Tom estava sentado em seu vasto escritório, a única luz vindo de uma vela trêmula sobre a mesa de carvalho escura. Seus olhos estavam fixos em um ponto distante, como se procurassem algo que não estava ali. O silêncio ao seu redor era absoluto, quebrado apenas pelo som ocasional de um vento frio que passava por uma das janelas fechadas. Ele estava completamente imerso em seus próprios pensamentos, mas sua mente, como sempre, estava distante, profunda e isolada.
Ele sabia que havia deixado de ser humano há muitos anos. Quando olhava para trás, para o jovem Tom Riddle que ainda se via como um homem com algum tipo de objetivo ou emoção genuína, ele mal conseguia reconhecer a si mesmo. Os anos de busca pelo poder, pela imortalidade, e pela conquista de um domínio absoluto sobre os outros haviam transformado sua essência de tal forma que a humanidade, com seus sentimentos conflitantes e frágeis, parecia algo irrelevante, distante, quase como uma relíquia de uma vida que ele havia deixado para trás.
A piedade, a culpa — esses sentimentos nunca haviam sido seus. Ele os descartara logo no início de sua jornada, vendo-os como fraquezas que só serviam para limitar as ações de um ser que buscava controle absoluto. Sentir pena de outros ou ser arrastado pela responsabilidade emocional não era algo que ele pudesse tolerar. A crueldade e a manipulação se tornaram suas ferramentas, e ele se orgulhava disso. Sentir-se culpado ou envergonhado? Uma fantasia para aqueles que não compreendiam que o verdadeiro poder estava em deixar esses sentimentos para trás.
No entanto, havia algo que ele não podia controlar — a tristeza. Não a tristeza profunda e dilacerante que ele via nos outros, mas uma sensação que às vezes surgia nas sombras de sua mente. Não era uma tristeza como os outros a conheciam, mas sim uma melancolia seca, vazia, que o tomava como um eco distante de algo que ele já soubera ser verdadeiro, mas que agora não mais existia em seu ser. Ele podia sentir isso agora, no fundo de sua alma, uma tristeza abafada pelo ressentimento e pela raiva.
Raiva.
Foi isso que as palavras de Harry haviam despertado dentro dele. Ele não sabia ao certo o que o havia levado a responder tão friamente, a se afastar tão abruptamente. A provocação de Harry havia atingido um ponto sensível, um lugar dentro dele que ele tentava não explorar. As palavras de Harry, seu julgamento sobre o isolamento de Tom, sobre a falta de humanidade em seu coração, atingiram-no de uma maneira que ele não poderia prever. A raiva que sentiu não era por ser atacado, mas pela verdade que havia em suas palavras. Tom sempre se orgulhou de sua independência, de sua habilidade em se manter distante de todos e tudo, mas o que Harry disse mexeu com ele de uma maneira sutil e perturbadora.
— Você não sabe lidar com sentimentos —, Harry pensara e falara em sua mente, como uma acusação. Tom sentiu a intensidade dessas palavras como uma lâmina afiada.
Ele não queria reconhecer isso, mas a verdade estava lá, visível como uma cicatriz antiga que ele tentava esconder. Ele não sabia lidar com sentimentos. Não porque não fosse capaz de sentir, mas porque, ao longo dos anos, ele aprendera a reprimir tudo o que fosse vulnerável. A dor, a perda, o amor — todas essas coisas haviam sido varridas para longe, escondidas sob camadas de frieza e controle.
Mas, ao ouvir as palavras de Harry, ao se ver desprotegido diante do que ele sabia ser a verdade, a raiva surgiu como uma chama implacável. Não era apenas raiva de Harry, mas raiva de si mesmo. Raiva por não ser capaz de se conectar, de não ser capaz de admitir que talvez houvesse algo que ele ainda desejasse — algo humano, algo que Harry possivelmente representava para ele. A raiva crescia, misturada com um ressentimento que tomava conta de sua mente.
E, em meio à raiva, havia a mágoa. Uma mágoa que ele não conseguia definir, não podia nomear, mas que estava presente, como uma dor oculta. Ele sempre se viu como alguém além das fraquezas humanas, mas, ao ser confrontado com o olhar de Harry, com a acusação de que ele nunca soubera como lidar com os sentimentos, ele sentiu algo se partir dentro de si. Não era uma dor profunda, mas era uma dor que ele não estava acostumado a enfrentar. Era uma sensação de perda, de algo que poderia ter sido, mas que foi perdido há muito tempo.
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Herdeiro das trevas
FanfictionQuando Harry Potter descobre que é a alma gêmea de Tom Riddle, segredos sombrios e traições vêm à tona. Unidos por um vínculo inesperado, eles planejam derrubar Dumbledore, expor mentiras do passado e reivindicar o poder que lhes foi negado. Entre d...
