As coisas não são bem assim.

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Karen correu um bom tempo atrás de Felipe, mas não conseguia alcançá-lo.

Felipe parou, ainda a certa distância, de Karen, e sentou-se na areia, olhando fixamente para o mar. Sabia que estava fazendo uma cena ridícula, mas não conseguia controlar o ciúme.
    
— Finalmente te alcancei! — Karen falou ofegante pela corrida — O que aconteceu? Por que saiu assim?
    
Felipe queria falar pra ela: "aconteceu que eu te amo! E estou louco de ciúme, queria parar de reprimir o que eu sinto"... Mas não tinha coragem de dizer nada disso. Então respirou fundo e tentou manter a tranquilidade.
    
— Não foi nada. Eu só estava passando, e não queria atrapalhar a brincadeirinha de vocês. Vejo que você e seu amigo Carlos são bem íntimos
    
Karen começou a perceber que Carlos tinha razão. Felipe estava queimando de ciúme. Mas podia ser coisa de sua imaginação e resolveu falar com prudência.
    
— Não sei o que você pensou que viu, Felipe, mas Carlos e eu estávamos apenas trocando uma lâmpada. Subi nos ombros dele para alcançar. Você não interrompeu nada!
    
Os dois ficaram calados, olhando para o mar. Karen sabia que Felipe estava chateado, mas tinha medo de tentar se justificar e deixar ele ainda mais zangado. Ainda olhando para o mar, foi felipe quem retomou o diálogo.
    
— O que há entre você e esse tal Carlos? Por que não me contou ontem?
    
— Não contei nada ontem porque não há nada pra contar! E se tivesse... acredito que não é da sua conta... — Karen sorriu maliciosa e resolveu provocar — Por acaso você está com ciúme?
    
— Claro que não! — Felipe respondeu rápido demais, levantando suspeitas — da onde você tirou essa ideia? Já está ficando presunçosa.
    
Felipe teve vontade de se declarar e acabar logo com aquilo, mas se conteve. Não estudou uma vida inteira no seminário pra jogar tudo pro alto, assim, num impulso.
    
Os dois se olharam com intensidade. Karen mergulhou nos olhos dele, quase que desvendando-lhe a alma. Antes que ela descobrisse, Felipe resolveu acabar com aquilo.
    
— Está bem Karen! Confesso!!! Tenho ciúme de você sim, mas não do jeito que você está pensando. Você é como uma irmã caçula pra mim, a única melhor amiga que tive... E agora esse sujeito quer me tirar até isso. Além do mais, não gosto de como ele se aproveita de você!
    
Karen sorriu pela primeira vez em toda aquela conversa
    
— Está bem, meu "big brother"! Pode guardar seu ciúme pra outra ocasião. Concordo que Carlos estava pegando pesado, e até levou uns bons cascudos, mas tenho mais confiança em deixar ele me tocar do que se fosse você. Ele sim, não vê as mulheres como "mulheres"... não me leve a mal, Felipe, mas tudo o que você vê no Carlos, é encenação. Na verdade... ele é gay!
    
Felipe estava incrédulo, tentando digerir o que Karen acabava de revelar. Enquanto isso, ela prosseguiu.
    
— Entendo que esteja espantado, mas só te contei pra você entender porque achei tanta graça naquela brincadeira. Carlos se faz de Machão só pra fugir de preconceito, mas ele é bem diferente quando estamos a sós. Aliás, ele está impressionado com a sua beleza.
    
Karen caiu na risada, enquanto Felipe a encarava sério.
    
— E como sabe que não é só um truque pra se aproximar de você?
     
Karen se recompôs, e ainda encarando o mar, falou com tranquilidade.
    
— Eu não sei explicar, Felipe... eu só sei!
    
Karen sorriu tranquila, enquanto Felipe corava. Ela então levantou-se e sacudiu a areia de si.
    
— Bem, mudando de assunto, minha hora de almoço acabou e preciso reassumir meu posto. Hoje estou de vigia... Se quiser me acompanhar...

Felipe aceitou o convite com animação

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Felipe aceitou o convite com animação. Adorou saber que poderia desfrutar da companhia de Karen por mais alguns minutos.
    
— Tem certeza que não estou atrapalhando?
    
Felipe perguntou, parado, em pé, ao lado de Karen, que olhava fixamente para o mar através do binóculo.
    
