Magnólia - Verde

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Lauren POV

Passei o pano úmido pela décima vez no balcão e o dobrei, deixando-o ao lado. Eu acho que era a décima vez, mas não saberia dizer ao certo a quantidade exata de vezes que havia feito isso. Dinah não veio trabalhar hoje. Ela me ligou cedo avisando que estava mal, com o corpo dolorido e bastante febre.

— Lauren, posso ir almoçar agora? — meu funcionário perguntou, meio receoso.

Dinah sempre ficava encarregada de preparar as coisas na cozinha. Eu também fazia, mas antes de abrir, porque eram os itens mais pedidos na parte da manhã. Por isso, meu funcionário estava receoso ao me perguntar se poderia ir almoçar, já que só havia eu e ele ali na cafeteria.

— Pode sim. Se você quiser comer aqui, eu faço algo pra você na cozinha — falei. Ele negou rapidamente.

— Eu agradeço a gentileza, mas já havia marcado com alguém.

Concordei com a cabeça, e ele se afastou, indo em direção à saída. Já era quase duas horas da tarde, e a cafeteria não estava cheia. Havia umas sete pessoas, no máximo, todas com notebooks abertos. Me inclinei no balcão de vidro, peguei um pedaço de torta e coloquei em um prato, sentando atrás do balcão.

— Você vai almoçar isso? — a voz me assustou, e o pedaço de torta que eu levava até a boca caiu no chão. — Desculpa, não quis te assustar.

— Tudo bem — peguei um guardanapo, apanhei o pedaço de torta e joguei no lixo, nem deu tempo de aplicar a regra dos segundos. — Eu não vi você chegar, a porta não fez barulho.

— Você que não ouviu, estava muito concentrada na sua torta — ela falou sorrindo e levantou dois sacos, deixando-os de cada lado do seu rosto. — Trouxe almoço de verdade pra você.

Fiquei encarando Camila sem entender. Já fazia quase duas semanas que não nos víamos desde a última vez em que ela me deu o pequeno cacto. Bastante tempo, eu sei, mas ela precisou viajar e eu fiquei sabendo, através de Normani, que ela foi resolver coisas de negócios e não tinha previsão de volta.

— Como sabia que eu não tinha almoçado ainda? — me levantei e fui até o outro lado do balcão, ficando na frente dela. — Não me acha mal agradecida...

— Jamais, eu não sabia na verdade, foi apenas um palpite — ela gesticulou com a cabeça para uma mesa no fim da cafeteria, encostada à vidraça. — Podemos nos sentar ali?

— Claro — dei passagem e me virei de lado. Quando ela passou, a acompanhei até a mesa e me sentei na cadeira encostada à parede, de frente para a entrada, para poder ver quem entrasse. Deixei o prato com o pedaço de torta em cima da mesa.

— Normani me disse que você foi à floricultura quando eu não estava — ela falou enquanto tirava duas embalagens de dentro de cada saco e colocou uma na minha frente e outra na dela. — Eu fiz uma viagem de última hora, foi tão inesperado que não deu pra avisar...

— Você não me deve explicações — falei, vendo ela abrir a embalagem e me deixar ver um verdadeiro almoço ali dentro. — Digo, eu acho que não, né? — inclinei a cabeça para o lado.

— Bom, na verdade, não — ela deu de ombros, abriu a sua embalagem e me encarou. — Eu trouxe a receita dos biscoitos, estão na minha bolsa.

Mudou de assunto, e eu fiquei a encarando. Acho que fui um pouco rude sem querer com ela.

— Obrigada — ela me deu um sorriso sem mostrar os dentes enquanto mastigava. Eu segurei a minha colher, mexendo na comida, piscando os olhos diversas vezes antes de olhar para ela. — Não só pela receita dos biscoitos — mexi na comida mais uma vez e olhei em sua direção. — Mas por querer me avisar. Eu realmente esperava que você aparecesse aqui depois de eu ter ido lá, e você não apareceu, por isso fui até lá...

— Ei — ela falou baixo e deu uma risada suave. Colocou a mão direita em cima da minha mão esquerda com cautela. — Só vamos comer, certo?

