O chá beneficente

27 3 7
                                        

Todo ano, a alta sociedade se reunia para fazer alguma coisa pelas pessoas carentes, como uma maneira de expiar suas falhas durante o ano.

O padre Josué, aproveitando esse clima de solidariedade coletivo, fazia um grande chá beneficente, onde arrecadava fundos para fazer uma grande festa de Natal, onde distribuía brinquedos para as crianças, e cestas básicas para as famílias carentes.
    
Geralmente, quem participava da entrega eram os próprios padres e uns poucos voluntários, já que os ricassos não queriam se misturar com a ralé, mas o chá que antecedia a festa, era um evento badaladíssimo, e reunia a nata da sociedade.
    
Nesta noite, os principais nomes da alta sociedade litorânea estavam reunidos num dos clubes mais famosos da cidade.
    
Madame Esmeralda chegou esplendorosa, de braços dados com Karen. Ainda na porta do evento, Carlos esperava por Karen, e estava boquiaberto de ver tanto luxo e tanto brilho numa cerimônia tão simples como um chá beneficente.
    
Repórteres de várias revistas estavam curiosos pra saber mais sobre o misterioso par da herdeira de madame Esmeralda, mas Karen os deixou no suspense. Assim que despistaram a tia de Karen, ambos foram procurar por Felipe.
    
Felipe já os esperava, e os levou para um lugar reservado do clube, onde poderiam conversar mais à vontade, e Karen agradeceu por essa providência.

Alguns dias atrás, quando Felipe deu a ela o documento que pegou com sua tia, Karen tratou logo de fazer uma cópia, e devolveu o original à Felipe para que a tia não desconfiasse.

Karen entregou uma cópia do documento para Carlos, para que seu primo pudesse investigar.
    
O exame que Karen tinha nas mãos, nem se tratava de um teste de DNA... era na verdade, um exame parecido, mas muito mais antigo, chamado exame HLA, feito a partir dos glóbulos brancos. Este teste dá ao "pai" uma probabilidade de exclusão de cerca de 95%. Combinado com os exames de grupos sanguíneos, enzimas e proteínas, esse índice chega a 99%.
    
O exame foi feito no ano de 1980, num laboratório norte americano, e nele, os únicos dados que constavam sobre sua mãe eram seu nome completo e sua data de nascimento: Susana Rodrigues, nascida em janeiro de 1956.
    
De posse dessas informações, ele começou a investigar, mas não encontrou muita coisa. As informações eram poucas, mas Karen estava animada. Pelo menos agora tinha certeza da existência de sua mãe.
     
Agora Carlos lhe trazia novidades. Seu primo investigador tinha descoberto o lugar do túmulo de sua mãe. Um cemitério simples, da periferia da grande são Paulo, e lhe trouxe fotos do local.
     
Uma das fotos era panorâmica, mostrando o cemitério num geral, um lugar muito bonito e tranquilo, e a outra era de uma lápide simples, com uma foto preto e branco de uma jovem muito bonita, de cabelos presos, bem modesta em suas feições.

Na data de nascimento, a mesma constante no documento: o ano de 1956, e na data de falecimento, o ano de 1984... O mesmo ano em que tia Esmeralda havia adotado Karen.

Uma colunista social se aproximou, e perguntou aos amigos o que estavam achando da festa, e Carlos aproveitou os holofotes, passando o braço em torno dos ombros de Karen, abraçando-a possessivamente, dando a nítida impressão de que eram um casal.     
    
Felipe já estava visivelmente enciumado, mas disfarçou pra não deixar transparecer seus sentimentos.
    
Na hora da dança, Carlos tirou Karen pra dançar, e deram um lindíssimo espetáculo, dançando tão bem quanto no baile da guarda costeira, e a atenção de todo o salão se voltou para os dois.

Não aguentando mais presenciar a cena, Felipe se afastou.
 
***
  
Ao final da dança, após se livrar dos repórteres, Karen e Carlos se separaram para procurar por Felipe.

Felipe estava no terraço, andando de um lado para outro feito uma fera enjaulada... as pontas da batina esvoaçando com o vento, como a capa de um anjo vingador.
    
Karen finalmente o encontrou, e já tinha visto Felipe furioso antes, mas não daquela maneira. A beca preta esvoaçante lhe dava um ar ainda mais assustador.
    
— O que há de errado, Felipe? — Karen perguntou preocupada, mas ao mesmo tempo com muita cautela — Por quê saiu da festa dessa maneira?
    
Felipe olhou para Karen, consumido de ciúmes.
    
— Eu que pergunto, Karen! O que aconteceu com você? Pensei que tinha vindo aqui para receber minha ajuda, pra descobrir mais sobre sua mãe, mas então você e aquele sujeito insuportável começam a se exibir! Começo a desconfiar que você não precisa realmente da minha ajuda... você só quer esfregar na minha cara seu relacionamento com esse sujeitinho que você insiste em dizer que é... — Felipe não conseguia pronunciar o resto da frase — Pro inferno vocês dois!! Já adiantei tudo pra você, então por favor, continuem sem mim!!
    
Felipe tremia de indignação. Karen estava arrasada. Queria poder abraçá-lo e lhe mostrar o quanto estava errado... O quanto ela o amava, mas sabia que não era o momento.

Karen tentou se aproximar, mas Felipe virou-lhe as costas. Karen suplicou.
    
— Por favor, Felipe! Nós precisamos de você!! Você não pode nos abandonar agora!! Você é meu melhor amigo! Precisamos de você para que as coisas continuem dando certo!
    
Felipe encarou Karen, furioso.
    
— Então por que não dispensa a ajuda de seu amigo? Ele é presunçoso, só tem ideias estúpidas! Ou será que não consegue se afastar dele?
    
Karen suspirou tentando manter a calma e buscar as palavras certas para acalmar Felipe.
    
— Carlos é nosso álibi, Felipe! Tenho certeza que se não o tivesse trazido, não teríamos liberdade para conversar tão tranquilamente... as pessoas começariam a comentar nossa amizade.
    
Carlos finalmente os encontrou, e com seu jeito brincalhão, já chegou fazendo graça pra quebrar a tensão que tinha percebido ao longe.
    
— Opa! Ouvi meu nome! Estão falando mal de mim?
    
Felipe fulminou Carlos com o olhar, depois deu-lhe as costas.
    
— Vão em frente sem mim! Não vou mais me meter nesse joguinho de atenções. Ela é toda sua, senhor Carlos!
    
Karen tentou se explicar mais uma vez, mas a presença de Carlos não estava ajudando.
    
— Por favor, Felipe! Você sabe que Carlos é apenas meu amigo, assim como você! Deixa de bobeira!
    
Felipe continuava de costas. Estava ardendo em ciúmes, e não conseguia olhar Karen nos olhos.
    
— Não vejo porque não! Ele é o cara perfeito! Reúne tudo o que você precisa. A amizade e o companheirismo que tento lhe dar, e a paixão que eu nunca poderia... pra que se preocupar com dois, se você pode ter tudo num só?
    
Karen estava surpresa pela quase declaração de Felipe. Nunca imaginou que ele pudesse nutrir sentimentos por ela.
    
Carlos colocou Karen de lado e avançou sobre Felipe, agarrando-o pelo colarinho e trazendo o rosto dele pra bem perto do seu, em uma atitude bastante ameaçadora.
    
— Se eu fosse você, controlava o ciúmes! Não fique fazendo ceninhas como se vossa santidade fosse o centro do universo, porque não é. Você pensa mesmo que estou atraído por Karen? Pois vou te mostrar o que eu realmente gostaria de estar fazendo nesse exato momento!
    
Dizendo isso, Carlos colou os lábios nos de Felipe, dando-lhe um beijo ardente e demorado.

***
Karen estava chocada, e não sabia o que pensar, nem como reagir diante daquele gesto tão inesperado.

Era muito estranho presenciar aquela cena mas ao mesmo tempo, chegava a ser sensual, e Karen estava com inveja da coragem e ousadia de Carlos.

Felipe estava estupefato, e com uma fagulha de ódio no olhar, empurrou Carlos e desferiu um soco em seu queixo.

Pego de surpresa, Carlos tonteou, e caiu no chão, então Felipe segurou-lhe a garganta com as duas mãos e tentou sufocá-lo.

Carlos tentava reagir, mas Felipe era muito forte. Karen teve vontade de gritar, ou buscar socorro, mas não podia chamar a atenção para todo aquele escândalo.

Só estavam os três no terraço, e Felipe estava alucinado. Carlos já começava a ficar vermelho, e o brilho no olhar de Felipe mostrava que ele queria mesmo matá-lo.

Karen pulou sobre Felipe e começou a esmurrar suas costas. Num movimento brusco, ele a lançou para longe.

Ainda atordoada, Karen tentou tirá-lo de cima de Carlos, mas seus braços não se moviam, então ela deu-lhe uma bofetada.

Felipe finalmente despertou do transe e percebeu a loucura que estava fazendo. Perplexo, Felipe largou Carlos, e saiu correndo.

Karen ajudou Carlos a se recompor e levantar.

— Que loucura foi essa, Carlos?? Pensei que ele ia te matar!!!

Carlos sorriu, com a traqueia ainda em brasas.

— Me desculpe, amiga... mas não consegui resistir... Ao olhar aquele rosto tão lindo, tão perto do meu... Além disso eu precisava provar pra ele... mas vá atrás dele, bonita! Ele está confuso, e está precisando de você mais do que eu.

Com um olhar de concordância, Karen deixou Carlos no terraço e correu para o salão, procurando por Felipe.

***

Caleidoscópio Onde histórias criam vida. Descubra agora