Ressureição .

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A calidez dos lábios de Felipe nos seus, era uma sensação que nem em seus mais secretos sonhos, Karen pensou sentir. Finalmente ele era todo seu... queria permanecer naquele beijo por toda a eternidade... mas seu corpo estava resvalando para o nada.
     
Um sono profundo tomou conta de seu ser, e ela foi mergulhando numa sensação de alívio tão grande que ela não conseguia explicar.
     
Não havia nada ali... Nem paraíso nem pessoas esperando por ela do outro lado, nem luz no fim do túnel, só um imenso nada, que ia aumentando cada vez mais, e Karen pensava que finalmente ia descobrir o segredo do universo: o exato momento em que uma existência se apaga.
     
De repente, depois de alguns poucos minutos, ouviu muito ao longe, barulhos de tiros... ou seriam fogos de artifício?
     
Se apegou com todas às forças a esse resquício de consciência... seja como for, a morte não lhe parecia tão ruim afinal, mas ainda queria existir por mais um tempo.
     
Outros barulhos de fogos, agora, um pouco mais forte. Uma luz minúscula apareceu diante de seus olhos, e começou aumentar de tamanho. Seria essa a tal luz no final do túnel?
     
Karen tentou caminhar na direção da luz, mas não conseguia se mover. Se desesperou por alguns instantes, mas resolveu se acalmar e se deixar envolver por toda aquela luz.
     
A luz estava bem próxima agora, ela já podia sentir seu corpo emergindo nela, os barulhos dos fogos de artifício agora eram bem nítidos, e a luz era tão intensa que cegou seus olhos.
     
Enquanto mergulhava na luz, de repente todas as dores do mundo acometeram seu corpo. Nao conseguia respirar, e sentia como se navalhas atravessassem seu peito. Choques elétricos se espalhavam por seu braço, e sua boca estava cheia de algo que não permitia que ela gritasse... algo redondo como o cano de uma arma.
     
Karen nunca pensou seriamente na vida após a morte. Tinha estudado várias vertentes, e agora estava desesperada, pois com certeza estava indo para o inferno, e pelo pouco que experimentou, agora sabia o significado de "lugar de tormento".
     
Vozes alvoroçadas chegavam aos seus ouvidos, mas ela não conseguia distinguir a gritaria. A luz estava cada vez mais intensa, e as dores, cada vez mais reais. Karen fechou os olhos, e sentiu novamente aquele sono profundo se apoderando dela... As dores diminuindo, e a luz no fim do túnel foi se afastando até se apagar novamente.
     
Karen mergulhou novamente no nada absoluto, mas estava aliviada... era melhor assim.
     
Mas seu descanso durou pouco. Aonde estava, não tinha noção de tempo, mas teria descansado uns 5 minutos? Talvez 15... E a tal luz apareceu de novo, dessa vez vindo mais rápida, as dores todas voltando num turbilhão, a gritaria de vozes à sua volta transformando tudo num redemoinho de desespero...
     
Karen decidiu encarar de vez seus destino e mergulhou naquela luz.
Seus olhos agora conseguiam enxergar muito vagamente. Viu luzes de tubo fluorescente... vultos brancos à sua volta murmuravam em tom baixo, e as dores em seu corpo foram diminuindo.

Será que, dessa vez, estava chegando ao céu? Aqueles seres seriam anjos limpando ela de seus pecados?
     
Ou teria sido abduzida por alienígenas? Podia agora ouvir sons de bip de todos os ritmos.
     
Olhou para seu braço e seu peito, e viu muitos fios. O cano da arma que sentia em sua garganta, era na verdade um tubo plástico que Karen tentou arrancar na mesma hora, mas mãos a imobilizaram, enquanto aplicavam algo em sua veia.
     
Após alguns minutos de luta intensa, Karen finalmente começou a entender o que estava acontecendo.
     
As cenas da noite anterior vieram à sua cabeça e ela finalmente percebeu: estava em um hospital... provavelmente numa UTI, entubada em uma máquina de respiração artificial.
     
Os seres de outrora, era, na verdade a equipe de enfermagem, monitorando seus sinais vitais. Karen resolveu se acalmar.
     
Um doutor se aproximou dela, com um sorriso carinhoso e muita ternura no olhar. Examinou-lhe as pupilas, e falou em tom animado.
     
— Bom dia!! Bela adormecida!! Finalmente acordou! Sei que você deve estar extremamente confusa, mas fique calma que vou te explicar tudo. Você chegou ao nosso hospital gravemente ferida, te colocamos numa unidade de terapia intensiva. Você está num respirador artificial, mas assim que concluirmos os exames pra constatar que seus pulmões podem funcionar sozinhos, vamos tirar esse tubo incômodo. Aplicamos em você um sedativo leve, apenas pra aliviar suas dores, e não deixar que, no desespero, você se machucasse. Fique calma. Dentro de mais algumas horas, vamos livrar você de toda essa parafernália e te levar ao quarto.
     
Karen tentou falar alguma coisa, mas foi impedida pelo incômodo tubo de respiração. Resolveu relaxar e esperar mais um pouco. Essa noite maluca jamais seria apagada de sua memória.

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