capítulo 26

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Watts: Parta o coração dele, que eu parto a sua cara.
(Alguém muito especial)

O resto da semana passou muito devagar e o fim de semana mais ainda. O mais chato foi ter que estudar para as
provas sozinha. A Gabi não gosta de estudar em dupla, e eu tenho que admitir que realmente senti falta do Leo
naquele momento. Eu sempre estudava com ele. O Leo é ótimo em Física, exatamente a matéria que eu mais
detesto! E ele tem um jeito de explicar melhor que qualquer professora particular... Fiquei pensando se ele não ia
aparecer, como sempre aparecia quando tínhamos provas, cheio de cadernos e bombons (como recompensa pelo
nosso esforço, segundo ele), mas o interfone ficou mudo o fim de semana inteiro.
Fiquei estudando sozinha o tempo todo, trancada no quarto, não fui ao cinema, não tomei sorvete, não vi DVD,
não fiz nada. Conversei com a Gabi algumas vezes pelo telefone, mas ela estava toda preocupada, morrendo de
medo de afundar em Química; ela precisava tirar 8 em 10 na prova, senão, com certeza, ficaria de recuperação.
Então, só parei de estudar para comer alguma coisa, ir ao banheiro e rezar para a semana passar bem rápido e as
férias começarem logo para acontecer algum movimento na minha vida. Eu nem imaginava como as coisas iam
ficar movimentadas já na segunda-feira...
Eu estava saindo da prova de Inglês e indo pra biblioteca estudar mais um pouco para a prova de Química, que
ia ser depois do intervalo. Pelo menos disso eu gosto nesse colégio, nas semanas de provas eles tiram todas as
aulas e deixam vários horários vagos pra gente ficar estudando.
Resolvi passar na cantina só pra comprar um refrigerante e vi que a Vanessa estava sentada lá, com duas das
“amigas-clones” dela. Elas estavam de costas, não me viram chegar. Eu estava torcendo para que elas não me
notassem, pra eu não ter que ouvir uma alfinetada qualquer, e passei bem de mansinho por trás delas. Foi aí que,
sem querer, eu ouvi uma parte da conversa.
A Vanessa estava com um CD na mão, com uma cara de desprezo e rindo muito. Quando eu olhei para o CD,
reparei que era do Leo, com a típica capa azul que ele coloca em todos os CDs que grava. Eu então parei pra
escutar o que ela estava dizendo.
“... aí você imagina que ele me deu este CD de aniversário, falou que gravou pra mim e que depois queria saber
o que eu tinha achado? Será que esse garoto não se enxerga? Fazer um presente em vez de comprar? Quem ele
está achando que eu sou? Caramba, e, com o dinheiro que a família dele tem, ele poderia ter me comprado vários
CDs de verdade, ou uma roupa bonita, ou até uma joia! Ainda bem que eu ganhei também flores e bombons
anônimos, certamente vindos do Rafael, aquele filho do amigo do meu pai, que eu contei pra vocês que fica me
cantando... pois, da próxima vez, eu vou dar bola pra ele. Vou continuar com esse pirralho do Leo só porque é bom
pro ego ser bajulada, mas só mesmo enquanto eu não arrumo outro namorado mais à minha altura.”
Eu não quis ouvir mais nada. Me subiu uma raiva e, quando eu vi, já tinha arrancado o CD da mão dela e falado
bem alto que era pra não deixar dúvidas: “Escuta aqui, se você está pensando que vai fazer o meu amigo de bobo,
está muito enganada! Eu te PROÍBO de fazer isso! O Leo é muito ingênuo e acredita demais nas pessoas, mas eu
não vou deixar você pisar nele!”.
Ela puxou de volta o CD e falou no mesmo tom que eu: “Querida, você teve a sua chance... se alguém fez o
garoto de bobo, esse alguém foi você, que ficou esse tempo todo com ele do seu lado só faltando implorar pra ser
notado e você o tratando como um amiguinho, perdendo seu tempo olhando para aquele professor cabeludo nosso
que não sabe que a época do Woodstock já passou há muito tempo! Agora é minha vez e você não vai me
atrapalhar!”.
Como eu perco a voz em todas as situações importantes em que eu preciso dar uma resposta imediata, claro que
dessa vez não seria diferente. Fiquei completamente sem palavras.