— Claro que não! — Karen respondeu de pronto — Se não for incômodo pra você conversar com alguém que está de olho em alto mar...
    
O mar estava super calmo agora, bem diferente de algumas horas atrás. A maré virou, e agora as ondas balouçavam tranquilamente na linha do horizonte.

Karen desejava largar o binóculo e ficar olhando pra Felipe a tarde toda, mas não se atrevia. Sentia-se nervosa e encabulada como uma adolescente atrapalhada.
    
Felipe estava curioso e se aproximou dela... mesmo não podendo vê-lo, Karen podia sentir a proximidade e um calafrio percorreu seu corpo.
    
— O que está olhando com tanta atenção? A voz de Felipe sobressaltou Karen — Será que posso olhar também?

Karen levantou-se rápida, tentando disfarçar o nervosismo, então fez Felipe se sentar na cadeira de observação.

Colocou-se em pé atrás dele, e inclinou-se sobre seu ombro pra ajustar o foco do aparelho. Os cabelos de Karen tocaram o pescoço de Felipe, fazendo-o estremecer.
    
— Está nervoso? — Karen perguntou tentando disfarçar o próprio nervosismo de estar tão próxima de Felipe — O mar sempre nos causa mesmo esse impacto.
    
Karen ficou em pé, atrás de Felipe e repousou uma das mãos no ombro dele. Felipe tentou se concentrar no mar e ignorar o toque sutil daquelas mãos ingênuas que ele tanto desejava.
    
— É tudo simplesmente magnífico, Karen!
    
Ela sorriu concordando e os dois continuaram em silêncio, com medo de serem traídos por seus sentimentos.

— O que está acontecendo aqui?
    
A supervisora de Karen gritou, surpreendendo os dois como se os tivesse pegado em um ato ilícito.
    
Felipe levantou-se assustado e Karen afastou-se, constrangida. Antes que pudesse falar qualquer coisa para se justificar, a supervisora continuou a bronca.
    
— Karen, Você conhece as regras e sabe que não pode trazer paisanos aqui em cima. Se eu permitir que você faça isso, daqui a pouco todos vão querer fazer o mesmo e transformar isso aqui num ponto de encontro secretos... E você, rapaz? Não percebe que ela está em horário de serviço?

Felipe corou como uma criança sendo repreendido pela professora, e levantou-se atrapalhado... só então a supervisora percebeu o "clergyman", (colarinho eclesiástico usado para distinguir o padre das pessoas comuns), e se desculpou, extremamente confusa.
    
— Mas... você é um padre!! Oh por favor, me desculpe! Mas o que faz aqui? Até onde sei, Karen nem é católica!
    
Felipe corou ainda mais sem saber o que dizer, e Karen resolveu fazer as apresentações para acabar com o mal entendido.

— Felipe, essa é minha supervisora, Denise... Denise, esse é meu amigo Felipe. Ele é filho de um dos socios de minha tia e blábláblá, uma história longa demais pra explicar agora, mas ele está me ajudando a fazer umas investigações sobre minha mãe. Como ele estava de passagem, convidei pra dar uma olhada daqui de cima... até onde sei, não é proibido fazer isso... outros já fizeram, além do mais a praia está especialmente calma. Mas não se preocupe... Felipe já está de saída, só nos dê alguns minutos.
    
Denise estava extremamente sem graça e se desculpou.
    
— Eu peço desculpas novamente... por favor, senhor Felipe, fique à vontade. Vou me retirar agora, mas não tenha pressa.
    
Felipe estendeu a mão para cumprimentar Denise, e atrapalhada, sem saber ao certo o que fazer, ela beijou-lhe a mão respeitosamente, e saiu apressada.
    
Felipe resolveu que já era hora de retirar-se também e não atrapalhar o serviço de Karen.
    
— Acho que não devo mais interromper seu serviço, Karen. Nos veremos em outra hora, e desculpe por fazer você levar bronca. Por hora, vou deixar isso com você, mas não vá perdê-lo. Faça uma cópia e me devolva ... esse papel precisa voltar ao cofre de madame Esmeralda amanhã mesmo.
    
Felipe estendeu para ela um envelope contendo o exame de DNA, o único documento onde havia o nome de sua mãe. Karen estremeceu já imaginando as possibilidades.
    
Felipe se foi e deixou Karen ali, com o envelope nas mãos. Enquanto ele caminhava pela areia, e Karen o observava de longe, os dois soltaram um longo suspiro.

***

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