Orfanato Wood

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Harry estava cansado. A tensão do Torneio Tribruxo, as intermináveis conversas sobre dragões entre Hermione e Ron, e o peso das revelações que ainda pairavam em sua mente o estavam consumindo. Ele precisava de um descanso, então, ao invés de se juntar aos amigos para o almoço, decidiu se refugiar no dormitório e tirar uma soneca. Deitado na cama, seus olhos se fecharam lentamente, a exaustão o dominando.

Mas, como sempre acontecia nos últimos dias, o sono de Harry foi interrompido por um sonho — ou talvez fosse mais do que isso. Ele se viu em um lugar sombrio e frio, distante, com paredes de tijolos brutos e uma atmosfera carregada de solidão. Não era Hogwarts, mas tinha uma sensação de confinamento. O ar estava pesado, e a cada respiração parecia mais difícil.

Harry olhou ao redor, percebendo que estava diante de um orfanato. A fachada era imponente e velha, com uma grande porta de madeira desgastada e janelas pequenas que não deixavam muita luz entrar. O nome do orfanato estava gravado em uma placa de metal enferrujada na entrada: Orfanato Wood.

Sem entender o motivo de estar ali, Harry avançou, o coração batendo mais rápido, como se algo o estivesse chamando. Ele caminhou pela entrada, que rangeu ao ser empurrada, e logo se viu dentro do grande corredor do orfanato. O lugar estava em silêncio, exceto pelo som distante de passos rápidos e risadas abafadas.

De repente, ele ouviu vozes de crianças vindo de uma das salas. Harry se aproximou, curioso, e espiou pela janela de uma das portas. Dentro, uma cena desconcertante o aguardava.

Ali, no meio de várias crianças, estava um garoto. Ele parecia ter a mesma idade de Tom, mas era mais magro, mais pálido. Seu cabelo negro e bagunçado caía sobre seus ombros, e sua pele estava marcada por cortes e arranhões, como se tivesse sido negligenciado ou maltratado. Era, sem dúvida, o jovem Tom Riddle. Mas o que mais chamou a atenção de Harry não foi sua aparência, mas a maneira como as outras crianças o tratavam.

— Olhem só, a aberração está aqui de novo. — Uma criança riu alto, apontando para Tom, enquanto outras crianças se juntavam em volta dele, zombando.

Harry se sentiu um aperto no peito. O que ele estava vendo era uma versão de Tom que ele nunca poderia ter imaginado — uma criança vulnerável, assustada, e, o pior de tudo, sendo humilhada e maltratada por outras crianças. Tom estava de pé, os ombros tensos e os olhos baixos, tentando evitar os olhares cruéis. Ele não reagia, mas seu rosto mostrava uma expressão de dor contida.

— Olha só, o pequeno monstro. Não vale a pena. — Outra criança, mais velha, empurrou Tom, fazendo-o cair no chão de pedras.

O som de risadas preencheu o ambiente, mas Tom permaneceu em silêncio, sem chorar, sem gritar. Ele parecia mais ferido pela indiferença do que pela dor física.

Harry não sabia o que fazer. Sentia-se impotente, como se estivesse preso dentro daquele sonho, incapaz de mudar o que acontecia diante de seus olhos. Ele olhou para Tom mais uma vez. O olhar de Tom estava vazio, mas havia algo ali — algo mais profundo, como se ele tivesse aprendido a não confiar em ninguém, como se tivesse sido forçado a se tornar a pessoa que se veria no futuro.

Então, uma figura apareceu, quebrando o ciclo de bullying. A mulher que entrou na sala parecia ser a responsável pelo orfanato. Ela tinha uma expressão severa, seus cabelos escuros eram presos em um coque apertado. Seu olhar não era de carinho, mas de uma frieza calculada. Ela se aproximou de Tom, que rapidamente se levantou do chão, tentando esconder qualquer fraqueza.

— O que você fez dessa vez, Tom? — Ela perguntou com uma voz dura, sem empatia.

— Nada. — Tom respondeu, a voz baixa, mas firme. — Eles me provocaram.

A mulher olhou para as outras crianças, e Harry viu o desprezo em seus olhos. Em vez de punir as crianças que haviam atacado Tom, ela as dispensou com um gesto indiferente e voltou sua atenção para o garoto.