Ela guardou o CD na mochila e saiu da cantina, rindo com as amigas como sempre.
Fui para a biblioteca morrendo de vergonha, mas não deu mais pra estudar, não consegui pensar em outras
coisas além das palavras da Vanessa. Além de ter falado exatamente o que a Gabi sempre fala a respeito do Leo
gostar (ter gostado?) de mim, ela ainda mostrou que sabia perfeitamente do meu interesse pelo Marquinho! E eu
que pensei que ninguém, além da Gabi, soubesse disso! Será que a Gabi andou contando pra todo mundo?
Eu queria falar com ela imediatamente, mas não consegui descobrir onde ela estava. No fim do horário vago,
quando bateu o sinal para começar a prova, vi que ela saiu correndo de dentro do banheiro, com uma cara muito
preocupada. Eu cheguei perto, mas, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela disse: “Agora não, Fani, não
fale nada, por favor. Se alguém falar qualquer coisa, a matéria que eu decorei vai sumir toda da minha cabeça!”, e
saiu correndo pra sala antes que eu tivesse chance de responder.
Por sorte, eu já passei em Química. Não consegui me concentrar em pergunta nenhuma, então resolvi responder
qualquer coisa nas questões abertas e chutar qualquer letra nas de múltipla escolha. Fui a primeira a sair da sala.
Fiquei lá embaixo, na porta do colégio, ansiosa pela saída da Gabi, mas, pelo que eu conheço dela, com certeza ela
seria a última a sair, porque ia ficar conferindo cada detalhezinho das respostas até o final do horário!
Eu estava andando de um lado pro outro quando a Natália saiu, me viu e veio falando em minha direção: “Nossa,
que cara de preocupação! Você precisava de muito ponto?”.
Eu falei pra ela que já tinha passado, mas acho que não consegui desfranzir a testa, porque ela perguntou se eu
estava preocupada então com as próximas provas.
“A semana de provas é o menor dos meus problemas...”, eu falei, meio que pensando alto.
Ela perguntou se então era ansiedade pelo intercâmbio chegando e, de repente, me peguei contando pra ela o
que eu tinha ouvido na cantina mais cedo, tomando o cuidado de omitir a parte que a Vanessa tinha falado que eu
gostava do Marquinho. E que o Leo gostava de mim.
“Fani! Você precisa contar isso pro Leo! Ele é seu amigo! Você gostaria que ele visse alguém fazendo você de
boba e não te contasse?”
Eu dei um grande suspiro e falei que o caso era muito mais complicado.
Tem muito tempo que eu e a Natália não conversamos, o que é um pouco estranho, porque quando éramos
crianças costumávamos ser melhores amigas, a gente sempre morou perto, dormíamos uma na casa da outra todo
fim de semana, aonde uma ia, a outra ia junto. Mas aí a gente cresceu, começamos a estudar em horários
diferentes, ela arrumou outras amigas, eu também comecei a andar com outras pessoas e naturalmente nos
distanciamos, apesar de nunca termos perdido o contato. Mesmo depois que eu fui pro colégio dela, nunca mais
voltamos a ser como antigamente... mudamos bastante, ela se tornou mais extrovertida, eu mais introvertida, ela
só pensa em menino, eu acho que menino só dá dor de cabeça, ela tem as amigas da sala dela, eu tenho a Gabi...
mas de vez em quando eu sinto falta de uma característica que só a Natália tem... ela é quase tão sonhadora
quanto eu. E acho que, por isso, ou talvez por ela me conhecer tanto, por tantos anos, ela sempre capta pela minha
expressão o que se passa dentro de mim, mas nunca me recrimina ou ri da minha cara... muito pelo contrário, ela
acaba sempre falando aquilo que eu quero escutar, que é inevitavelmente uma extensão do meu sonho com
desfechos ainda mais inesperados que os que eu sonharia por mim mesma.
“Fani, nós precisamos conversar!”
Ela foi me puxando pela mão até umas escadinhas que tem na frente do colégio. Sentamos e ela começou: “Eu
sei que a gente está meio distante, que eu não sei nada direito do que está acontecendo com você e que eu tenho
andado muito centrada só nos meus problemas... mas você é minha amiguinha de infância, Fani... eu sinto falta de
participar da sua vida!”.
