Steve: Por que você só come as balas marrons?Mary: Porque uma vez alguém me disse que elas têm
menos cores artificiais, já que chocolate é marrom mesmo, e isso ficou na minha cabeça.Steve: Você ficou
na minha cabeça.
(O casamento dos meus sonhos)
No sábado, depois da cartomante, eu, Gabi e Natália fomos tomar sorvete e ficamos horas conversando. Fizemos
um trato de contarmos umas pras outras tudo o que a dona Amélia tinha dito, mas juramos que nada sairia dali,
ficaria só entre a gente.
Eu já tinha ouvido as previsões que ela tinha feito pra Gabi. Ela e a Natália já tinham conversado enquanto eu
estava lá dentro. Agora só faltava eu saber as da Natália e as duas – curiosíssimas – saberem as minhas.
“Primeiro você, Natália!”, eu falei, tentando adiar ao máximo possível a minha vez.
Ela começou a contar, meio tristinha, que a dona Amélia tinha dito que o Mateus não a merecia, que ele era um
pouco cafajeste, que paquerava todas as meninas e que, se ela continuasse com ele, ia acabar sofrendo muito. Cá
entre nós, acho que a Natália não precisaria ter ido a uma cartomante pra saber disso... poderia ter economizado
dinheiro e eu mesma ter contado isso pra ela!
“Ela falou também que eu vou casar muito cedo, mais ou menos aos 21 anos”, a Natália continuou um pouco
mais empolgada, “e que vou ter três filhos!”.
“Vai casar grávida?”, a Gabi perguntou, sem esconder o riso.
“Ela disse que tem um rapaz interessado em mim. Que ele é mais velho e não frequenta muito os meus
pensamentos, mas que eu deveria dar uma chance para ele porque ele pode me fazer muito feliz.”
“Então você vai desistir do Mateus agora?”, eu perguntei, na esperança de finalmente não ter mais que ouvir a
Natália implorando para a gente sair atrás dele com ela.
“Eu, hein! Viver sem estar apaixonada é muito ruim!”, ela falou, dando uma grande colherada no sundae. “Agora
sua vez, Fani! Solta a informação logo!”
Morrendo de vergonha, eu comecei a contar devagarzinho. Falei primeiro a parte da minha família, depois falei
que a dona Amélia tinha dito que eu podia confiar nelas (as duas sorriram nessa hora), contei da minha viagem e
da minha apreensão em relação ao que ela disse sobre esse assunto e terminei falando que ela tinha dito que eu ia
passar de ano, se estudasse.
As duas continuaram me olhando sem dizer nada, eu então tomei mais um pouco do meu milk-shake, olhei pra
elas – que continuavam paralisadas – e falei: “Oi! Vocês congelaram aí?”.
“Estamos esperando o resto!”, a Gabi respondeu, como se fosse óbvio.
“Que resto? Acabou! É só isso, minha vida não vai ser animada como a de vocês!”, eu falei rezando para elas
acreditarem.
A Natália então deu um sorriso, pegou na minha mão e, como se estivesse falando com uma criancinha, disse:
“Fani, eu entendo de cartomantes. Nenhuma delas deixa de falar do lado sentimental. Essa é a parte mais
importante! Por que você não confia na gente? Puxa, a gente te contou tudo!”.
Na mesma hora eu lembrei que a dona Amélia tinha dito que as meninas confiavam bem mais em mim do que eu
nelas. Dei um suspiro, brinquei um pouco com o canudinho, olhei pras duas e falei: “Tá bom! Ela falou do Leo!”.
Elas bateram palmas e, sorrindo, pediram pra eu contar tudo.
Eu contei. Comecei meio devagar, falando sobre o medo dele e o pé atrás com mulheres em geral, depois eu
disse sobre a descrição exata que ela tinha feito dele fisicamente, aí eu dei uma paradinha, respirei fundo e,
quando vi, já tinha contado o resto todo e mais um pouco... inclusive que ela tinha perguntado se eu estava
apaixonada por ele e que eu tinha dito que sim... nessa hora as duas gritaram e me abraçaram!
“Acho que foi isso que ela disse, talvez em outras palavras...”, eu finalizei, depois de tomar um grande gole do
milk-shake. “Mas eu acho que ela errou nessa parte em que nós vamos ter um romance... ele não quer nem falar
comigo, que dirá algo mais!”
A Gabi levantou, pegou um guardanapo no balcão, pediu uma caneta para o garçom e escreveu bem grande: “PLANO DE AÇÃO – FANI & LEO”.
Nós passamos o resto da tarde desenvolvendo estratégias, pensando em coisas que eu poderia fazer para que o
Leo voltasse a ser o que era antes. O plano consistiria em duas fases: Reaproximação e Conquista.
A primeira parte eu teria que começar a colocar em prática na segunda-feira. E assim foi. Dei um jeito de chegar
atrasada, para o Leo já ter chegado e escolhido o lugar, e sentei exatamente ao lado dele.
