No domingo á noite, decidi que iria ignorar Daisy completamente. Não passaria por ela no corredor, sentaria longe dela nas aulas que temos juntas, almoçaria longe dela. Se ela fosse para um lado, eu iria para outro. Não porque eu estou brava, mas porque estou magoada.
Não sei se consigo olhar para ela e não pensar que ela me traiu ou algo assim, não consigo não sentir ressentimento.
A minha estratégia de sobrevivência sempre foi ignorar os meus problemas, não vejo porque seria diferente agora.
Na manhã seguinte já acordei sentindo aquela bola na minha barriga, e parece que ela cresceu alguns centímetros.
Essas manhãs são estranhas. É como se eu acordasse com um susto, e ficasse assustada pelo resto do dia.
Respirei fundo e consegui controlar um pouco a ansiedade. Me levantei, e fui tomar um banho.
Quando terminei, eu me olhei no espelho embaçado com vapor. Sim, ainda sou a mesma, absolutamente nada mudou, mas não tenho vontade alguma de me maquiar. Não consigo encontrar uma razão para isso.
Estava pensando sobre isso, não me lembro quando, mas estava pensando sobre como se maquiar, como tentar esconder cada manchinha no rosto é uma coisa estranha de se fazer. Afinal, todos nós as temos. Afinal, isso mudará o que acontecerá com todos nós no fim de nossas vidas?
Não faz mais sentido para mim.
Droga, talvez eu esteja mesmo começando a ficar louca.
Arrumei a sombrancelha, dei um tapinha nas bochechas, prendi o cabelo em um rabo de cavalo e estava acabado.
Bebi uma xícara de café e fui para a escola.
*
Eu não estava preocupada com Daisy, ela não me procuraria de qualquer jeito, ela nunca o faz.
E eu estava relaxada sobre esse assunto até a aula de Química, uma das únicas aulas que temos juntas. Desde a volta das aulas, ela se senta em um lado da sala com Natalie, e eu me sento no outro com Todd Parker. Na verdade, eu e Todd nos damos bem nas aulas, acho que ele é o mais próximo de amigo que tenho na escola.
O fato é que Daisy parece estar se esquecendo completamente de mim, mais a cada dia que passa. Não há mais cumprimentos, beijos na bochechas, convites para sair, ela nem me procura para pegar as respostas certas. Mas isso não faz diferença para mim, a presença oca dela na minha vida não muda nada.
Mas, por alguma razão nem tão improvável, ela veio até à minha mesa esta manhã.
- Oi. - ela disse com a sua voz doce.
Eu estava praticamente deitada no meu livro de Química, enquanto ouvia Todd bocejar e reclamar do seu irmão que não o deixava dormir á noite. Fiquei chocada quando ouvi sua voz. Ergui a cabeça:
- Oh, oi...
Daisy abriu um sorriso, daqueles que parecem bem sinceros, mesmo que sejam forçados. Daqueles que me irritam.
- Como você está?
- Hum... Bem e você?
- Muito bem.
- Que bom.
Ela fez silêncio por um momento e eu aproveitei para desviar o olhar para o quadro negro. Todd estava quieto como um figurante.
- Já ficou sabendo? - ela perguntou.
- Sabendo do quê?
- Harry não te contou? - Daisy cruzou os braços em frente ao peito, e encostou os joelhos na minha mesa - Achei que vocês eram mais próximos que isso.
- Não somos próximos. - minhas palavras soaram irritadas - Ele só ficou em casa por um tempo. Sequer somos primos de verdade.
- Nossa, calma! - Daisy também parecia irritada - Merda, Liz. Está cada vez mais difícil falar com você.
- Não estou pedindo para ninguém falar comigo. - resmunguei.
Ouvi Daisy respirar fundo, e achei que ela ia gritar comigo ou apenas dar meia volta até sua mesa, mas ela continuou ali em cima de mim.
- Pensei que podíamos fazer algo juntos. Vocês são primos e tudo. - ela disse calmamente.
- Não somos primos. E ser vela já deixou de ser legal há muito tempo.
- Você não precisa ser vela. - Daisy se abaixou, pôs os cotovelos na minha mesa, e olhou para mim, ou tentou. - Você sabe que posso te arranjar alguém.
- Não quero que "arranje" alguém para mim. - disse séria.
- Porquê não? Qual é, Liz! É só uma noite. Harry vai estar lá...
- Grande diferença. Já disse que não somos próximos.
- E eu já ouvi. - Daisy abriu um sorrisinho - Vamos Liz, por favor!
Suspirei profundamente. Jamais vou dizer sim para isso, seria como aceitar um convite para o inferno.
- N-não posso, Daisy. - resmunguei.
E graças á quaisquer forças do Universo que resolveram me ajudar, a Srta.Lucy entrou na sala neste momento e mandou todos se sentarem.
Daisy se levantou com um suspiro e se afastou.
- Ela é insistente. - Todd comentou.
- É. - concordei, sem olhar para ele.
- O que aconteceu com vocês? Vocês eram grudadas.
- Não somos mais. Isso acontece sempre. - senti que sooei azeda demais, então virei o rosto para Todd e sorri.
Ele sorriu de volta. A maioria dos seus dentes são tortos, mas seu sorriso é adorável. Absolutamente nada nele me incomoda, nem os dentes tortos, nem os óculos, nem o cabelo, nem as marcas de espinha. Muito pelo contrário, eu me sinto como ele. E talvez eu devesse começar a andar com pessoas humildes como ele, e parar de classificar pessoas como nós como fracassados. Só não somos populares no colégio, isso não faz de ninguém um fracassado. Tenho consciência disso agora.
- Sabe, Todd, a gente devia ir tomar um café um dia desses. - nem acredito que isso saiu da minha boca, mas acho que esse negócio de fazer amigos tem que começar em algum momento.
- Hum... Claro, mas.... Você está com febre, Liz? - ele riu.
- Não, só pensei que seria legal. Se você não quiser...
- Não, eu quero. É só que... - ele corou violentamente - Liz, eu.. Eu gosto da mesma coisa que você gosta.
- O quê..? Oh. - eu corei tanto ou mais que ele - Todd, eu estou te convidando como amigo.
- Oh. - ele deu um riso nervoso - Então está combinado.
- Ok.
Eu quis rir da situação porque era engraçado pensar em Todd corando de vergonha, mas por outro lado eu não sei os tipos de preconceitos que Todd sofre por gostar de meninos. Nunca ouvi ninguém dizer que ele é gay, talvez ele não queira que ninguém saiba.
Então deixei o assunto de lado.
Mas não consegui não ficar feliz com o fato de que eu tenho um amigo agora. Ou, ao menos, quase tenho.
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Hello babies! Como estão bem? Espero que tenham gostado do capítulo.
Ps: obrigada pelas 10k views 😍😍 eu amo vocês!
All the love xx
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Prisoners - h.s
FanfictionEm um mundo onde todos vivem oprimidos por padrões, pessoas diferentes se sentem erradas. Em um mundo onde você precisa ser igual a todo mundo para ser aceito, existem pessoas como Liz Gray; oprimida por suas próprias inseguranças, vivendo nas sombr...
