender muita gente. Só se dê a chance de cozinhar do jeito que gosta. Sem pressão. Só você e a sua cozinha. Vai ser brilhante!

Ela solta minha mão e acrescenta, sorrindo:

— E se precisar de ajuda, estarei sempre disponível para provar todos os pratos. Faço esse sacrifício pelo time!

Dou risada.

— Vou cobrar essa ajuda!

— Estarei à disposição. Inclusive... — ela hesita. — Acho que vou aceitar o quarto.

Levanto o olhar imediatamente.

— Ele está para alugar, certo? — continua. — Você está procurando uma colega de apartamento?

— Sim... — respondo, com a boca cheia de macarrão.

— Então... eu poderia ficar com você. Alugar o quarto, dividir as contas. Seria bom pra mim, até conseguir comprar meu próprio apartamento. Mas só se você quiser, claro.

Não penso nem por um segundo.

— Seria maravilhoso! — digo, animada. — Resolveria vários problemas meus. E ainda não colocaria um estranho dentro de casa. — sorrio. — Pode avisar o senhor Daniel que você foi roubada por mim.

Ela ri.

— Com todo prazer... vou avisar.

E mal sabia ela que o prazer era todo meu.

Pimenta & amorOnde histórias criam vida. Descubra agora