Capítulo 19

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                 Pov's Liz Gray

Entrei no meu quarto batendo a porta com força. Me encostei contra ela e respirei fundo. Estou tão brava. Tão magoada.Como ele pode falar essas coisas?

Por fora sinto vontade de quebrar alguma coisa, de preferência a cara do Harry, mas por dentro sinto que os pedacinhos da minha autoestima já partida se quebraram novamente em mais milhares de fragmentos irrecuperáveis.

Ele me diminuiu e jogou todas as minhas inseguranças na minha cara com uma frieza e com uma facilidade assustadora.Como ele consegue saber exatamente em qual ferida tocar? Será que é tão fácil assim deduzir o que me faz chorar? Será que sou assim tão vulnerável e a minha futilidade é tão clara?

Parte de mim queria ser corajosa o suficiente para voltar lá e dizer algo, mas estou tão brava que não consigo formular palavras na minha cabeça.

Me sentei na cama, já com algumas lágrima nos olhos, mas engoli o nó na minha garganta mais uma vez. Da minha boca só saíram soluços secos.
Eu não vou desmoronar mais uma vez. Não por causa disso.

Eu tenho sido uma boba. Afinal, eu sei que não sou bonita, muito menos comparada á Daisy, toda bonita, magra e...simples.

Quando estou perto dela sou completamente ofuscada, nem sequer existe comparação entre nós e eu aprendi a viver com isso, porque estavámos sempre juntas antes. Mas cada vez que alguém toca no assunto, sinto minha frágil autoestima se abalar mais um pouco.
A Daisy é como uma estrela cheia de vida e brilho, enquanto eu sou um pisca-pisca falho.

Me levanto e seco as lágrimas dos olhos com as costas da mão. Ando corajosamente até o espelho da porta do guarda-roupa da Beatrice e observo o meu reflexo no vidro.
Como em todas as vezes anteriores eu odeio o que vejo; as bochechas salientes, o nariz igual ao do meu pai, os lábios não tão carnudos nem rosados como eu gostaria que fossem, e as malditas sardas espalhadas por todo o meu rosto pálido, como respingos de tinta sobre papel.
O meu cabelo está uma bagunça como sempre, as várias camadas de cabelo descontrolado formando um arco em volta da minha cabeça. Eu gostaria mesmo que ele tivesse menos volume e mais estilo.

Corajosamente eu sai de casa sem maquiagem hoje, só pra me lembrar da sensação e não é como se alguém na escola fosse notar a mudança, mas agora eu sei que foi um erro.

Será que eu sou assim tão feia ou são só os meus olhos e o Harry diz essas coisas para me irritar?

Me afastei um pouco do espelho e observei meu corpo por inteiro; reta demais em um ângulo, cheinha demais em outro. Ergui um pouco a camiseta e observei a elevação na minha barriga, que eu odeio, também cheia de pequenas sardinhas claras.
Se meu rosto é decepcionante, o meu corpo é mais ainda.

Sem pensar joguei com brutalidade uma embalagem de batom no espelho. Não imaginei que fosse fazer algum estrago, mas o espelho trincou na área atingida.
Então foi aí que eu comecei a chorar de verdade. Um choro desesperado e infantil..
Minha irmã não vai gostar nada disso, vou ter que inventar qualquer desculpa depois.

De repente senti uma onda de cansaço tomar conta do meu corpo. Isso acontece sempre. Dormir é uma maneira de evitar que a minha cabeça fique remoendo assuntos desnecessários.Graças a Deus que eu ainda não tenho insônia ou estaria completamente perdida.

Ainda com lágrimas nos olhos eu troquei a roupa pelo pijama, retirei o sutiã e fiquei do jeito que eu gosto.
Muito confortável.
Me aconcheguei na cama ainda desfeita. Devia ser umas três horas da tarde e o sol estava claro lá fora, mas eu consegui cochilar mesmo assim, envolta por um edredon cor de rosa fino.
Acordei horas depois com Beatrice pairando sobre mim.

- O que você fez com o meu espelho? - ela perguntou séria quando eu abri os olhos assustada.
Minha visão ainda estava um pouco embaçada e eu demorei alguns instantes para me lembrar do porque eu estava na minha cama.

- Desculpa Bea, mirei a mochila no lugar errado. - menti e tentei sorrir para aliviar, mas não funcionou.

- Tem sorte que o seu guarda-roupa é pesado demais para trazê-lo pra cá. - ela diz ríspida, se afastando com as mãos na cintura.

Me sentei na cama e esfreguei os olhos, da janela eu podia ver a noite escura e com poucas estrelas, havia uma brisa refrescante passando pelas cortinas que quase me fez esquecer da minha garganta seca de sede.

- Que horas são? - perguntei, ainda um pouco desnorteada.

- Tá quase na hora do jantar. A mãe voltou mais tarde do trabalho hoje.

- Ah.

- Ei, você pode me ajudar com um trabalho de cálculos depois do jantar? - Beatrice perguntou, um pouco mais mansa dessa vez.

- Claro, mas também não sou muito boa em cálculos.

- Muito menos eu. - ela disse e eu ri.

Beatrice me obrigou á descer para jantar, ignorando todas as minhas tentativas de lhe dizer que eu não estava com fome. Na realidade, eu só acho que ainda é cedo demais para ter que olhar para a cara idiota do Harry.

Na cozinha, eu conversei um pouco com a minha mãe enquanto ela preparava frango com legumes.
Ela parou de falar bobagem sobre mim e o Harry, quando no meio da convera eu garanti a ela que não precisava se preocupar com isso, muito menos de agora em diante. Eu não quero mais falar com ele de qualquer forma.

Harry é sempre o último a descer e sempre se senta na cadeira á minha frente. Achei que fosse ser diferente por conta das circunstâncias, mas não foi.
Tentei manter a expressão neutra o tempo todo e não olhei para ele nenhuma vez durante todo o jantar.
Acho que ele fez o mesmo, e dessa vez eu realmente não me importei em ser ignorada. De vez em quando eu sentia que ele estava me encarando, mas não me esforcei para descobrir porquê.

Depois do jantar, eu e Beatrice lavanos a louça para a mamãe, que parecia muito cansada, e depois eu subi para o quarto para dar uma olhada no dever de casa da Bea. Não estava complicado, porque já aprendi isso há alguns anos.
Passei algum tempo com Beatrice, ajudando-a no dever e feliz por vê-la se esforçar com os estudos depois dos anos anteriores serem difíceis para ela na escola.

Beatrice é amiga de todo mundo e tem facilidade para se comunicar, mas ficou atrasada nos estudos porque tinha problemas para frequentar a escola nos primeiros anos.

No final das contas, não fui dormir me sentindo tão mal quanto achei que fosse. Estou acostumada com coisas assim acontecendo, o meu próprio cerébro gosta de me insultar ás vezes, acho que já não me afeta tanto.

Deitada, olhando para o teto, eu cheguei a conclusão de que realmente não compreeendo o Harry, e se eu pensei por um minuto que o conhecia ou que poderia conhecer eu estava errada. Mas de uma coisa eu tenho certeza; a idéia de sermos amigos é quase nula.

                                 *

Prisoners - h.sOnde histórias criam vida. Descubra agora