Nos jardins da mansão.

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A tarde estava deliciosa. O sol já diminuía seu vigor, e uma brisa refrescante soprava de leve, trazendo o cheiro das flores.

Karen e Felipe caminhavam tranquilamente entre as camélias e jasmineiros, ambos receosos de puxar qualquer assunto. Foi Felipe quem resolveu quebrar o gelo.

— Então! Você vai me contar o que está te perturbando, ou vou ter que adivinhar sozinho?

Karen estava constrangida demais. Felipe era seu grande amor, e estava com vergonha de contar justamente a ele que esteve com outro homem. Mas sentia que se não colocasse aquilo pra fora, não conseguiria ter paz.

Felipe era o único com quem podia conversar... ele tinha o estranho poder de aliviar a sua consciência, e sabia que nunca poderia se abrir com a tia, nem com as amigas, sem ser extremamente julgada.

Quando conversava com Felipe, é como se pudesse ver a vida por outro ângulo. Karen suspirou longamente antes de falar.

— É a mesma história de sempre! Não sei até onde eu possa ter ido naquela noite em que fui parar no hospital. É um assunto tão embaraçoso! Eu queria fechar os olhos e esquecer daquilo tudo, mas cada vez que repasso meus atos naquela noite, tenho vontade de me enterrar num buraco no chão. Não me lembro de muita coisa... na verdade, de tudo o que me contaram, só me lembro de ter assediado meu primo.

Felipe sorriu surpreso.

— Juro que não te entendo, Karen! Você beijou a mim, que sou padre, e não ficou constrangida! E agora Que beijou seu primo, um garoto acostumado com isso, está se remoendo de remorsos ao ponto de ficar com a saúde debilitada? Seu primo nem deve se lembrar mais do ocorrido, acho que dessa vez você está exagerando.

Karen respirou fundo pra segurar as lágrimas que já se anunciavam

— Ah se fosse só esse beijo... — Karen sentia dificuldade em articular as palavras e segurar o choro ao mesmo tempo — Além do mais, o "nosso" beijo, foi singelo, e secreto... mas o que fiz com o Paulo... eu o agarrei na frente de todos, e se minhas amigas não tivessem me tirado de cima dele, nem sei o que teria acontecido! Mas isso eu já superei. O problema é que pode ter acontecido coisa muito pior.

Karen prendeu a respiração pra segurar o choro, mas duas lágrimas grossas rolaram de seus olhos. Felipe ficou preocupado.

— Se quiser encerrar o relato, eu vou entender. Admiro a força e a maturidade que você demonstrou até agora, mas não deve mais se culpar. Você não fez nada de livre e espontânea vontade.

Karen tornou a respirar fundo, e Felipe pegou suas mãos para dar-lhe forças. As mãos de Felipe eram grandes, e fortes, e Karen sentia nelas muita segurança.

Karen decidiu que esse era o momento de colocar pra fora seu grande segredo.

— Eu preciso contar isso pra alguém pra ver se consigo livrar minha cabeça de tudo isso! O resto da história, só sei o que me contaram. Minhas amigas me tiraram de cima do Paulo, então Daniel Vila Real chegou, me pegou nos braços, e desapareceu comigo dali! Eu fiquei um bom tempo a sós com ele, e nenhuma das minhas amigas souberam o que aconteceu nesse tempo...

Foi como se Felipe tivesse tomado um soco no estômago. Conhecia muito bem a fama de Daniel Vila Real. Sabia que ele era rico, mimado e inconsequente, e dispunha das garotas como bem lhe aprouvesse. Karen era esperta demais e nunca cairia na lábia de um sujeito como ele, mas agora que soube desse detalhe...

Felipe estava indignado! Doía saber que alguém brincou assim, tão covardemente com sua amada.

— Por favor, Karen! Não se torture. Pode ser que não tenha acontecido nada de mais... talvez ele só tenha realmente tentado ajudar.

