"Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você."
Já devem ter ouvido ou lido essa famosa citação de Friedrich Nietzsche. Já estive em perigos nessa vida e na outra, mas nada se comparou ao me deparar com a viciosidade humana. De alguma forma, esse mal transcende universos e perverte até esse novo mundo na qual me encontro.
Eu sou de tolerar até a conquista de terras, sobrevivência dos mais fortes ou até o simples olho por olho e dente por dente, mas esse mal que corrompe as pessoas, os fazem enganar e dissimular pra obter aquilo de que não precisa e se achar por direito de fazer o mal que fez... Ah... Isso eu não tolero.
Após tirar um cochilo depois daquela noite mal dormida... Ou melhor dizer, daquela manhã, pois eu só caí no sono mesmo quando o Sol já tinha raiado, me levantei e já fui caminhando pra fora da casa.
- Thalli. Você, acordou já? Espere!
- Bom dia, mãe. Vou lá ver como está a casa da senhora Finarla.
- Tudo bem, filho, mas tome um café da manhã antes. Já está na mesa...
- Eu volto logo. Aí eu tomo. Estou indo.
Minha mãe, Fanar, estica o braço um pouco e tenta me alcançar com mão antes de eu sair, mas então se encolhe e só me vê partir. Sem virar, saio e vou em direção à casa da senhora Finarla.
O Sol já estava quase a pino, mas a vila estava tão silenciosa quanto de noite quando todos estariam dormindo. Não deve ter sido só eu que teve o sono arruinado de noite. Cheguei à escada da casa e Norriel estava sentado nela.
- Bom dia, Norriel.
- Hmm? Ah... Bom dia Thalli. Vai falar com a senhora... Haaa... Finarla? Acho que ela deve estar dormindo... ainda. - Ele deve ter ficado de guarda até agora.
- Tudo bem. Vim ver como estavam as coisas só.
- Hum... Tá bom então. Haaa... Seu pai está lá dentro. Pode ir e fale com ele.
- Está bem. Até mais Norriel.
- Até... Haaaa...
Ele deve estar bem cansado. Logo outros da vila irão acordar e trocar com ele. Entrei na casa que também estava em completo silêncio. Entrei na sala e não havia ninguém lá. Alguns armários parecem ter sido mexidos. Deve ter sido o Jolin atrás de algo. Entrei na cozinha e também estava vazia. A cozinha ainda tinha restos da festa de ontem. Acho que a senhora Finarla ia limpar hoje pela manhã. Bati na porta do quarto então e entrei.
- Ah. É você. - Meu pai, Agol, sentado à cadeira, empunhando uma lança me fitou.
- Bom dia, pai. Vim ver como estavam as coisas... O que?! Senhor Thorel?! - Assim que entrei mais no quarto avistei-o na cama de Soha.
- Hum. O pescoço dele foi cortado, mas felizmente tínhamos ainda a poção que o manteve vivo. Hum. E não fale muito alto para não acordá-las também.
- A poção...
Senhor Thorel... Achei que o tínhamos perdido... Todo aquele sangue... Tentei ver os sinais dele naquela hora, mas ele devia estar tão fraco que não consegui sentir... hic... hic... Estou chorando. Não consigo parar de chorar. Hic... hic...
- Hic... E a... hic... senhora Finarla? Como... hic... ela está?
- Ei ei. Pare de chorar. Ela está bem por enquanto. Está dormindo junto a Soha, olhe.
Me aproximei delas e as duas estavam dormindo abraçadas. Deve ter sido difícil para as duas. Olhando para elas decidi novamente que eu devo me tornar mais forte e esperto para que isso nunca mais se repita. Não quero vê-las assim novamente.
- Pai. E o Jolin? - Limpei minhas lágrimas e o fitei seriamente.
- Hum. Ele está lá embaixo ainda com o Marriel e Tegol. - Pai e irmão de Dastar.
- Tá. Mais tarde eu volto, pai. Preciso preparar algumas coisas.
- Ei ei. Você vai aprontar o que dessa vez?
- Não se preocupe. Vou ficar bem. - Pelo menos "eu" vou.
...
Já em casa. Tomei meu café da manhã, se bem que já era de tarde, e saí de novo até a casa de minha tia, Terda. Minha mãe, dessa vez, nem tentou me deter. O pessoal da vila já tinha começado a acordar. Vi de longe que alguém estava substituindo Norriel. A casa da minha tia fica do outro lado da vila, próxima ao pomar do sul.
- Bom dia.
- Boa tarde, né, Thalli.
- Bom dia.
- Haaaaa... Bom dia, Thalli.
Fui cumprimentando o pessoal da vila por quem ia passando. Cheguei então à casa dela. É bem parecida com a minha. A maioria das casas daqui tem a mão de Norriel envolvida. O pai dele era um construtor, mas infelizmente não está mais conosco.
- Tia. Posso entrar?
- Thalli? Você por aqui? Entre entre.
- Com licença.
Ela parecia já estar trabalhando a um bom tempo. Mesmo com o que aconteceu essa noite, ela devia estar cheia de encomendas sem ter tempo nem pra dormir direito.
- O que foi, Thalli. Seus pais te mandaram? Tem alguma encomenda pra mim?
- Não é isso não, tia. Queria pedir um favor. Poderia me emprestar algumas de suas agulhas?
- Agulhas? Você tá querendo costurar alguma coisa? Passa pra mim que eu faço pra você oras.
- Não. Não é isso. Queria fazer alguns experimentos e precisava de agulhas pra isso e só conheço você que poderia me emprestar algumas. Talvez eu possa estragar algumas...
- Ah. Haha. Tudo bem. Tenho algumas sobrando aqui, mas tenta me devolver intactas porque não é fácil conseguir outras, viu. 3 dá?
- Está ótimo tia. Muito obrigado. Devolvo o mais rápido possível.
Saí da casa da minha tia e corri direto para a casa da senhora Finarla. Jolin. Me aguarde.
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A Jogada de Thalli
FantasyEsta é mais uma história de uma garota deste mundo. Ela reencarna no corpo de uma criança elfa negra, em outro mundo, com todo o conhecimento anterior após morrer em um acidente. A criança é um menino. A confusão sobre seu novo sexo, cultura totalme...
