Meraki (v.) - do grego μεράκι: fazer algo com alma, criatividade ou amor. Colocar parte de si naquilo que se faz.
Numa tarde chuvosa em Melbourne, na Austrália, uma jovem de cabelos castanhos encontra abrigo em uma pequena e acolhedora cafeteria. Do...
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Lauren POV
Já havia se passado exatamente uma semana desde o dia em que comi a torta com Camila. Eu esperava que ela aparecesse outras vezes na cafeteria durante esses dias, mas isso não aconteceu — e eu também não criava coragem de ir até a floricultura dela. "Será que ela está esperando que eu apareça na floricultura?" — pensei, logo negando com a cabeça. Minhas amigas não me perguntavam nada; sabiam que quanto mais me pressionassem, mais eu demoraria a tomar uma atitude.
— De olhos vermelhos, de pelos branquinhos, de passos ligeiros eu sou coelhinho — ergui uma sobrancelha ao ouvir a música e olhei por cima do ombro direito, dando de cara com Dinah. Ela estava de costas, enxugando umas xícaras, parecendo distraída.
— Tá cantando música de coelho? — perguntei. Ela se virou, me encarou por alguns longos segundos e deu de ombros.
— Páscoa tá aí pra isso, minha filha. Me deixa cantar — respondeu, voltando-se novamente para o serviço e recomeçando a cantar, despreocupada: — Sou muito assustado, porém sou guloso, por uma cenoura já fico manhoso.
— Eu pulo pra frente, eu pulo pra trás, dou mil cambalhotas, sou forte demais — cantei também, me encostando no balcão. Foi a vez dela de me olhar com os olhos semicerrados.
— Comi uma cenoura com casca e tudo, tão grande ela eraaaaaaaa, que fiquei barrigudo — disse, passando as duas mãos na frente da barriga, formando uma bola, e me fazendo rir alto.
— Bem sua cara mesmo comer tudo sem se importar com a embalagem — comentei, recebendo um tapa no ombro e me encolhendo.
— Me respeita, dente de coelho, ou eu não te dou nem um ovo de codorna esse ano! — ela apontou o dedo na minha direção com uma expressão ameaçadora. Encolhi os ombros e fiz biquinho em resposta.
Ela saiu cantarolando alguma coisa que não consegui mais ouvir. Me voltei de frente para o balcão e vi quando um rapaz entrou, indo em direção a uma mesa no canto da cafeteria. Ele carregava um pequeno buquê nas mãos. Quando a garota que estava sentada na mesa o viu, abriu um sorriso tão grande que dava para contar todos os dentes da boca.
O rapaz escondia o buquê atrás das costas enquanto se aproximava. Me escorei no balcão e mexi na playlist que tocava nas caixas de som da cafeteria, clicando em "Time After Time", da Cyndi Lauper — amo essas músicas, vai que ajuda a criar um clima ainda mais especial para eles. Vi o sorriso dela crescer ainda mais quando ele, enfim, ofereceu o buquê. Ele também ergueu o dedo, apontando para a caixa de som, como se fizesse algum comentário sobre a música.
Suspirei, apoiando o queixo na mão direita, e deixei a cabeça pender levemente para o lado, observando toda a cena.
Desviei o olhar, fixando-o no balcão, e comecei a fazer desenhos com a ponta do indicador enquanto cantarolava a música que ainda rolava no ambiente. Voltei a olhar para o casal, desta vez focando no buquê — e, inevitavelmente, pensei em Camila. Nada me impede de ir até a floricultura, não é mesmo? Não custa nada... só uma conversa. Eu consigo fazer isso.