Capítulo 32: Histórias de videntes

20 3 0
                                    

Jetro e Zahir nos conduziram à sala da diretoria. Enquanto nos conduzia, ele explicava animadamente que aquele orfanato havia sido fundado por seu pai, melhorado por ele mesmo, e após seu falecimento, seria posse de Zahir.

— Conheci a Cassandra e o falecido Mako quando nossos irmãos de Torinco foram exilados. Na época, eu e meu pai fomos braços da Ordem para ajudar os exilados a se estabelecerem. — Jetro contava, enquanto se sentava na cadeira atrás da grande mesa de mogno. Eu, Cassandra e Zahir nos sentamos em três cadeiras na frente de sua mesa. — A maioria dos exilados vieram para Ésefo. Isso não deixou o conselho de Torinco feliz, mas para onde mais iriam? Você com certeza sabe que além de Torinco, Ésefo e Laocideia, as cordilheiras colocam uma barreira entre nós e o mundo. — Eu assenti. — Por mais que saibam que existimos, eles não moveriam um dedo para nos ajudar. Foi pensando nisso que Ésefo sempre se esforçou para manter a paz com Torinco, independente de quaisquer atritos.

— Éramos três cidades, agora somos só duas, e antes éramos apenas um reino. Por mais que alguns cogitem guerra, isso só nos destruiria por dentro, e nos faria mais vulneráveis ao Abismo. — Cassandra completou, meu olhar se atraiu para sua expressão séria, seus braços estavam cruzados.

— Cassandra e Mako nos ajudaram muito nessa época. E foi numa dessas ocasiões, enquanto distribuíamos comida para alguns exilados recém chegados, que a Cassandra me deu uma profecia: o Oleiro me permitiria realizar um sonho do qual eu já havia desistido, que era me casar e ter filhos. — Ele riu levemente. — Todas as minhas tentativas de noivar haviam dado errado. Diferente de Torinco, aqui em Ésefo os casamentos não são mais arranjados há mais de 100 anos, e para nós que somos da Ordem, pode ser ainda mais complicado se casar. Porém, naquele momento, Cassandra me falou o que o Oleiro havia lhe contado sobre mim: que eu encontraria uma boa mulher para me casar e teria um filho. — Ele olhou para Zahir. Eu segui seu olhar, Zahir esboçou um breve riso anasalado, e o olhar desinteressado de quem já havia ouvido aquela mesma história muitas vezes. — Naquela época, eu tinha trinta anos. Dezessete anos depois, eu conheci Betsaba, a mulher que chamo até hoje de minha esposa. E eu confesso que conforme eu me apaixonava por ela, me preocupou o fato de que ela já tinha quarenta anos, e talvez não pudesse mais me dar um filho. Apesar disso, o Oleiro me confirmou que a promessa feita à mim seria cumprida, e seria com ela. — Jetro suspirou profundamente. — Dito e feito. Aos cinquenta e cinco anos, contra todas as expectativas, Betsaba e eu tivemos o Zahir. Esse garoto mal fala, mas certamente tem muita história.

Zahir riu com o nariz.

— Histórias que tenho certeza que o senhor quer muito contar, não é? — Indagou, sarcástico.

Jetro esboçou um largo sorriso.

— Acredita que esse garoto foi chamado pra vidente com dez anos de idade, e já sabe usar campos de força desde essa época? — Indagou, com um brilho notável em seu olhar. — O Oleiro sabe o quanto meditamos em petição para esse garoto vir ao mundo, e ele deu muito mais do que pedimos.

— Percebo isso. — Cassandra olhou para o garoto com um semblante satisfeito. — Parece realmente um garoto promissor. Trate de não deixar de obedecer seus pais e se dedicar à sua vocação.

Zahir assentiu com um mínimo sorriso.

— Eu espero nunca decepcionar vocês. — Respondeu.

Eu sorri minimamente, e não pude evitar olhar para Zahir e dizer:

— Você tem sorte de ter sido tão desejado e admirado pelos seus pais, e de ter eles do seu lado em tudo. — Comentei. Zahir arqueou ambas as sobrancelhas. — Aproveite isso. É uma bênção.

A sala ficou silenciosa por um instante. Meu olhar saiu de Zahir, foi de Jetro à Cassandra. Seus olhares eram de certa forma surpresos. Eu engoli em seco. Será que disse algo errado?

Herdeira de Sangue e Fogo [COMPLETO]Onde histórias criam vida. Descubra agora