Eu concordo com a cabeça e levo uma colher de comida até a boca, sentindo o quão gostoso está. Ela não falou mais nada e, enquanto comia, eu ficava observando seus movimentos, a forma como mastigava e colocava o cabelo atrás da orelha, que teimava sempre em descer. Por impulso, me inclinei sobre a mesa e levei a mexa teimosa de seu cabelo até a parte de trás de sua orelha. Ela me encarou com cuidado, então me ajeitei na cadeira enquanto ela me olhava, com a ponta da colher encostada nos lábios.

Mordi meu lábio inferior e senti minhas bochechas queimarem. Ela sorriu de lado e voltou a comer. Não demorou muito e já havíamos terminado de comer. Fui até a cozinha pegar um pouco de suco para nós duas e aproveitei para atender algumas pessoas que haviam chegado para o café da tarde.

— É de abacaxi com hortelã — falei, deixando o copo em cima da mesa. — Espero que goste.

— Nunca provei, foi você quem fez? — pergunto, e eu concordo. Ela então deu um gole generoso, fechou os olhos e suspirou. — É uma delícia, Lauren, eu simplesmente amei...

— Se quiser mais quando acabar, eu posso pegar pra você. Eu fiz bastante... — parei de falar quando notei que ela me olhava com um sorriso no rosto. Então, percebi que estava falando demais mais uma vez. — Desculpa, eu fico assim quando estou com você...

— Quando está comigo? — ela bebe mais um pouco do suco. — Você fica nervosa comigo por ser eu ou você é assim com todo mundo?

— O quê? — quase cuspo o suco em cima da mesa, arregalando os olhos. Ela me olhava por cima do copo enquanto ainda bebia, e eu pude ver que era uma pergunta à qual ela realmente queria saber a resposta, não só uma daquelas perguntas para deixar a outra pessoa sem jeito. Me ajeitei na cadeira. — Eu não fico assim com todo mundo. Eu sou tímida, isso é verdade, mas não é tanto assim. — Cocei minha testa com as pontas dos dedos. — Eu não sei como me explicar, Camila, só sei que você me deixa nervosa.

Ela terminou de beber o suco e deixou o copo em cima da mesa. Se virou de lado, pegou sua bolsa e tirou um pedaço de papel de dentro dela. Arrastou com o dedo por cima da mesa até o meu lado, e eu segurei.

— Não abra — ela disse, se levantando e colocando a bolsa no ombro. — É a receita do biscoito. Quando eu passar por aquela porta ali... — ela apontou na direção da saída — ...você abre e pode ler. Pode fazer isso?

Concordei com a cabeça, e ela se aproximou de mim. Se inclinou na minha direção, retirou alguns fios de cabelo da minha testa e então deixou um beijo um pouco demorado na minha pele. Quando se afastou, não me olhou mais. Observei-a passar pela porta e olhei para o papel em cima da mesa. Hesitei por um momento, mas então abri.

Na parte superior da folha estava a receita impressa, mas ao final da página havia algo escrito à mão.

"Nessa viagem, eu tive a oportunidade de ver uma flor verde, acredita? O Gustavo me mostrou, ele é meu amigo e fornecedor. E não sei te explicar o motivo, Lauren, mas assim que meus olhos se encontraram com aquela flor, me lembrei de você e de seus olhos. Dizem que o verde nos acalma e traz equilíbrio, não só ao corpo, mas também à alma. E que também nos traz boas energias. Tudo isso me lembra você, Lauren. Me sinto assim quando estou com você. Espero que aproveite a receita e que ela faça bastante sucesso no seu café."

Ass: Camila Cabello.

Olhei no final da folha e encontrei um saquinho com uma pétala verde dentro. Abri o pequeno embrulho, retirei a pétala e a levei até o nariz, cheirando com os olhos fechados. O aroma era agradável. Um sorriso nasceu nos meus lábios, e eu neguei com a cabeça, balançando as pernas freneticamente enquanto ainda sorria. Ela lembrou de mim.

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"A magnólia, com suas pétalas suaves e fragrância doce, guarda em seu ser a essência de um momento fugaz, aquele em que os corações, mesmo sem palavras, falam uma linguagem que só o vento e o silêncio podem compreender."


Soul Meraki.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora