Punishment

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Robert Lewandowski

Um turbilhão denso envolve a minha mente quando começo a despertar; as pálpebras pesadas recusam-se a abrir de imediato. A sensação é a de ter passado a noite inteira sendo arrastado por um solo árido, áspero o suficiente para rasgar até o espírito mais determinante.

Ao erguer o rosto e encarar o reflexo no espelho à minha frente, vejo a camisa meio desabotoada, caída nos ombros como se tivesse perdido a vontade de cobrir qualquer coisa, e os cabelos levemente bagunçados, denunciando o caos interno.

Preciso me reorientar, colocar cada pensamento de volta em seu devido lugar... mas não antes de encerrar um assunto específico.
Desço as escadas sentindo cada batida do coração ecoar na cabeça, a mente latejando em vertigem, as mãos trêmulas como se o corpo protestasse contra as decisões que o resto de mim já tomou. Não devo ter dormido por horas.
Matem-no, pensei, em algum momento da madrugada. Mas não.

Eu mesmo vou fazer isso. Com os pés agora firmes no chão frio, atravesso o corredor e adentro a câmara insólita, onde o ar parece mais denso. Com a seringa letal firme entre os dedos, aproximo-me de Milik, amarrado por cordas à cadeira, seus olhos presos em mim como se buscassem um último traço de hesitação que eu não posso mais permitir.

— E então, é isso o que eu ganho por ser seu amigo, Lewy? — Milik força um meio sorriso cínico; irritado ou ferido, talvez os dois.

— Não fui eu quem escolheu isso, Milik. — Minha voz sai mais fria do que eu esperava. — Agora não importa mais quem você é para mim, já é tarde. — Abro a garrafa de uísque com um estalo seco, levo-a aos lábios e sinto o ardor descer pela garganta antes de inclinar o vidro e derramar um pouco do líquido no rosto dele, obrigando-o a engolir o que escorre até a boca.
— Será mesmo? — ele ri baixo, rouco. — Quantas vezes já salvei a tua pele por bem menos que isso? Te conheço desde os onze anos, Lewy. Muita coisa se passou de lá para cá.

— Não tenho interesse na sua nostalgia, Arek. — Respondo entre dentes.

Agarrei o queixo dele com força, obrigando-o a erguer o olhar até encontrar o meu. — Mas isto... — Ergo a seringa à altura dos olhos dele, deixando que a luz fria da câmara brilhe no metal. — Será o brinde da nossa parceria.

— Quer fazer isso? Vá em frente, porra! Já devia ter passado pela minha cabeça que a minha vida valia menos que a bunda de um alemão.

— Chega dessa sua conversinha fiada. Sexo não é tudo. — Aproximo meu rosto do dele. — Só porque teus relacionamentos se resumiram a meter e ir embora, não significa que os meus tenham sido assim... Não faz ideia do quanto estragou tudo isso.

— Se é tão homem quanto gosta de parecer, vamos resolver isso à moda antiga.

Sem pensar direito, aceito sua provocação. Tiro as chaves das algemas do bolso e as lanço em sua direção. Ele quase deixa cair, os dedos dormentes agarrando o metal com dificuldade.

Permaneço imóvel, o olhar cravado nele, enquanto o observo inclinar os pulsos, lutando contra o peso das correntes até ouvir o primeiro clique se soltar. A segunda algema demora um pouco mais; Milik respira fundo, os dentes cerrados, até que o último trinco cede.

Ele se levanta devagar, os ombros tensos, massageando o pulso marcado, e por um instante nossos olhos se encontram:

— Já te venci várias vezes; tentei te ajudar, mas agora vou te ensinar o que é dor de verdade. — Ele assume uma postura agressiva, ombros projetados para frente, o maxilar travado. Cada passo é lento, pesado, calculado, como se estivesse saboreando a ameaça.

Sinto o ar ficar mais denso entre nós.

— Mais um passo — digo, a voz baixa, mas firme — e a sua vida estará arruinada.

Meus olhos não desgrudam dos dele, e por um instante, o silêncio pesa mais do que qualquer soco que venha depois.

Milik avança primeiro. O punho dele vem na altura do meu rosto, rápido demais para alguém que ficou tanto tempo amarrado. Consigo amortecê-lo brevemente com o punho direito; ainda assim; os nós dos dedos raspam meu maxilar e sinto o gosto metálico do sangue na boca.

Ele rebate com uma joelhada ardida na minha virilha, que me rouba o ar por um instante. Mas reajo rápido o bastante para afastá-lo com um chute no joelho.

Apoio a mão na parede, respirando fundo, enquanto ele tenta finalizar com outro golpe. A raiva dele o deixa previsível.

— É só isso? — Rosna, já avançando de novo.

Dessa vez, deixo que venha. Agarro o braço dele pela lateral, giro o corpo e uso o próprio impulso de Milik contra ele. O estalo das costas dele batendo no chão ecoa pela câmara. Ele geme, mas não fica lá por muito tempo — rola de lado, levanta-se meio cambaleante, irritado demais.

Com um soco rápido e certeiro no último instante em seu rosto, o desnorteio. Uso o embalo para empurrá-lo contra a mesa de metal. Ela arrasta alguns centímetros no chão, causando um ruído agudo. Ele tenta me atingir com a outra mão, mas encaixo um cruzado no queixo, depois outro, até sentir o corpo dele vacilar.

É agora.

Com a mão livre, pego a seringa que havia caído no chão no início da confusão. Milik ainda tenta me afastar, mas seu reflexo já está mais lento, a respiração pesada. Aproveito a brecha: empurro seu ombro contra a superfície de metal e, num movimento seco, enfio a agulha em seu pescoço. Ele arregala os olhos, surpreso.

Poucos segundos depois, suas forças o abandonam, os músculos relaxam, a respiração fica lenta, pesada. As mãos escorregam pelo meu rosto, as pernas cedem; o olhar perde reação.

Olho para a seringa vazia entre meus dedos e solto um suspiro que eu nem sabia que estava prendendo.

Minhas pernas fraquejam até me obrigarem a ceder, e acabo deslizando lentamente até o chão. Meus lábios sangrentos mancham meu rosto, escorrendo pelo queixo.

Minha mente ainda está em transe, sob efeito da adrenalina, e só então percebo Bartek parado à porta, tentando esconder a incredulidade no olhar, quase estático.

— O senhor... o matou? — ele pergunta, a voz baixa, como se tivesse medo da resposta.

— Não, ainda não. — Respiro fundo, sem energia para qualquer explicação longa. — Apenas o fiz apagar.

Sem que eu precise dizer mais nada, Bartek se aproxima e estende a mão. Eu a seguro, deixando que ele me ajude a me levantar.

Viro o rosto na direção de Milik, estendido no chão, entregue ao sono letárgico.

— Durma, Milik... — murmuro,mais para mim do que para ele. — A parte letal, eu ainda não decidi se vocêmerece, mas tenho algo ainda melhor em mente. 

Leweus - Fica ComigoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora