Meraki (v.) - do grego μεράκι: fazer algo com alma, criatividade ou amor. Colocar parte de si naquilo que se faz.
Numa tarde chuvosa em Melbourne, na Austrália, uma jovem de cabelos castanhos encontra abrigo em uma pequena e acolhedora cafeteria. Do...
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Camila POV
Caminhando pela rua a caminho da minha floricultura, quase caí quando senti algo se enrolar nas minhas panturrilhas. Me segurei na parede de vidro de uma loja e comecei a rir ao ver que era um pequeno buldogue francês, que havia dado várias voltas com sua corrente em volta das minhas pernas.
Desenrolei a corrente com cuidado e me abaixei, acariciando a cabecinha do pequeno animal.
- Me desculpa, moça - um garoto que aparentava ter uns 17 anos falou, um pouco sem graça. - Ela tá muito agitada hoje.
A cachorrinha não parava de me lamber.
- Parece que ela gostou de você.
- Ela é muito linda - apertei de leve sua barriguinha e comecei a passar as pontas dos dedos ali. Ela se deitou de lado, levantou a perninha traseira e ficou com a língua caída pro lado, os olhinhos fechados. Parecia até que estava sorrindo.
- Ela é sua?
- Não - ele enfiou a mão no bolso da bermuda - é da minha vizinha. Eu passeio com os cachorros do pessoal do prédio em troca de uma graninha...
- Qual o nome dela?
- Amora - respondeu. Ao ouvir seu nome, ela abriu os olhos e mexeu as orelhas, toda atenta. - Ela é bem carinhosa e dócil.
- Eu tô vendo - disse, me levantando. Acariciei a cabeça da pequena Amora mais uma vez, em despedida. - Tchauzinho, pequenininha. E você... - olhei para o garoto - bom trabalho pra você.
- Obrigado!
Ele assentiu com a cabeça e se afastou. Fiquei observando a cachorrinha de coleira verde sumir calçada abaixo - ela parecia até estar rebolando. Sorri sozinha e voltei a caminhar em direção à floricultura.
Uma lembrança me veio como uma brisa meio agridoce. Há uns quatro anos, eu também tinha um cachorrinho. Na verdade, era do meu namorado na época - o Noah. Pensar nele sempre me faz lembrar da flor Antúrio. É uma flor linda, vistosa, mas faz parte daquelas consideradas tóxicas. Exige cuidado, atenção, e às vezes o melhor mesmo é não ter em casa.
Ele era assim: bonito, mas tóxico.
Não durou muito. E quando terminamos, ele levou o pequeno Russell Terrier com ele. Talvez tenha sido melhor assim - por nós dois, e pelo cachorro.
Abri as portas da floricultura e virei a plaquinha com o nome "Aberto" para o lado de fora. Caminhei até o balcão, deixei minha bolsa embaixo, e puxei o ar pelas narinas.
A mistura de perfumes me invadiu imediatamente - suaves, doces, terrosos. Cada flor com sua identidade, sua energia.
Um sorriso largo tomou meu rosto. Acho que não consigo me imaginar trabalhando com outra coisa que não sejam flores.