Exit Wound

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Marco Reus

Algo... Cobre meu olho esquerdo, não sou capaz de despertar bem. Boca seca, todos os sentidos nublados pelos anestesiantes e medicações pesadas introduzidas através de agulhas nos braços.

Minhas feridas coçam o tempo todo... Pela porta, de repente, adentra uma enfermeira para trocar o soro e fazer uma verificação do meu estado.

Nos últimos tempos tive alguns lapsos de memória, ainda estou muito irritado, mas por hora meu cérebro não está sóbrio das medicações e meus sentidos ausentes. Não esqueci que Robert é responsável por eu estar nesse hospital que se parece mais com uma prisão estéril.

Tento me revirar na cama, mas nisso acabo por receber uma bronca da enfermeira.

— Que tipo de culpa acha que tenho por tentar me mexer? A única coisa que vejo há semanas é essa parede porosa e desbotada e essa janela que mal dá para se ver o que há lá fora.

— Entendo a frustração, senhor Marco. Mas o protocolo é claro: não pode se mexer e correr o risco de piorar os ferimentos. Não me faça ter que trocar suas agulhas de novo, rapaz.

Suspiro frustrado, um gosto amargo tomando conta da minha boca. Não posso nem sequer cobrir meu rosto com a mão esquerda. Tanto tempo desperdiçado nesse quarto...

— Por favor... — Digo com esforço. — Há alguma previsão de alta?

— Terá que consultar com o doutor. Não tenho certeza, mas ele poderá vir ainda essa semana. — Mascla seu chiclete, não muito entusiasmada.

— Tenho uma boa notícia para o senhor. — Reviro minha cabeça no travesseiro para sua direção.

— Ou melhor duas... — Vira outra página do prontuário. — Tem duas visitas o aguardando na sala de espera. Dois estrangeiros vindos da Polônia, amigos seus?

Reviro o rosto em desgosto no travesseiro de tecido estéril.

Milik e Robert! Os desgraçados vieram rir de mim? Ou tentar me matar pela terceira vez?

Eu poderia dizer 'não', mas isso não mudaria nada do que eles fariam comigo, só espero que seja rápido.

Após ter sido sedado mais uma vez, a porta se abre, duas figuras masculinas aparecem em minha frente. Minha visão se torna gradativamente turva, mas luto para me manter acordado.

(...)

Fecho o cenho em resposta, visualizo primeiro as figuras embaçadas pela minha visão, após piscar uma, duas ou três vezes, não é Robert e nem Milik.

— Boa tarde, Marco Reus. Os médicos elogiaram a sua perspicácia na recuperação, a maioria na sua condição já teria ido de vala. — Interrompo.

— Sem gracinhas aqui, sei quem é o seu chefe!

Lacaios do polonês.

— Certo... Me chamo Zielinski, esse é Zalewski, já faz dois meses que o senhor Lewandowski nos designou para monitorar bem de perto seu estado, somos os melhores com a língua local... Não lembra que viemos aqui há três dias?

— Não, mas algum dos dois é médico? — Irritado, observo-o diretamente pelos olhos.

— Não, mas...

— Então deem o fora da aqui, não me servem para nada.

O mais jovem toma frente.

— Com licença, Marco, só respondemos ao Robert. A prioridade é garantir a sua integridade física. — Ou o que restou dela, imagino, não era para ele ser loiro, Zielinski?

— Deve ser algum efeito colateral de alguma medicação.

— De qualquer forma, se colaborar ficará mais fácil para todos nós.

— Curioso... — Dou uma risada seca, quase forçada. — Tentam me matar e depois vem como anjinhos, com muita educação, se importando com minha saúde; seu mestre contou que é por conta dele que estou nesse estado?

— Bom... O senhor Robert não possui o perfil de dar muitas explicações, mas temos ciência dos ocorridos.

— Cadê ele? Antes de vir a morrer neste quarto, quero falar com ele.

— Ele não está presente no momento. — Ergo uma sobrancelha em dúvida.

— Robert não está no país, ele quis dizer.

— Hunf, mas é claro... Pensei que ao menos restasse o mínimo de hombridade nele para vir pessoalmente ver meu estado. — Tenho assuntos inacabados com ele, avise-o para retornar imediatamente.

— Nós o representamos quando ele diz que sente muito pelo que aconteceu.

— Não dou a mínima se vocês pedem desculpa! Deveriam passar pelo inferno que vivenciei nas mãos dos médicos!

O polonês tenta digitar um número no telefono, mas o interrompo imediatamente.

— Nem pense nisso! Falarei apenas pessoalmente.

Se afasta levemente para o outro canto do quarto, o calmante introduzido na minha veia toma meus sentidos gradualmente... Meus batimentos despencam.

— Sabe por que seu mestre fugiu? E pelo visto não quer voltar tão cedo?

— Robert não fugiu, a aeronave está com defeito na asa. — Como se isso fosse algum impeditivo dado o dinheiro que ele possui. — Ele está numa campanha contra um inimigo local.

Arfo profundamente, minha visão gradualmente me deixando... Se o que esse polonês é verdade, por que Robert simplesmente não usa outro avião para voltar para o país?

Repentinamente, uma agulhada de dor me estremece vindo da minha costela... Não importa, ele nunca conseguiu ficar sem se meter em confusão por tempos!

Não quero nem ver como está o lado esquerdo de meu rosto... Os dois poloneses voltam a conversar entre si na língua estrangeira no sofá do quarto hospitalar – eu definho sozinho, não estou sarando em breve!

Robert Lewandowski

No antigo jardim, ainda sob o véu escuro da madrugada fria polonesa, me agacho até os joelhos diante de uma árvore, mas não é uma árvore qualquer.

No mesmo dia em que nasci, meu pai a plantou quando ainda era apenas uma muda frágil; desde então ela tem crescido comigo... Já faz tanto tempo... Movo minha mão até um de seus galhos, quebradiço.

— Está doente... — Resmungo.

Uma vez escutei de um sacerdote que o destino já nos foi escrito quando nascemos... Abro minha mão, observo a pequena foto 3x4 de Marco, já um pouco amassada e opaca.

Mas há tempos deixei de acreditar em destino. Fecho a mão e levanto-me enquanto o Sol nasce pelo horizonte em minhas costas. 

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