— Você deveria saber como se defender, Tom. — Ela disse de forma fria. — Não pode esperar que alguém tenha piedade de você.

Tom não respondeu, mas seus olhos escuros brilharam por um momento com algo que Harry não conseguiu identificar — raiva, tristeza, ou talvez uma mistura de ambas.

Antes que Harry pudesse entender mais, o ambiente ao seu redor começou a se distorcer. A sala escureceu, e as vozes das crianças desapareceram, dando lugar a um silêncio ensurdecedor. Tom e a mulher sumiram, e Harry se viu mais uma vez sozinho, cercado pela escuridão.

Ele acordou com um sobressalto, seu corpo suado e o coração acelerado. A visão do orfanato e das crianças zombando de Tom ainda estava clara em sua mente. Ele ficou ali por alguns segundos, tentando processar o que acabara de testemunhar. Aquela visão de Tom, criança, sozinha e rejeitada, mexeu profundamente com ele. Harry se perguntou o que teria acontecido se alguém tivesse estendido a mão a Tom naquela época. Mas, ao mesmo tempo, ele não conseguia afastar a sensação de que algo dentro de Tom estava quebrado de uma forma que nunca poderia ser reparada.

O que Harry não sabia era que esse sonho, esse vislumbre do passado de Tom Riddle, mudaria sua perspectiva sobre o próprio homem com quem estava tão conectado, de maneiras que ele ainda não compreendia. Harry fechou os olhos e, como se fosse um reflexo imediato, a imagem de Tom invadiu sua mente. Ele não pôde evitar a sensação de que algo profundo se movia dentro dele, como uma corrente elétrica percorrendo sua espinha. Tom estava ali, mais vívido do que nunca, seus olhos azuis safira brilhando com uma intensidade que Harry ainda não conseguia entender completamente. Aqueles olhos, como lagos profundos e misteriosos, pareciam carregar segredos antigos, misturados com uma dor que Harry sabia que era sua — mas ele não conseguia nomeá-la.

O rosto de Tom era delicado, quase etéreo, com traços finos e marcantes. Seus cabelos escuros caíam suavemente sobre a testa, dando-lhe uma aparência ainda mais jovem e vulnerável. A pele, pálida e macia como porcelana, refletia a luz com uma suavidade quase sobrenatural, e, por um momento, Harry imaginou como seria tocá-la. Um arrepio percorreu seu corpo ao pensar nisso.

Os lábios de Tom eram cheios e sensuais, com um tom rosado natural que, à primeira vista, poderia parecer suave e até inocente. Mas havia algo na maneira como seus lábios se curvavam — uma leve ironia, uma intenção oculta que Harry não sabia se queria desvendar. Talvez fosse o contraste entre sua aparência angelical e o que ele sabia sobre o homem que Tom se tornara.

Harry não sabia exatamente o que o fazia se sentir assim. Ele sempre soubera que havia algo de especial em Tom, mas nunca imaginara que a atração que sentia fosse tão intensa, tão… visceral. Ele era lindo, sem dúvida, mas não era apenas isso. Tom possuía uma beleza inquietante, uma perfeição que parecia desafiadora, como se fosse destinada a seduzir e destruir ao mesmo tempo. Harry não conseguia afastar o pensamento de que aquilo era mais do que apenas uma aparência — era como se o próprio Tom emanasse algo muito mais profundo e perigoso do que qualquer um poderia perceber.

Ele se viu quase perdido naquela visão de Tom, que parecia agora mais do que nunca, a personificação de algo maior, mais complexo e… encantador. O jovem Riddle, com sua expressão serena e de beleza angelical, agora contrastava tão fortemente com a monstruosidade que o mundo conhecia, mas o que Harry via não era um monstro. Ele via um homem — um homem que o atraía com uma intensidade que não podia ignorar.

O rosto de Tom estava gravado em sua mente, seus olhos azuis safira ainda cintilando em sua imaginação. Harry sabia que, a partir daquele momento, ele não poderia mais olhar para Tom da mesma maneira. Ele estava preso — talvez mais do que nunca.

Herdeiro das trevas Histórias para pegar e não largar. Descubra agora