O primo Paulinho

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Karen sabia que tinha ido rápido demais ao ponto, estava ansiosa, mas tentou parecer impassível.

Madame Esmeralda ficou chocada, mas tentou não demonstrar. E com um tom de voz maternal, tentou convencer Karen a deixar isso pra lá.

– Querida! Seu tio Luiz e eu, fomos muito felizes em nosso casamento, mas a vida não nos agraciou com a possibilidade de ter nossos próprios filhos... então seu pai nos trouxe você! Sempre tive você como uma filha legítima, você tem meu sangue, e é a filha do meu coração. Quando seu tio morreu, eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para te fazer feliz.

Karen já se sentia arrependida de ter colocado a tia contra a parede e tentou se desculpar.

– Sei que a senhora foi uma mãe muito acima do que eu jamais mereci. A única mãe que conheço, e agradeço por tudo, mas...

– Então por quê quer trazer esse assunto agora? – Esmeralda estava visivelmente magoada – Não deveria desenterrar seu passado! Ninguém deve! É uma história triste e vergonhosa, e o melhor que temos a fazer e deixar os mortos descansarem em paz.

– Quer dizer que a senhora se envergonha de mim? – Karen estava visivelmente magoada.

– Claro que não! – Esmeralda estava desesperada, só em pensar que a sobrinha pudesse se magoar – Nunca me envergonhei de você! Só me envergonho de toda essa história sórdida que seu pai arranjou! Você não saiu de dentro de mim, mas pra mim, você sempre foi minha filha! Apesar de você não pensar assim!

As duas estavam alteradas, e Karen começou a chorar. Esmeralda a abraçou e tentou argumentar.

– Não devemos remexer velhas feridas, minha querida. Tudo já foi feito pra encobrir e enterrar esse passado tenebroso, e não deixar que nada disso manche seu futuro! Não se preocupe mais com isso... esqueça essa história, pro seu próprio bem, e viva tranquila... não vale a pena abrir essa caixa de pandora.

Karen ouviu tudo com um mutismo magoado. Por fim, quando falou, sua voz estava terrivelmente magoada.

– Só preciso saber de onde vim, quero saber quem foi minha mãe, e por quê todos tem tanta vergonha dela! Será que é pedir muito?

Esmeralda a olhou nos olhos, e dessa vez falou com uma firmeza que não admitia argumentos.

– Sua mãe sou eu, querida! Eu, e ninguém mais.

– Quer dizer que não vai me contar?

– Não! Definitivamente. Espero que entenda, é pro seu próprio bem. Você se magoaria ainda mais se soubesse.

Esmeralda deu o assunto por encerrado e Karen ficou extremamente aborrecida.

***
    
O clima na mansão ficou tenso. Uma parede de gelo foi criada entre Karen e sua tia. Três dias inteiros se passaram, sem que nenhuma das duas se atrevesse a puxar assunto. Esmeralda tinha medo de magoar ainda mais a sobrinha querida, e Karen estava extremamente sem graça por não ter levado em consideração os sentimentos da tia.
    
Finalmente, na hora do jantar, Esmeralda sentou-se de frente com a sobrinha e resolveu puxar assunto.
    
– Por acaso ainda se lembra de seu primo Paulo?
    
Karen se surpreendeu ao ver a tia falando com ela, mas fingiu naturalidade.
    
– Me lembro vagamente. Acho que o vi apenas umas duas ou três vezes antes de me mudar...
    
Esmeralda falou num tom solene, tentando aparentar tranquilidade.
    
– Ele perdeu o pai ainda muito bebê, e pouco tempo depois que você partiu com seu pai, a mãe dele sofreu um acidente e ele ficou órfão. Como eu era sua madrinha, eu o adotei. Ele tem dezoito anos agora, e chega nesse final de semana de uma excursão com os amigos. Sei que sou sua mãe só nos papéis, e você sempre me chamou de titia, mas acho que agora você tem um irmão... meus parabéns.
    
Karen não sabia explicar de onde veio aquele sentimento, mas estava queimando de ciúmes. Sem conseguir se conter, falou extremamente magoada:
    
– Que bom, pra senhora! Achou um filho com procedência! Um herdeiro legítimo que não guarda nenhuma vergonha do seu passado! Agora já pode se livrar da imitação barata.
    
Esmeralda olhou para ela com surpresa, e falou muito séria.
    
– Não sabia que você só estava interessada em minha herança! Você continua sendo minha principal herdeira. O Paulo tem a herança dos pais dele, e claro que está sendo preparado pra ocupar um lugar na empresa no futuro, mas não será o seu. Só contei sobre ele porque pensei que gostaria de ter um novo irmão.
    
– Gostar de ter um irmão?? – Karen sorriu inconformada – Já tenho dois que me odeiam, e nunca me fizeram falta, obrigada! A verdade é que sempre fui sozinha! Uma párea, de quem todos tem vergonha e se afastam! Não quero ter irmãos! Só quero saber quem é minha mãe!
    
Esmeralda saiu de onde estava, abraçou fortemente a sobrinha, e falou entre lágrimas magoadas:
    
– Sua mãe sou eu!! Por favor, entenda!! Sua mãe sou eu querida... só eu e ninguém mais.
    