Eu fiquei olhando pra ela sem falar nada um tempo e, aí, de repente, perguntei: “E o Mateus, como vai?”.
“Ai, Fani”, ela falou, abrindo o maior sorriso, “você acredita que no fim de semana eu encontrei com ele no...”.
De repente, ela parou e falou: “Não. Você sempre desvia o assunto. Desta vez nós estamos falando de você!”.
“Sim, mas eu realmente queria saber sobre o Mateus... como você começou a gostar dele mesmo?”, eu
perguntei só por perguntar, porque eu já tinha ouvido aquela história umas 324 vezes. Ela estava no Sexta-Mix,
que é um evento que tem toda primeira sexta-feira do mês no clube, aonde as pessoas vão supostamente pra
dançar, mas o que acontece é que lá pelo meio eles inventam de colocar música lenta e todo mundo tem sua
chance ideal de ir conversar com quem está paquerando, uma vez que o clima já está armado... eu só fui uma vez,
mas fiquei meio sem graça, já que não sou muito de dançar.
A Natália começou a contar o caso pela 325ª vez: “Foi no Sexta-Mix... inclusive vai ter um nesta sexta, Fani,
você tem que ir!”.
Como eu não disse nada, ela continuou com aquela expressão sonhadora, como se estivesse vivendo naquele
momento a cena que estava me contando: “Bom, eu estava na pista de dança quando vi chegando um monte de
meninos mais velhos, tipo de faculdade, tomando cerveja e fazendo bagunça. Eu comecei a sair de perto, já que vi
que eles estavam meio bêbados e mexiam com todas as meninas que passavam na frente... foi quando vi no meio
deles aquele rostinho mais lindo do mundo, olhos azuis, aquele cabelo castanho lisinho... ele riu pra mim, eu ri de
volta, aí o amigo dele veio e perguntou meu nome, eu respondi, e aí ele me falou o nome de todos eles, mas o único
nome que eu consegui guardar foi o do Mateus... E aí você já sabe. Apaixonei-me perdidamente e estou assim até
hoje...”.
Eu sorri pra ela e aí ela perguntou por que eu queria saber isso. Aí eu falei que era só curiosidade, mas na
verdade eu queria era saber por que as pessoas resolvem gostar umas das outras...
Ela viu que eu fiquei meio pensativa e perguntou: “E o Marquinho?”.
O sorriso que ainda estava no meu rosto sumiu completamente. Eu comecei com aquele meu tique que aparece
sempre que eu fico nervosa, de ficar enrolando fio por fio do meu cabelo no dedo e depois escolher um deles para
arrancar, e antes de eu pensar em alguma coisa pra responder, ela falou: “Larga o cabelo, Fani, li na Istoé que isso
aí é doença, viu? É chamada ‘tricotilomania’, pode parar agora!”.
Eu larguei o cabelo meio impaciente e perguntei: “O que tem o Marquinho, ficou doida?”.
E ela: “Ai, Fani, para com essa cena! Você não está querendo esconder isso de mim, né? Sei perfeitamente da
sua paixão por ele, há séculos!”.
“Ex-paixão! Anota aí, EX-PAIXÃO!”, eu falei, sem pensar que com isso estaria admitindo.
Ela riu e falou: “A Gabi me contou que ele é casado, aquele farsante... que raiva dele que tive!”.
Eu fiz a maior cara de indignação: “Que raiva da Gabi, isso sim! Por que ela tinha que te contar isso? Quem mais
sabe que eu gostava dele? Porque, pelo que eu estou entendendo, o colégio inteiro sabe disso e eu aqui achando
que era um segredo só meu!”.
“Não, a Gabi não tem culpa de nada!”, ela falou depressa. “Ela só me contou o caso da mulher dele porque eu
perguntei por que vocês foram embora de repente naquele dia do trabalho de Geografia. Mas que você era a fim
do Marquinho eu já sabia há tempos, né, Fani? Você vem toda arrumadinha nos dias da aula dele e quando bate o
sinal e tem Biologia no quarto horário você é a primeira a ir pra sala... além disso, quando ele passa, você olha com
um ar de idolatria tão grande... e também sempre tira as melhores notas nessa matéria. Eu só juntei dois e dois.”
