Chance Remota

46 3 2
                                        

Robert Lewandowski

De repente a noite parece ter congelado... Com os braços cruzados, me aproximo da janela, encarando a paisagem embaçada e fria do lado de fora. O céu estava denso, nublado e acinzentando; indiferente de meu semblante.

Estático, escuto o som constante das águas baterem contra a janela... A vista não havia muito o que oferecer além das formas borradas no horizonte e luzes distorcidas pelo véu da água, nada de especial, nada de importante.

Marco... Só queria ter a certeza de que ele ficará bem, por que isso teve que acontecer?

Meus olhos são atraídos para um cometa que surge em meio ao céu escuro; rasgando a escuridão com um lampejo intenso, iluminando brevemente o horizonte.

O rastro luminoso cortou as nuvens como uma lâmina afiada, uma faixa azul esvanecendo no céu tão rápido quanto surgiu... Senti a fraca iluminação se refletir em meu rosto através do vidro gelado da janela.

Escuto uma porta atrás de mim se abrir e escutar a voz do médico.

— Senhor Robert, poderia me acompanhar para que possa examiná-lo?

Após me virar, vejo que ele ergue uma pequena caneta médica, preparada para examinar meus olhos com aquela luz amarela incômoda. Afasto o rosto, me afastando um passo.

— Não estou aqui para ser examinado, doutor. — Murmuro. — Como está Marco?

O médico fez uma pausa, respirando fundo como se estivesse escolhendo as palavras com extremo cautela.

— Ele está respondendo aos medicamentos e tratamentos, o procedimento está sendo delicado, ainda não está no nível que gostaríamos... Sofreu muitas fraturas nas costelas e hematomas espalhados pelo corpo, felizmente não foi encontrada nenhuma hemorragia interna grave.

A informação pesa em meus ombros, é amarga e sem certezas.

— Quanto aos sinais vitais dele, irá sobreviver? Eu preciso dele vivo, doutor.

O médico hesitou, escolhendo as palavras com cuidado antes de pronunciá-las.

— Ainda penso que é cedo para dar essa informação, senhor... A situação dele é crítica, mas tenha certeza de que estamos fazendo o melhor para salvá-lo.

— Sim, sim, eu sei... — Murmuro mais para mim mesmo do que para o médico. — Tenho que vê-lo agora. — Antes que eu tenha a chance de adentrar a sala médica, o médico me segura pelo antebraço.

— Por favor, senhor Lewandowski, ele ainda não está pronto para receber visitas. Se entrar agora corre a chance de contaminá-lo e consequentemente levá-lo a óbito, Marco está desacordado e com o sistema imunológico frágil.

Assinto com a cabeça, apesar do gosto amargo em meus lábios... Diante de meus próprios olhos vejo o médico adentrar a sala médica estéril e fechar a porta em seguida.

Fecho os punhos, irritado. Sentindo-me inquieto, busco refúgio no interior do meu carro, há um turbilhão me consumindo por dentro.

Tudo ao meu redor parece se dissolver em um vazio inexplicável; as memórias se embaralhando umas as outras e até mesmo a sensação de ter Marco em meus braços parece estar distante.

Com os membros tremendo, a tensão acumulada, em um surto de frustração, soco com força o volante. O som seco do impacto reverberando no interior fechado, seguido por um breve incômodo nos dedos. Isso tudo é inútil, não posso desistir dessa angústia.

Quando o carreguei nos braços, senti o quanto suas forças o estavam o abandonando, como areia fina do deserto escorrendo entre os dedos.

Milik ultrapassou a linha, não importa quem ele seja; se Marco morrer, eu mesmo o farei virar um exemplo de quem cruza a linha.

Leweus - Fica ComigoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora