- Meu nome é Gilbart de Egar. Sou responsável pela segurança da vila. Como vocês se chamam.
- Eu sou Agol. Estes são Thalli e Soha. Somos da Vila de Rodadanhel.
- Certo. Agol, Thalli e Soha... - Ele começou a escrever nosso nome no papel. - E chegaram quando aqui?
- Foi hoje mesmo. Algum problema, senhor? - Meu pai o indagou.
- Ah. Não. Pra vocês não, por enquanto... Mas pra eles... Sorte de vocês que eles tinham uma reputação conhecida. Senão teríamos mais problemas. Eu até vou agradecer por ter nos poupado o trabalho. Aliás eles estão com as cabeças colocadas a prêmio. Foi você sozinho que os pegou, Agol? - Ele então olhou no fundo dos olhos do meu pai.
- Sim. - Meu pai respondeu após olhar pra mim e pra Soha.
- Certo. Acho que essas crianças não teriam a força para enfrentar esses caras... Teriam?
- Não... Não, claro.
- Está bem. Onde está Thorel? Geralmente é ele que vem da vila de vocês.
- Ele se machucou e não se sente bem. Viemos no lugar.
- Hummm... Muito bem. Ei! Annya! Confirme a identidade de Danton e faça o relatório. - Ele gritou olhando pra fora da sala.
- Sim senhor! - Uma voz feminina respondeu no ato de lá.
- Venham pegar a recompensa amanhã. O prêmio dele é de 70 moedas de prata. Vou adicionar mais 10 moedas pelos capangas. Tudo bem?
- Senhor? - Eu falei dessa vez.
- Que foi garoto?
- Gostaria de perguntar uma coisa.
- Pois então diga.
- É proibido caçar escravos, mas é permitido ter escravos aqui?
- Ah. Haha. Comprar e vender escravos é bem normal por aqui. O que não pode é praticar violência contra quem não é escravo na região. Entendeu, garoto? Esses caras vinham sequestrando demi-humanos e até alguns humanos pra vender em outra região.
- Mas como conseguem escravos aqui se não podem sequestrá-los com violência?
- Curioso seu garoto, heim Agol?
- Me desculpe senhor. Vamos Thalli!
- Não. Tudo bem. - Gilbart o interrompeu. - Garoto. As pessoas podem se tornar escravas por vários motivos. Pagamento de dívida, pena por crime, presos de guerra e, o mais triste, redução de "boca para alimentar". Não é permitido forçar alguém a se tornar escravo senão legalmente, apesar de existir mercados negros como os que esses caras frequentavam.
- Entendi... E o que são demi-humanos?
- Hã? Você não sabe garoto? Você é um.
- Como assim?
- Haaa... Demi-humanos são espécies como vocês que se parecem conosco, podem se comunicar conosco, mas não são humanos. Os mais conhecidos são os elfos, como vocês, os bestiais, aqueles com orelhas de animais e rabo, os anões e os reptilianos. Muitos deles são mal-vistos pelos humanos e têm sofrido em conviver conosco e muitos vivem na miséria, principalmente os bestiais que não têm nenhuma habilidade além da sua força e resistência. Alguns os consideram perfeitos escravos que conseguem resistir nas piores condições.
- Hummm... Então os humanos costumam escravizar os demi-humanos por serem mais pobres, endividados e marginalizados?
- Olha garoto. Eu simplesmente não me importo se vocês, demi-humanos, são pobres ou são ricos. Contanto que vocês não causem nenhum problema infligindo nenhuma lei, vocês podem fazer o que quiserem. Entendeu?
- Tudo bem, senhor. Muito obrigado por me explicar tudo.
- Haaa... Vê se não causa nenhum problema enquanto estiverem aqui, heim. Podem ir.
- Vamos Thalli!
Após essa longa conversa, saímos daquela guarnição e fomos direto para a hospedaria. Deixamos nosso carrinho nos fundos da hospedaria e entramos por uma porta estilo saloon. Ao entrar, o lugar parecia um saloon mesmo. Mesas redondas espalhadas pelo salão com várias pessoas comendo e bebendo. Parecia até uma grande festa.
Nos fundos havia uma atendente num cubículo separado do bar. Vestia um vestido preto com um avental marrom. Ou era uma blusa preta? Era uma jovem ruiva e parecia bem atarefada.
- Com licença! - Chamei a atenção dela. Tive que gritar por causa do barulho.
- Ha! Oi! Vocês vieram se hospedar ou jantar?
- Pode ser os dois?
- Claro que sim! Aqui elfos são bem-vindos. Vocês estão em quantos?
- Um adulto e duas crianças.
- Haaa... Pode ser em um quarto só?
- Tudo bem. Estamos em família. - Olhei de relance para Soha que pareceu ficar com vergonha. - Mas teriam camas separadas?
- Sim. É justamente um quarto com quatro camas. Só sobrou esse. É um quarto compartilhado, mas se pagar por todas as camas podem ficar só vocês. Aí fica 8 moedas de bronze, incluindo uso do poço e café da manhã.
- Hum... Está bem. Aqui está. - Entreguei uma moeda de prata. - Podemos já subir?
- Aqui, seu troco. Já que vocês vão jantar vou pedir que se dirijam ao salão para eu tirar o pedido de vocês e, enquanto vocês comem, vou arrumar o quarto.
- Está bem. Vamos lá, Soha, pai?
- Hum.
- Vamos! - Soha respondeu dando um pulinho.
A atendente nos mostrou uma mesa vazia e nos sentamos.
- Hoje vocês podem escolher entre sopa de búfalo ou de javali. Acompanha pão e água. Qualquer um custa 2 moedas de bronze. Se quiserem uma fruta também ou suco, é 1 moeda de bronze cada. O que vão querer?
Hum. Búfalo e javali. Devem ser parecidos com carne bovina e suína. Após passar alguns anos aqui, eu perdi a resistência em comer carne, apesar de que eu era vegana na vida passada. Eu era porque não aceitava a forma como a indústria tratava os animais para nosso consumo. Aqui neste mundo ainda não conheço quais são as formas que esses humanos tratam os animais.
- Essas carnes são de caça?
- O que? Ah. Sim. Vocês elfos se importam com isso. São caças da Vila de Wynhere a leste daqui. Eles monitoram o rebanho de búfalos que vivem livre na planície e também caçam os javalis do sudoeste de Rodadanhel.
- Então tudo bem. Eu vou querer de búfalo. Pai, Soha, vão querer o que?
- Búfalo.
- Eu quero javali.
Eu não sabia que os elfos tinham uma consciência parecida com a minha em relação aos animais. Será que foi coincidência uma vegana vir parar em uma comunidade de elfos? Eu pensei que eles não comiam muita carne porque não tinham como conseguir mesmo.
- Dois de búfalo e um de javali... - Ela estava anotando no papel. - Certo. Vou trazer o pedido de vocês.
- Obrigado.
Ela foi até o bar para informar o pedido. Dentro de poucos minutos ela nos trouxe uma bandeja com a nossa comida, uma jarra de barro com água e copos de madeira. Hum? Na idade média eles não tinham problema em beber água? E que por isso tomavam muita cerveja e vinho?
- Moça. Essa água está limpa?
- Oi? Claro que sim. Temos filtro com carvão e sangue do mar.
- Sangue do mar?
- Sim. Aqui. - Ela me mostra um frasco com um líquido avermelhado. - É só pingar algumas gotas e ficamos sem risco de pegar doença. Conseguimos adquirir a alguns meses atrás. A água fica um pouco amarga, mas nada demais.
Isso é iodo! Subestimei demais o nível de tecnologia deste mundo. Achei que estariam no nível da idade média ou clássica. Se existirem alguns alquimistas empenhados, ou químicos, eles podem extrair iodo da água marinha e algas. Por precisar de apenas pouca concentração disso, misturado na água, o iodo é bem útil de se transportar quando for acampar ou fazer trilha. Realmente deixa a água um pouquinho amarga.
- Ah, sim. Obrigado.
- Hummm... Tudo bem. Vou lá ajeitar o quarto de vocês. Podem me chamar depois se precisarem. Me chamo Helena. Bem-vindos à Hospedaria Planície de Sonhos.
Ela então subiu para o andar de cima. Aliás, era um vestido preto até os joelhos.
- Hmmm!
- Que foi, Soha?!
- Isso tá muito bom! Come logo, Thalli!
- Hum. - Meu pai nos olhou por um instante e voltou a comer.
- Tá bom.
É. Sopa de carne. Estava bom sim, mas nada demais. Prefiro a comida da minha mãe, Fanar. Hehe. Terminamos de comer e pedimos para Helena nos levar ao quarto. Sinceramente, eu estava tão cansado que me deitei naquela cama, forrada de palha, e apaguei.
Tive um sonho estranho. Parecia estar flutuando no ar e estava tudo meio borrado. Então com uma velocidade incrível fui lançado para cima e pude ver que estava vendo esta vila por cima. Algumas luzes iluminavam as ruas. A vila tinha uma rua grande, cortando a cidade ao meio com várias ruazinhas se estendendo dela. Não havia uma separação clara entre as partes da vila. Apenas era tudo aglomerado. Vi apenas que tinha uma casa maior que se destacava, mas de resto pareciam tudo o mesmo.
Lentamente fui me aproximando do solo e ao invés de voltar para a hospedaria fui me aproximando daquela loja. Quando pensei que ia bater no telhado, meu corpo passou por ele como se eu fosse um fantasma. Passei por entre as paredes e laje e então me encontro em um quartinho minúsculo, onde só caberia uma cama de criança e nada mais.
O quarto estava bem escuro, só entrando uma fina luz do luar por uma fresta no alto da parede. E então ouvi um choro.
- Hic. Hic. Mamãe. Papai. Hic.
Tentei olhar de onde vinha o choro e então vi no cantinho do chão, aquela bestial que vi mais cedo, sentada e agarrada aos seu joelhos.
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Sessão Thalli curioso. Agol deixa o Thalli livre a maior parte do tempo mais por ele ser desajeitado do que por ele ser liberal ou libertário.
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A Jogada de Thalli
FantasíaEsta é mais uma história de uma garota deste mundo. Ela reencarna no corpo de uma criança elfa negra, em outro mundo, com todo o conhecimento anterior após morrer em um acidente. A criança é um menino. A confusão sobre seu novo sexo, cultura totalme...