Eu fiquei morrendo de vergonha. Agora percebo o papel ridículo que fiz durante todo esse tempo.
“Alguém mais sabe disso, Natália? Que eu gostava dele?”, eu perguntei completamente apreensiva.
“Nunca ninguém falou sobre isso comigo”, ela disse um pouco pensativa. “Acho que só eu e a Gabi mesmo, mas
porque conhecemos você muito bem...”
Eu já ia soltando um suspiro de alívio, quando ela completou: “Ah, e o Leo, né?”.
Eu só faltei desmaiar. Como assim o Leo sabia disso?
“Como assim o Leo sabe disso?”, eu perguntei.
“Ué, não foi você que contou?”, ela respondeu com outra pergunta.
Eu devo ter feito uma cara de quem ia começar a chorar, porque ela ficou toda: “Não, espera, pode ser que ele
não saiba... mas é que, um dia depois que aconteceu o tal caso da mulher dele, eu o vi parando o Marquinho no
corredor e perguntando onde ele escondia a aliança... eu confesso que achei o Leo completamente maluco, espero
do fundo do meu coração que ele já tenha passado em Biologia, mas achei legal ele estar de certa forma tirando
satisfação pra você... por isso achei que ele soubesse, que vocês conversassem sobre isso, sei lá...”.
Dessa vez eu realmente comecei a chorar. Não sei se pelo fato do Leo saber e nunca ter me falado que sabia, ou
por ele ter afrontado o Marquinho por mim. Ou ainda por eu ter lembrado que o Marquinho era casado. Ou pelo
que a Vanessa tinha me dito. Ah, acho que eu tinha mesmo bons motivos para chorar naquele momento.
“Fani, esquece o Marquinho”, ela falou tirando um lencinho de papel da mochila e me entregando. “Tem tanto
menino bacana aí no mundo, que poderia te fazer tão mais feliz...”
Eu ri, mas dessa vez um riso incrédulo, e perguntei: “Quem? Cite um nome!”.
Ela nem piscou e falou: “Ah, o Leo, por exemplo...”.
Aí eu fiquei brava: “Natália, vocês estão zoando com a minha cara, isso é um complô, pode falar! Primeiro, a
Gabi. Depois, a Vanessa. E agora, você! Todo mundo sabe que eu gostava do Marquinho e acha que o Leo gosta de
mim, é isso?”.
E ela: “Não, eu não acho, eu tenho certeza de que você é a paixão da vida do Leo”.
Eu revirei os olhos e ela continuou: “Mas que a Vanessa também tinha certeza disso é novidade, como foi isso?
Ela te falou?”.
Eu contei novamente o caso da cantina, dessa vez sem esconder nada, e aí ela falou: “Ah, então! Voltamos aonde
começamos. Fani, você tem que contar isso pro Leo”.
“De jeito nenhum!”, eu falei já com o choro controlado. “Ainda mais agora. Ele vai achar que eu estou com dor
de cotovelo por causa do Marquinho e que quero estragar a felicidade dele também!”
“Fani”, ela falou muito séria, “não só eu, mas todo mundo assustou quando o Leo começou a ficar com a
Vanessa. Todo mundo tinha certeza de que o Leo estava fazendo isso só pra te provocar ciúmes, ninguém achava
que isso ia durar mais do que uma semana!”
Eu falei pra ela que definitivamente não era por isso que ele estava com a Vanessa, já que ele tinha ido à minha
casa exclusivamente para me contar que estava gostando dela.
“Isso é apenas mais uma prova, Fani! Ele queria te provocar alguma reação! Como você não dá o braço a torcer
e não deve ter manifestado sentimento nenhum, ele continuou com ela e está assim até hoje, acomodou!”
Eu ia começar a replicar, mas ela foi mais rápida: “Olha, eu te conheço muito, mas muito mais do que você
imagina... eu participei com você de todas as suas paixões inventadas, sei como você tem capacidade de se
apaixonar apenas por olhares e de desapaixonar mais rápido ainda. Mas eu vou te dar um conselho de amiga... o
Leo pode ser o seu primeiro amor real, tome cuidado para não deixar o tempo passar muito... ele pode começar a
gostar realmente da Vanessa, ou de outra menina... e aí, quando você acordar, pode já ser tarde demais...”.

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