Felipe adentrou o café e Karen quase não o reconheceu. Havia trocado o hábito por uma camiseta branca, com os dizeres: "Jesus te ama" estampado no peito.
A camiseta moldava-se perfeitamente aos músculos de Felipe, expondo seu físico invejável. Seus braços pareciam ainda maiores nas mangas apertadas da camiseta. Karen sentiu dificuldade de articular as palavras. Por sorte Felipe não percebeu o quanto ela estava ansiosa.
– Espero que não tenha feito você esperar muito. Por onde vamos começar?
Karen não sabia. Queria saber tudo dele, mas já se conformaria em ficar apenas olhando para aquele rosto lindo e aqueles olhos azuis...
– Que tal começarmos por você! Sou meio tímida pra falar de mim mesma.
Felipe concordou, mas estava meio sem jeito...
– O que quer saber de mim? Não sou nada interessante.
– Quero saber tudo!! Como você era quando pequeno, por quê decidiu ser padre!! Estou curiosa pra saber como era o pequeno Felipe Santiago!!
Felipe fez uma pausa, tentando pensar no que ia dizer, então começou a contar.
– Bem... em primeiro lugar, não sou filho legítimo do casal Santiago. Depois que tiveram o Fernando, a mamãe, ou melhor, dona Clara, não podia mais ter filhos, então decidiram me adotar. Até onde sei, madame Esmeralda foi quem intermediou a adoção... mas não sei ao certo de onde ela me conhecia. Eu era considerado uma criança problema... meus pais gastaram bastante procurando pelos melhores tratamentos, e todo tipo de terapia... então o irmão Josué recomendou a religião.
– Que incrível!! – Karen exclamou surpresa – Você é tão calmo que é impossível imaginar que você já foi um garoto problema. Ainda se lembra dos seus pais biológicos!?
– Um pouco! – Felipe ficou sério de repente – Não me lembro mais como era o rosto da minha mãe, mas ainda lembro como ela era... seu tom de voz carinhoso, seus dedos longos mexendo em meu cabelo... do meu pai, não lembro nada. Só sei que ele era violento, mas apaguei ele da memória. Minhas lembranças mais vívidas são as do reformatório.
Karen estava surpresa e estupefata com essa revelação.
– Espero não estar desenterrando velhos fantasmas, mas o que aconteceu para você ir parar em um reformatório?
Felipe sorriu tranquilo. Sabia que seu passado era chocante, e se divertia ao ver a surpresa no rosto de quem descobria sua história... por isso não gostava de tocar no assunto, mas com Karen, ele se sentia à vontade... sentia vontade de compartilhar com ela seus segredos.
– Adoro falar sobre meus fantasmas com você... assim exorciso todos eles! Bem... não me lembro o que aconteceu, só sei o que me contaram. Quando meu pai matou minha mãe, eu peguei a arma dele e descarreguei cinco tiros nele.
Fez-se um silêncio profundo. Agora Karen entendia o que a tia quis dizer com infância conturbada. Felipe estava muito sério e Karen se sentia constrangida por trazer assuntos tão pesados e resolveu que já era hora de mudar de assunto.
– Mas você só contou coisas tristes da sua infância... você não tem nenhuma recordação que te deixe feliz?
Felipe pensou por um instante, e respondeu nostálgico.
– Havia uma garotinha... tínhamos uma laranjeira no quintal, e eu enfeitava os cabelos dela com as flores que caía da árvore... não sei se ela era minha irmã, minha amiga, ou simplesmente um fruto da minha imaginação. Um belo dia ela simplesmente desapareceu, e nunca mais ouvi falar dela. Ela era frágil, tinha quase metade da minha idade, e eu a protegia. Meu terapeuta falou que ela era um dispositivo de defesa da minha cabeça... meu alter ego buscando proteção... mas pra mim ela sempre foi de verdade. Sempre que passo por uma laranjeira florida, lembro-me dela.
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Caleidoscópio
रोमांसKaren volta ao litoral, para tentar desvendar seu passado, e para isso, vai contar com a ajuda do puro e singelo amigo Felipe, mas não imagina que está abrindo uma verdadeira caixa de pandora que irá abalar a sociedade litorânea!
