Cap. 30 - Retornando ao lar

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Subimos as escadas antes que os caçadores voltassem. Eu estava completamente desestruturada, e Kailani me ajudava a continuar. Lucas e Aukai se revezavam carregando o corpo de meu pai.

Cinza e estranho. Era assim que eu via o mundo no momento. Nada parecia fazer sentido, muito menos no meio daquela missão frustrada de resgate.

Ele ia me matar. Tenho certeza. Mas meu pai saiu de onde estava seguro e deu a vida por mim. Cuidando de mim mesmo nos últimos instantes de vida.

Com algum esforço e algumas pausas para combates, conseguimos sair da ilha. Voltamos para a unidade, e a primeira coisa que fiz ao chegar foi correr para o meu pequeno quarto e me trancar.

Não poderia ver o corpo de meu pai agora. Não aguentaria.

Sentei na cama e chorei. Chorei muito, abafando meus gritos e soluços com o travesseiro. Aos que já sentiram a dor de perder um pai ou uma mãe, sinto muito por ter sentido isso. Aos que não sentiram isso, orem para só sentirem bem tarde.

É uma sensação de completo vazio, como se sua vida perdesse o rumo. Deitei-me na cama, manchando-a de sangue. Só aí lembre de meus ferimentos. A dor da perda era tão grande que havia esquecido do braço rasgado ou do nariz deslocado.

Mesmo assim, meu cansaço pesou sobre meus olhos, me fazendo adormecer em meio a sangue e lágrimas.

[...]

*toc, toc, toc*

As batidas na porta me acordaram aos poucos, mas eu não queria abrir. Apesar de que ficar trancada aqui eternamente não me ajudaria em nada. Estava no fundo do poço, e precisava sair de lá.

Levantei devagar, sentindo minha cabeça latejar e meu rosto todo melecado. Eu devia estar com uma aparência terrível, mas não me importava.

Me dirigi até a porta e a abri, vendo Lucas segurando uma bandeja.

Nela, tinham um copo de suco, um sanduíche, um pequeno copo de água e um comprimido.

Dei espaço para ele entrar sem dizer uma palavra, e ele depositou a bandeja na mesa enquanto eu fechava a porta.

- O comprimido é para dor de cabeça, e o lanche é para você obter alguma energia. Achei que poderia precisar. - ele disse baixo, com a voz meio rouca.

- Obrigada. - agradeci, com um fiapo de voz.

Tomei o comprimido e sentei-me na cadeira. Beberiquei o suco e mordi o pão, mesmo sem vontade. As últimas palavras de meu pai flutuavam pela minha cabeça, me lembrando de que eu tinha que continuar lutando.

- Quando... Quando vamos voltar? - perguntei, me esforçando.

- Voltar? Você quer dizer, para o Refúgio?

- Sim.

- Ah... bem, estava pensando em voltar hoje ainda.

- Não é muito tarde?

- Nunca é tarde para Angie Stanford. - ele disse, conseguindo fazer com que eu esboçasse um sorriso mínimo.

- Verdade. Vou então pegar as minhas coisas e você avise para Kailani que partiremos hoje, tudo bem?

- Claro.

- Então vá! - eu disse, sorrindo pela primeira vez desde que ele se fora.

Ele esfregou meu ombro e deu um beijo em minha bochecha, e foi embora logo em seguida, me deixando sozinha com a bandeja e minha mochila.

Comi o pão e terminei o suco, mesmo sem vontade. Guardei o que restava na mala, e  coloquei nas costas. Não podia ficar desse jeito para sempre. A morte de meu pai era mais um motivo para acabar com eles de uma vez. Um motivo para aumentar minha determinação.

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