Peônia - Olhe pra mim

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Lauren POV


De todas as possibilidades que passaram pela minha cabeça naquele dia, ser beijada por Camila estava tão distante da realidade que sequer cogitei a ideia. Era como uma daquelas cenas que você imagina em um devaneio rápido, mas que logo descarta por parecer fantasiosa demais para acontecer de verdade. Não que eu não quisesse — pelo contrário, o desejo estava ali, silencioso, constante, pulsando em mim toda vez que nossos olhares se encontravam por mais de alguns segundos.

Eu só não imaginava que ela pudesse sentir o mesmo. Sempre houve algo nela que me desarmava, uma mistura de doçura e mistério que me fazia hesitar em qualquer passo além da amizade — talvez por medo, talvez por não saber se era recíproco. Por isso, quando aconteceu, me pegou completamente desprevenida. Foi como se o mundo tivesse desacelerado por um instante só nosso, revelando um desejo que até então estava escondido sob camadas de suposições e silêncios. E mesmo sem ter previsto, naquele momento tudo fez sentido.

Quando o ar começou a nos faltar e uma nova brisa nos alcançou, bagunçando nossos cabelos, me afastei devagar, quase como se o tempo ainda estivesse suspenso entre nós. Soltei sua boca com cautela, sentindo ainda o calor do beijo entre nós. Abri os olhos lentamente, como quem desperta de um sonho e quer prolongá-lo por mais um instante. O rosto de Camila continuava perto, sereno, com os olhos fechados e os lábios ainda entreabertos, como se guardassem o gosto do momento.

Sua respiração suave tocava minha pele, quente e ritmada, e alguns fios de cabelo haviam se rebelado com o vento, pousando em sua testa. Levantei minha mão esquerda, guiada mais pelo instinto do que pela intenção, e comecei a afastar com cuidado cada um deles, como se tocá-la fosse uma forma de prolongar a conexão entre nós. Passei os dedos pela sua testa, ajeitando a franja com a leveza de quem não quer quebrar o encanto.

Com o indicador, desenhei o contorno de suas sobrancelhas, depois deslizei pela linha do nariz, num gesto quase reverente, até alcançar seus lábios. Meu toque era lento, contemplativo, como se estivesse descobrindo-a pela primeira vez, mesmo já conhecendo cada traço de memória. Só então seus olhos começaram a se abrir, devagar, como se o mundo lá fora não fosse tão interessante quanto o que acabávamos de viver. E quando seus olhos castanhos encontraram os meus, soube que aquele momento já morava em nós.

— Eu não vou me desculpar por ter feito isso. E se você quiser correr... — ela olhou para os meus lábios e depois voltou ao meus olhos — a sua chance é agora.

— E-eu não quero que se desculpe — desviei o olhar, focando no pingente de girassol pendurado no delicado colar em seu pescoço. Qualquer lugar era melhor do que seus olhos naquele momento, porque se eu os encarasse, sabia que as palavras simplesmente travariam. — E eu falei pra você fazer...

Minha mão, que antes acariciava seu rosto e agora descansava tímida na lateral da minha coxa, foi envolvida pela dela. Seus dedos entrelaçaram-se nos meus com uma naturalidade que fez meu coração acelerar ainda mais.

Soul Meraki.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora