Capítulo 15

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É meu primeiro dia de trabalho e a correria já começou.

A nova rotina não é difícil, mas envolve muitas informações novas  e principalmente, uma avalanche de burocracias. Quando me dou conta boa parte da manhã já passou e sou obrigada a acelerar o passo, para conseguir ver todos os pacientes dentro do período estipulado.

Sou o tipo de médica que gosta de passar leito por leito, avaliando cada paciente com calma. Só depois volto aos prontuários, revisando os casos com atenção e ajustando o que precisa ser otimizado no tratamento.

Mesmo com o dia apertado,  especialmente no que diz respeito ao tempo, faço questão de manter essa rotina. Não abro mão dela.

Quando finalmente consigo parar, olho para o relógio do celular e me surpreendo.

Madrugada.

Pisquei... e já são duas da manhã.

Meu estômago ronca, lembrando-me de algo essencial: preciso comer.

Sigo até o conforto médico. É um espaço reservado para o plantonista, simples, mas funcional. Há uma cama, um banheiro pequeno com chuveiro, uma mesa que serve tanto para refeições quanto para usar o notebook, um micro-ondas e uma cafeteira, dispostos lado a lado sobre uma bancada menor. De frente para a cama, uma televisão de tela plana completa o ambiente.

Sento-me à mesa, pego a marmita do jantar e coloco no micro-ondas. O hospital fornece a refeição, embora tenhamos a opção de pedir algo de fora quando a vontade aparece.

Enquanto a comida esquenta, pego o celular.

Duas mensagens me encaram na tela.

Por Deus... o que você quer?
Que eu implore perdão de joelhos?
Você sabe que eu não podia — e não posso — contar a verdade.
Eu não tenho a sua coragem...
Mas preciso de você.
Já faz seis anos, Rafaela.
Eu preciso falar com você.

Meu coração aperta.

Apago o SMS imediatamente e bloqueio o número mais uma vez. Respiro fundo, tentando recuperar o controle.

Lisa tem o dom de mexer comigo, de puxar fios antigos que eu luto tanto para cortar. Mas essa história já teve seu ponto final.

Depois de tudo, não existe amor que sobreviva.

Me surpreende perceber que um dia me apaixonei por ela. Sempre precisei admirar alguém para sentir algo a mais... e agora, olhando de fora, fica claro: ela criou um personagem. Um papel bem ensaiado, feito sob medida para me encantar.

Fui apenas um fantoche em um amor de teatrinho.

Bloqueio a tela e, antes que o peso volte, uma nova notificação surge. A segunda mensagem me arranca um sorriso involuntário.

É uma foto da Bia "enforcando" o Dan no restaurante. Ele faz uma careta dramática, enquanto ela exibe uma expressão zangada. Ao fundo, panelas fumegam.

Na legenda:
"Eu disse que assim que o visse iria matá-lo. Diga adeus ao seu amigo."

2h11
Tenha piedade do homem. Não pode culpá-lo por ser um amante em potencial! Mas, se for matá-lo, ajudo a esconder o corpo ☹️

2h12
E com muita tristeza no coração, jogarei suas cinzas no mar...

Dou uma risada baixa.

Logo em seguida, chega um áudio de Dan — enviado pelo aplicativo da Bianca.

— Menos de duas semanas aqui e você já trocou de lado? Não acredito que fui trocado por um par de olhos bonitos e uma bunda grande!

Respondo em áudio, ainda rindo.

— E um sorriso doce! Não pode me culpar. Além disso, você já me trocou por muito menos... e eu ainda te amo!

Uma chuva de emojis zangados invade o chat, e eu rio mais uma vez. Ignoro o celular e volto minha atenção para a comida.

Tiro a marmita do micro-ondas e dou uma garfada generosa no arroz com feijão e carne picadinha.

Arrependimento imediato.

— Meu Deus... que horror.

O gosto lembra sola de sapato mofada.

Cuspo a comida de volta na marmita e pego a garrafa de água que, felizmente, lembrei de trazer. Bebo quase metade de uma vez, tentando apagar o sabor horrível da boca.

Que saudade da comida da Bianca... Devia ter trazido uma marmitinha. Me jogo na cama, decidida a descansar por alguns minutos. Assim que fecho os olhos, a imagem dela surge na minha mente.

Bianca cozinhando.

É impossível não achar lindo o jeito como ela se move na cozinha. Delicada, atenta... como se cozinhar fosse uma dança que conhece há anos. As bochechas levemente coradas pelo calor, os olhos castanhos sempre atentos e brilhantes.

E o sorriso.

O sorriso que surge quando ela percebe que atingiu exatamente o sabor que buscava.

Ah... aquele sorriso.

Suspiro só de lembrar.

Me pergunto se morar com ela é mesmo uma boa ideia. Não posso negar: acho Bianca extremamente linda. E pelo visto, tudo nela consegue me fascinar.

Ainda assim, sei que preciso ter cuidado. Ela é muito próxima do Dan, que é como um irmão para mim. Jamais gostaria de estragar essa amizade ou criar um clima estranho entre nós três.

Além disso... depois de tudo o que passei, não sei se sou alguém capaz de fazer outra pessoa feliz. Já me questionei inúmeras vezes se ainda existe espaço para amor na minha vida.

Talvez o melhor caminho seja aceitar o óbvio: Bianca é uma mulher atraente, inteligente, o tipo que mexe com meu coração.

Mas nada além de amizade pode ou deve  acontecer.  É o caminho mais seguro.

Programo o despertador para dali a uma hora. Me ajeito na cama e deixo o cansaço me vencer. E quando o silêncio finalmente toma conta da minha mente, poderia jurar que sinto o cheiro dela.

Um perfume delicado, refrescante...

Jasmim.

Pimenta & amorOnde histórias criam vida. Descubra agora