Torre - 10 - Movimento do peão

20 3 9
                                        

- Aqui.
- Hã?! O que?! Como você apareceu atrás de mim?!
- Hehe... Thalli? A senhora Finarla me contou que você saberia me dizer o que aconteceu comigo. Ela me disse que eu recebi a benção do Espírito. Você tem algo a dizer?
- Errr... hehe... - Eu sinceramente não estava preparado pra isso agora.
- Thalli? Quer que eu... - Meu pai, que já sabia da situação, entrou no meio pra me ajudar.
- Não, pai. Pode deixar. Soha você recebeu uma benção, sim. Assim como eu.
- Você também?!
- Sim. Olha aqui no meu peito. - Abri um pouco a minha camisa e mostrei a marca pra ela.
- Hummm... eu também tenho uma marca de nascença, mas não é igual ao seu.
- Sim. Nós temos marcas diferentes, mas as duas marcas são provas da benção que cada um recebeu. Pelo que eu sei até agora algumas pessoas já nascem com essa marca e a minha benção faz despertar a benção dessas outras pessoas.
- Ah... então é por isso que só agora consigo provocar os efeitos da minha benção. Você despertou a minha... E como você fez isso?
- Errr... Eu toquei... - Falei bem baixinho.
- O que você disse?
- Eu toquei na sua marca.
- Você tocou na minha mar... Queeeeeeee?! - Ela cruzou os braços na frente, escondendo a parte dos peitos, e me olhou com cara de nojo. - Thalli... nunca pensei que você faria uma coisa dess...
- Espere! Espere! Não foi do jeito que você tá pensando!

Meu pai que estava ouvindo do lado, apenas colocou a mão no rosto como que quisesse que essa conversa acabasse logo. Expliquei pra ela que eu não poderia contar os detalhes, mas não tive nenhuma má intenção quando fiz aquilo. Felizmente ela se acalmou, mas continuou brava comigo e no final protestou que iria comigo de qualquer maneira, pois a ira da senhora Finarla era esperada de qualquer maneira. Além do mais, com essa benção, ela poderia se defender nessa viagem.

Decidimos então partir rumo à Vila de Riagorma novamente. Dessa vez ela veio andando conosco.

- Soha? Como você descobriu a sua benção?
- Hum? Quando percebi já estava usando. Demorei pra descobrir que se tratava de uma, na verdade. Você poderia ter me contado, né?
- Hehe. Me desculpe. Eu ia te contar quando voltasse.
- Sei...
- E como é sua benção? O que consegue fazer?
- Hummm... - Ela colocou um dedo na bochecha e começou a pensar. - Eu ainda não sei tudo, mas até agora consigo desacelerar o tempo por alguns segundos.
- Hã?
- O que foi?

Como assim ela desacelera o tempo?! Que superpoder é esse?! Comparado às bênçãos dos artesanatos, parece um canhão contra estalinhos!

- Me desculpe. Estava pensando. E você consegue fazer isso várias vezes?
- Eu tentei ontem, mas parece que eu fico bem cansada quando faço e só consigo de novo depois de algumas horas.

Bem cansada? Será que ela tá falando de MP? MP, ou Magic Point, é uma espécie de energia armazena em nosso corpo que utilizamos para soltar magias. Bom... isso é um conhecimento de jogos e histórias de fantasia que sei da minha vida passada. Não sei como isso se aplicaria aqui. Pode ser um outro tipo de fonte de energia ou a própria energia do corpo.

Pelo que entendi até agora esses poderes devem ter algo relacionado com peças de xadrez. As visões de morte que tenho e esse poder da Soha devem estar relacionados. Pensando nas regras xadrez, o rei só pode ser captura caso seja encurralado, ou seja, xeque-mate. Enquanto isso não ocorrer o rei é obrigado a fugir da situação de xeque, quando uma peça ameaça sua captura. Acho que as visões seriam alertas de xeque e enquanto eu estiver nessa situação terei visões de morte.

Já o poder da Soha, deve estar relacionada ao peão. O peão muitas vezes é considerado a peça mais fraca e descartável. No entanto tem uma importância estratégica enorme e seus movimentos especiais o torna uma peça crucial em algumas jogadas. Geralmente o peão só consegue se mover uma casa por vez, mas a partir do ponto de partida é permitido mover duas casas de uma vez, todos eles, como se usasse dois turnos em apenas um.

A forma como Soha descreveu seu poder e como ela desapareceu da minha frente e apareceu atrás de mim, se parece com esse movimento do peão. Ainda tenho dúvida quanto se ela pode fazer isso repetidas vezes. O peão não pode.

- Thalli? Tá tudo bem?
- Hum? Ah... Tudo sim. Vamos andando.
- Então tá. Vamos!

Continuamos andando em direção à Vila de Riagorma. Meu pai puxando o carrinho, eu do lado dele e Soha logo atrás. O resto caminho conversamos sobre amenidades e comentando sobre alguns moradores da vila. Perguntei para meu pai se ele queria ajuda para puxar o carrinho, mas parece que aquele carrinho todo cheio era leve demais pra ele ou não quis que um garoto de 12 anos ajudasse ele. Então recusou.

O céu já estava alaranjado quando avistamos de longe uma mudança no terreno. O mato verde alto pareciam se tornar amarelados e cada vez que chegávamos mais perto, aquilo se tornava mais claro. Uma vastidão de plantação de trigo se estendia o quanto se podia vislumbrar, da floresta de Rodadanhel à esquerda aos pés da cordilheira à direita. Ao fundo começava a brotar um muro feita de troncos de árvores. Chegando mais perto, pessoas estavam entrando pelo portão, após terminarem o trabalho do dia.

Uma pequena fila se formava no portão, com dois guardas ao lado vestindo uma armadura de couro e empunhando lanças com o dobro de sua altura. Parecia uma armadura romana ou grega. Não sei diferenciar. Eles paravam cada um que entrasse. As pessoas pareciam mostrar algo no peito. Chegou a nossa vez.

- Identidade, por favor.
- Pai? - Atônito, olhei para meu pai.
- Aqui está. - Ele pega um pingente comprido retangular pendurado em uma corda no pescoço e mostra ao guarda. - Esses são meus filhos.

O que?! Fiz uma cara de assustado por um instante e logo fiquei com o corpo ereto como uma madeira olhando para o guarda e fiz sinal para Soha fazer o mesmo.

- Humm... Agol... Bem vindo de volta. Vá direto para o destino, pois já está escurecendo.

Meu pai recolheu o pingente para dentro de sua camisa e começa a puxar o carrinho novamente. Ufa! Parece que meu pai já esteve aqui antes. Mas por que ele disse que Soha era filha dele?!

- Pai? A Soha é minha irmã por acaso? - Soha olha pra mim de lado enquanto anda.
- Ah. A identidade normal só permite identificar o portador e a família.
- Hum? Ahhh... Entendi.
- Pu... Hahahahahaha!
- Que é, Soha?!
- Hahahahaha! É que... é que foi muito engraçado a sua reação quando você achou que eu era sua irmã.
- Hum. Eu sei que não. Só achei estranho só.
- Hahaaam. Você queria que eu fosse sua irmã?
- O que?! Não te aguentaria 1 segundo lá em casa!
- Sei... Hehe.
- Ha ha...

Mas que desgraça! Pensei que meu pai estaria revelando um segredo bem na minha frente! Que ódio! Mas o que mais me surpreendeu foi a vista que eu tive ao atravessar o portão.

- Uau!
- Uau! - Soha repetiu comigo.

Uma rua se formava à nossa frente, ladeada por várias casas de dois andares. Tinha até alguns com dois andares. As casas pareciam feitas de madeira, mas suas paredes tinham um reboco branco. Aquilo é... gesso? Havia algumas lojas e hospedarias. Vi vendendo tanta coisa que queria parar em cada loja que passava.

Além das casas, me surpreendi com as pessoas. Os únicos humanos que tinha visto nessa vida era Jolin, um cara branco e loiro qualquer, e Egar, um velho quase careca de cabelo castanho. Mas aqui, nesta vila, vi tanto os brancos como os pretos e de várias outras cores e etnias, com traços árabes, asiáticos, cabelos pretos, dourados, cacheados, lisos... Pareço estar em uma convenção internacional do meu antigo mundo. E o que é aquilo?! Um rabo e orelhas peludas na cabeça?!

A Jogada de ThalliOnde histórias criam vida. Descubra agora