Capítulo 12

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Quando abri os olhos, senti o arrependimento da noite anterior bater com força.

Literalmente!

Uma dor de cabeça infernal me acertou em cheio, fazendo tudo latejar. Me obriguei a levantar, mas o gosto de sola de sapato na boca me fez correr direto para o banheiro, onde acabei vomitando.

Onde eu estava com a cabeça quando decidi que seria uma boa ideia misturar vários vinhos?

Eu, com meus 27 anos, já não tenho mais idade pra isso!

Me encaro no espelho e encontro um reflexo degradante: cabelos bagunçados, olheiras profundas, a pele pálida. Faço uma careta, consciente de que pareço alguém que foi atropelada por um caminhão.

Respiro fundo, lavo o rosto e prendo o cabelo em um coque frouxo.A ressaca me pegou com força.

Tudo o que eu quero agora é um cházinho, um remédio e cama. De preferência, torcendo para estar melhor até a noite, já que preciso trabalhar.

Caminho pelo corredor em direção à cozinha, mas meu coração aperta quando chego à sala e vejo o estado do apartamento.

Garrafas espalhadas, copos por todos os lados, restos de comida.
Isso aqui virou um chiqueiro.

Sinto meu toque por organização gritando alto. Sei que não vou conseguir descansar enquanto não deixar tudo em ordem.

Dan me paga!

Desvio de um copo e sigo em direção à cozinha quando percebo que não estou sozinha. Me aproximo do sofá com cuidado… e a vejo.

Meu coração até se acalma ao perceber que é ela  e não um desconhecido dormindo ali.

Encolhida como uma criança, com um semblante tranquilo. Os cabelos espalhados pela almofada. Rafaela consegue ser uma graça até dormindo.

As lembranças da noite anterior vêm em flashes: o álcool, o quase beijo… ela me colocando para dormir como se eu fosse uma criança.

Será que ela iria mesmo me dar banho?

A dúvida surge e me faz refletir, por alguns segundos, sobre quantas oportunidades eu deixo passar por pura timidez.

Decido deixá-la dormindo. Vou até o quarto, pego uma coberta e  coloco sobre ela. Ainda é cedo,  são sete da manhã. Ela pode descansar mais um pouco.

Desisto do chá. Agora, o que eu preciso é de um café bem amargo. Só assim vou ter forças para encarar essa casa.

Pego o moedor e coloco alguns grãos frescos. Amo fazer café moído na hora, é quase uma terapia. Sem contar o sabor… incomparável!

Estou concentrada passando o café quando sinto um par de olhos cor de mel sobre mim.

Levanto o olhar e a encontro ali, com o cabelo preso em um coque frouxo e um sorriso tranquilo. Rafa, diferente de mim, não parece ter ressaca alguma.

O que é impressionante, considerando o quanto ela bebeu.
Mesmo assim, está linda.

— Acordou? — digo, ainda concentrada no café. — Eu ia deixar você dormir mais um pouco.
Ela aponta para a cafeteira.

— O cheiro desse café me despertou. Você sabe que médicos são apaixonados por café, né? Eu acordaria de um coma por um cafezinho!

Solta a frase de um jeito tão natural que me faz rir.
— Então senta e prova o meu café. 

Ela se senta. Coloco uma xícara à sua frente. Rafa dá um gole generoso, fecha os olhos por um instante e inspira o aroma forte.

— Isso aqui… — aponta para a xícara — é maravilhoso. Agora você está perdida. Vai ter que me ensinar a fazer um café igual ao seu.

— Conte comigo, então.
Ela bebe mais um gole, olha ao redor e faz uma careta.
— Meu Deus… seu apartamento está um caco.

— Nem me fale. Meu toque está gritando para arrumar tudo. Isso aqui está parecendo um chiqueiro.

Ela me observa em silêncio por alguns segundos. Tenho certeza de que algo passa pela sua cabeça, porque um sorriso tímido surge, revelando uma covinha discreta entre as bochechas.

— Eu te ajudo. Só trabalho à noite mesmo. Até lá, a gente deixa isso aqui um brinco.

Pego minha própria xícara de café e me apoio em uma perna só, dobrando a outra, um hábito antigo quando estou pensando.

— Não precisa — digo, dando um gole. — Você tem suas coisas pra fazer. Isso aqui vai dar trabalho.

— Não precisa… mas eu vou! — Responde, enchendo a xícara novamente com o café do meu bule vermelho. — Juntas terminamos mais rápido. Vou ver se consigo recrutar o senhor Daniel também. Bem, mais da metade dessa bagunça é culpa dele.Ela ri. Eu concordo na hora.

— “Só umas pessoas”… — completo, imitando Dan.

— Seu erro foi acreditar nessa história. O golpe estava bem na sua cara.

Ela me encara, e imediatamente caímos na risada. Nós duas sabemos muito bem a fama de Dan quando o assunto é festa.

Pimenta & amorOnde histórias criam vida. Descubra agora