— Eu também me apeguei a essa esperança, Felipe! Mas foi o próprio Daniel quem me contou depois. E me contou coisas constrangedoras demais pra que eu esqueça... o jeito como ele descreveu tudo... não parecia ser mentira, e levando em consideração a forma inconsequente como eu estava agindo antes... não tem por que duvidar! Não consigo me lembrar de nada! É como se o espaço de tempo entre eu ter assediado meu primo e acordado no hospital simplesmente não tivesse existido! O pior que nem sei como foi minha primeira vez! E não sei o que fazer! Daniel quer assumir o erro, mas eu não consigo sentir nada por ele!

Felipe tremeu de indignação. Ainda não acreditava que Daniel conseguiu tudo assim, tão fácil! Doía saber que um crápula daquele colocou as mãos em Karen, e Felipe sentiu vontade de ir atrás dele, e fazer justiça por Karen, dando-lhe a surra que tanto merecia, mas teve que fazer um esforço pra se controlar.

— Karen! Já pensou em procurar um médico? Somente um especialista poderia te examinar e saber o que realmente aconteceu naquela noite. Talvez Daniel esteja apenas querendo se aproveitar da situação.

Karen não conseguia controlar as lágrimas.

— No começo eu pensei sim... mas tenho medo que isso acabe vazando de algum jeito. Imagine o escândalo se alguém descobre que a herdeira de madame Esmeralda se esbaldou numa festa e agora tem dúvidas se dormiu com alguém ou não! Minha tia já está em choque de saber das drogas... não posso acrescentar mais essa vergonha ao meu currículo. Não há mais nada que eu possa fazer a não ser me conformar!

Karen chorou copiosamente, e Felipe a abraçou com força, desejando defendê-la do mundo. Karen sentiu-se afogar num turbilhão de sentimentos confusos.

Abraçou-se fortemente a ele e sentiu que pelo menos naquele instante Felipe era inteiramente seu.

Depois do abraço, os dois ficaram em silêncio, se olhando por um longo tempo. Karen sentia-se hipnotizada por aqueles belos olhos azuis, e pela delicadeza dos traços daquele rosto que pendiam pro infantil...

Karen esvaziou a mente, ficando apenas a ideia fixa de que precisava daqueles lábios nos seus...

Lentamente seus lábios foram se aproximando. Felipe já não conseguia reagir, ao contrário, também queria beijá-la sem parar... sabia que o momento de largar tudo e assumir seu amor por ela, tinha finalmente chegado, queria mostrar através daquele beijo o quanto a amava.

Mas de repente, Karen se deu conta de outra gafe que estava prestes a cometer, e recuou a tempo, dando nele apenas um beijo no rosto e um abraço fraternal.

— Obrigada Felipe... por me ouvir. Me sinto um pouco melhor. Sei que não é a solução definitiva, mas pelo menos me sinto mais leve.

Felipe suspirou desanimado. Ainda não era a hora, mas estava decidido a se declarar na hora certa.

***

Madame Esmeralda percebeu que Fernando olhava fixamente para o jardim e resolveu olhar também, avistando Karen e Felipe abraçados.

— Ôh meu Deus! Exclamou perplexa, derrubando a xícara de chá que trazia nas mãos — O que aqueles dois pensam que estão fazendo?

Fernando veio em socorro dos dois.

— Não se preocupe, madame... estou observando os dois a um bom tempo e não aconteceu nada demais. Sua sobrinha estava chorando nervosa, e Felipe só a abraçou, talvez na intenção de acalmá-la.

— Pode ser — Esmeralda ainda não estava convencida — Mesmo assim acho melhor interromper antes que isso acabe virando um falatório. Minha sobrinha vive brincando com fogo, e acho que Felipe já está começando a se arriscar demais também.

Fernando sorriu, concordando. Ele sentia que existia muito mais entre Karen e Felipe do que eles mesmos queriam admitir, e no fundo torcia para dar tudo certo entre eles.

Fernando amava o irmão, e a última coisa que queria era ver ele desperdiçar o resto de seus dias como um padre.

***






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