— Espera aí! Você está me dizendo que... – Rafael começa, mas está boquiaberto demais para terminar. Dou um sorriso e tiro a bola de vôlei da mão dele. – Você, sério?
É bom conversar com Rafael. Acho que é porque ele tem um humor tranquilo de quem, quase sempre, está de bem com a vida – uma coisa que não é muito comum com meu irmão e minha cunhada. O sorriso dele também é algo que sempre me dá paz, mesmo quando ele tenta chamar minha atenção – embora a última vez que ele tentou bancar meu irmão mais velho tenha muitos e muitos anos. E talvez porque, no fim, somos bem parecidos. Gostamos das mesmas coisas, ouvimos as mesmas bandas, nosso toque de celular é o mesmo e somos competitivos até o último fio de cabelo.
O fato dele não ser meu irmão facilita o diálogo, também. Quer dizer, ele acompanhou minhas mudanças de criança para adolescente, quando Pedro não pode acompanhar, e em algum ponto ele é mesmo como meu quase irmão. Mas é meu primo também. E isso nos dá a distância necessária para nada ser muito invasivo ou desconfortável. É da família, mas nem tanto. É fácil ser quem sou perto dele.
— Agora faz sentido a cara que seu pai estava mais cedo. E o meu pai indo visitá-lo depois do almoço – ele completa, por fim. – Como você conseguiu o feito de ir para a delegacia antes de Daniel?
— Acho que Daniel foi para a delegacia antes de mim, na verdade. – Dou de ombros. – A denúncia e todo mais?
— Mas não foi por motivos dele. Você foi por motivos seus. Espera. Daniel já sabe disso? Ele vai adorar!
Balanço a cabeça, rindo. Pela primeira vez nas últimas vinte horas, consigo relaxar. Sinto meus ombros mais leves, embora a tensão nos meus músculos deixaria minha treinadora para lá de estressada. Eu quico a bola no chão, quando chegamos na quadra improvisada da maior praça da cidade, mas Rafael permanece na entrada da linha, com uma cara para lá de abobado. É engraçado, porque ele é um homem grande demais e fica estranho aquela expressão nele. E é bom, porque faz meu coração ficar mais leve.
Quer dizer, ainda não conversei com meu irmão. Não tivemos tempo, a reunião com Olavo terminou mais tarde do que queríamos, de modo que quando acabou não tínhamos força nem para olhar um para o outro. Ainda não conseguia compreender porque eles agiam como se eu estivesse mais envolvida do que estou no caso, mas a verdade é que entendo pouco da vida. E eles só estão sendo o que sempre foram: protetores.
Eu sempre gostei bastante da proteção que minha família me deu, mais do que o poder aquisitivo que tem em nossas mãos. O fato de ter sido criada numa bolha nunca foi desconhecido por mim – eu sabia. E não ligava. Mas a verdade é que desde que o ano começou sinto falta das coisas que poderia ter vivido, não fosse o medo e proteção de todos. Começa a me irritar que eu tenha crescido como uma boneca de porcelana que a qualquer vento poderia me quebrar. Eu não sou frágil assim. E é cansativo que o único lugar do mundo que não me veem como frágil seja numa quadra de vôlei, especialmente quando não tenho o vôlei para me refugiar, agora que estou de férias.
Por isso não me importo de matar aula para jogar com Rafael, porque, embora ele seja péssimo, ele é competitivo demais para me deixar ganhar sem dar o melhor de si. E isso vai me manter ocupada. E cansada. E, talvez, essa combinação de coisas me faça dormir sem sonhos esta noite.
— Provavelmente, não. Se soubesse, nós já saberíamos.
Rafael ri.
— Eu sempre desconfiei que você viria para acabar com a moral dessa família, de todo modo.
Jogo a bola nele com força, mas Rafael a pega antes que acerte seu rosto, ao mesmo tempo que aumenta a gargalhada. A proposta de vôlei logo vira uma "queimada" com bola cheia – e que machuca. Rafael é melhor do que eu se protegendo, mas sou melhor atacando. E, por isso, não escondo minha força tentando acertá-lo por toda a parte possível.
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Relicário
Teen FictionVENCEDOR DO THE WATTYS 2017, NA CATEGORIA "ORIGINAIS" Dafne era uma Vale e, como tal, devia se esforçar para perpetuar o modelo perfeito de família tradicional brasileira que tinha. Pelo menos, era isso que seus pais berravam para ela, toda vez que...