Ele me olhou com uma expressão não muito feliz, como se eu estivesse incomodando, falou “oi” rapidinho e
voltou a prestar atenção na aula.
Eu esperei até uma parte da aula em que a professora sempre sai da sala e deixa a gente fazendo exercícios. O
bilhetinho já estava pronto. Foi só colocar em cima da mesa dele.
“Eu pensei que fosse coisa para um dia só
Ficar de mal de mim
Reagi, sou sua amiga e digo
Como vai?
Você fica sério e nem sinal
Brigou comigo...” Mal de mim – Djavan
O Leo é louco por música. Se Djavan não servisse para fazer com que ele prestasse atenção em mim, pelo menos
um pouquinho, nada mais adiantaria...
Fiquei completamente tensa enquanto ele lia. Um sorrisinho passou bem de leve pela boca dele e ele então virou
o bilhete, escreveu alguma coisa nas costas do papel, colocou em cima da minha carteira e voltou a fazer os
exercícios dele.
“Esse papo seu tá qualquer coisa
Você já tá pra lá de Marrakesh...”
Qualquer coisa - Caetano
Comecei a rir. Não era bem o que eu esperava, mas já era alguma coisa. Pelo menos ele respondeu, em vez de
amassar o bilhete e jogar fora.
No fim da aula eu continuei com os planos. Como na semana anterior, ele saiu da sala com toda a pressa do
mundo. Mas dessa vez eu também fui rápida. Segui ele até a saída do colégio para ver como ele estava indo
embora. Vi que ele virou a esquina, o que significava que ia de ônibus.
No dia seguinte, falei para o meu pai que não precisaria me buscar. Quando o sinal estava quase batendo,
guardei todo o meu material e fiquei a postos. Fui a primeira a sair da sala e fiquei parada na porta do colégio.
Quando o Leo apareceu, um minuto depois, eu olhei pra ele e falei: “Leo, meu pai hoje não pode me buscar, você
vai de ônibus? Posso ir com você? Tenho medo de andar até o ponto sozinha, aquela esquina fica cheia de
pivetes...”.
Ele não teve como dizer não. Fez que sim com a cabeça e começamos a andar um ao lado do outro.
Eu sempre reclamei da distância do ponto de ônibus em relação ao colégio. Dessa vez, a cada passo eu
agradecia à Prefeitura por tê-lo colocado tão longe assim!
No começo a gente só caminhou, sem falar nada. Quando eu vi que estávamos quase chegando, resolvi tomar
coragem.
“Leo, eu queria conversar com você”, eu falei sentindo o coração quase sair pela boca. Como ele não falou nada,
eu continuei. “Por mais que você negue, você sabe que está diferente comigo. Será que você poderia pelo menos
me falar o que foi que eu fiz?”
Ele ficou meio desconcertado, acho que não esperava que eu fosse tão direta. Ele começou a falar – sem olhar
pra mim – que era impressão minha, que ele estava igualzinho, e então eu continuei o meu discurso.
“Não está igual, mas não está mesmo! Esse não é o Leo que eu conheço. O meu Leo nesse momento não estaria
calado. O Leo de quem eu gostava estaria tagarelando qualquer assunto, como, por exemplo, como uma lata de
leite condensado dá pra fazer sete dias e meio de brigadeiro para a sua sobremesa!”, eu falei num fôlego só,
lembrando uma conversa que tivemos no passado.
Ele fez uma cara de surpresa, deu um risinho e falou: “Você chegou a testar quantas vezes a lata de leite
condensado dura pra você?”.
Eu dei um suspiro, segurei o braço dele, fiz com que ele parasse e olhasse pra mim.
“Tá vendo? Esse é o Leo!”, eu falei apontando para o peito dele. “Esse é o Leo que tem sempre uma resposta
bem-humorada, que sempre me faz rir!” Eu recomecei a andar e de repente parei de novo. Olhei bem séria pra ele
e falei: “Não tente me convencer do contrário porque você não vai conseguir”.
Ele não falou nada. Ficamos calados durante o resto do caminho. O meu ônibus chegou antes do dele. Eu fiz
sinal, olhei para ele só para falar “tchau”, mas nesse momento ele me puxou e me deu um abraço. Ficamos
abraçados uns quatro segundos, meu coração totalmente acelerado, aí ele se afastou, sorriu pra mim, olhou pro
ônibus e falou: “Corre, senão você vai chegar atrasada pro almoço!”.
Eu nem estava com fome. Aquele abraço tinha me alimentado para o dia inteiro. Então eu sorri para ele, disse:
“vou lembrar de você na sobremesa!”, e subi no ônibus.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Fazendo meu Filme
RomanceFazendo meu filme nos apresenta o fascinante universo de uma menina cheia de expectativas, que vive a dúvida entre continuar sua rotina, com seus amigos, familiares, estudos e seu inesperado novo amor, ou se aventurar em um outro país e mergulhar nu...