As duas permaneceram ali, abraçadas, chorando, e tentando aliviar a alma. Karen percebeu que não poderia mais pressionar a tia, e decidiu que ia procurar silenciosamente por seu passado sem que a tia se magoasse.

***
    
Madame Esmeralda estava agitada. Queria reunir seus sócios, e seu círculo social para uma festa de boas vindas onde apresentaria a eles sua sobrinha.

Karen, por sua vez, não estava nem um pouco animada para a festa. Detestava ser exposta a pessoas estranhas como se fosse um animal raro num zoológico. Não gostava de ser observada, e avaliada, nem gostava de fingir para agradar a todos.

Mas a tia não deixou espaço para argumentos. Karen teria seu debut, querendo ou não. Madame Esmeralda só pensava em como ficaria a decoração do salão principal, já que era início de primavera, um dos períodos mais bonitos do ano, e época de se encontrar grande variedade de flores.

Esmeralda decidiu que trocaria as gigantescas cortinas do hall de entrada, e enquanto a decoradora segurava uma pilha de amostras de tecidos e cadernos de anotações, Karen e Kelly decidiram ajudar, pegando a fita métrica e ajudando a tomar as medidas.

As duas estavam medindo a porta de entrada, quando esta se abriu abruptamente.

As amigas pararam, embasbacadas, para observar o ilustre visitante que acabava de entrar.
    
Ele era lindo! Com longos cabelos loiros, que desciam até pouco abaixo dos ombros, olhos muito azuis e lábios avermelhados. Tinha um rosto delicado, e traços bastante femininos, que contrastava com a masculinidade que emanava de seu corpo.
    
Ele carregava uma enorme mochila de acampamento, trajava bermudão e uma camisa estampada, totalmente aberta no peito, revelando o físico bronzeado de alguém acostumado a viver na praia.
    
– É meu!! – Kelly sussurrou para a amiga, que sorriu divertida – tira o olho que eu vi primeiro!
    
Era o primo Paulo que acabava de chegar de viagem. O rapaz era de uma perfeição tão grande que parecia ser um anjo que acabou de cair de algum presépio.
    
Ele encarou as duas desconhecidas com estranheza e perguntou curioso.
    
– E vocês? Quem são?
    
Karen tomou a frente nas apresentações:
    
– Prazer! Essa é minha amiga, Kelly Reis, e eu sou Karen Varemberg! E você, quem é?
    
Ele as encarou, com certa displicência, e falou, cheio de si.
    
– Sou o filho da dona da casa! Mas... espera um pouco, você também é uma Varemberg! Então... você é a tal Karen!!
    
– Exato!!! – Karen falou com tom de superioridade, disposta a conquistar a liderança da matilha – Sou a primeira filha de madame Esmeralda!
    
Paulinho estava visivelmente transtornado pelo ciúme.
    
– Ah sim! "Mamãe" fala muito de você – ele deu ênfase à palavra mamãe, impondo sua posição – Ela sempre fala das suas proezas, e suas qualidades... do quanto ela gostava de você, até que você decidiu largar tudo aqui e ir morar com seu pai no Nordeste. Que bom que voltou! Espero que faça mamãe feliz no tempo que estiver aqui, e não a decepcione! Eu acredito que você voltou pra tomar o lugar que lhe é de direito. Você sempre foi a predileta dela, mas quero que saiba que filho de verdade não abandona a própria mãe, mesmo que seja adotiva...
    
Paulo estava visivelmente alterado. Estava tão enciumado que estava quase chorando. Karen se tomou de ternura por aquela criança angelical. Estava com remorso por fazê-lo sofrer, mas tinha que fazer ele pagar pela petulância.
    
– Calma aí garoto! Não quero tomar de você sua mãezinha! O lugar de queridinho no coração dela é todo seu! Não vim pra ficar muito tempo. Só vim descobrir algo sobre meu passado. Quero descobrir o que aconteceu com minha mãe verdadeira, mas a tia Esmeralda nunca vai me contar... mas talvez você possa me ajudar a investigar! É um acordo do interesse de ambas as parte... se você me ajudar a descobrir meu passado, eu encontro o que estou procurando e sigo minha vida, deixando seu caminho livre. Então, o que me diz? Vai me ajudar?
    
Paulo estava muito constrangido.
    
– Sinto muito pela sua mãe!
    
Karen deu de ombros e fez o assunto parecer banal.
    
– Esquece isso! Eu nem me lembro dela! Mas e aê? Vamos esquecer tudo, nos tornar bons amigos e nos ajudar, ou você vai continuar brigando com ciúmes da titia?
    
Paulo estava confuso e sem jeito. Num movimento rápido, puxou Karen para si e a abraçou.
    
Karen ficou atarantada. Não estava acostumada a ter contato físico com pessoas; desde muito pequena, sempre foi muito reservada, recebendo muito a contra gosto os abraços da tia.

Aquele abraço a pegou totalmente de surpresa e a deixou constrangida, por isso ela se desvencilhou, no exato momento em que madame esmeralda voltava para a sala com a decoradora, e se surpreendeu de ver o filho ali.
    
– Olha que coisa linda! Vejo que vocês dois já se conheceram, e estão se dando bem! Meus dois tesouros!! Agora minha felicidade está completa!
    
Esmeralda abraçou os dois, e os levou para a copa, para o lanche da tarde.


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